www.publico.ptpublico@publico.pt - 16 jan 06:15

A Era do Desaforo

A Era do Desaforo

O primeiro quartel do século XXI talvez surja um dia nos livros de história sob o título “A Era do Desaforo”. Eis no que deu a morte de Deus e o eclipse da Verdade.

Existe um site muito interessante que apresenta uma extensa lista dos protestos de massas no século XXI. Em todos os continentes ocorreram dezenas e dezenas de manifestações e rebeliões contra os poderes estabelecidos, observando-se uma enorme variedade de motivações. Estes acontecimentos, muitos deles de extrema violência e longa duração, de tão frequentes, tornaram-se, no século XXI, por assim dizer quase rotineiros. Estarão causalmente relacionados com a globalização? Muitos deles sim, mesmo que indirectamente, mas a globalização e respectivas consequências não explicam todos nem tudo.

Por exemplo, a massiva e violenta mobilização popular em Hong Kong contra a tutela repressiva de Pequim parece algo de endógeno e não uma sequela da globalização. O mesmo se poderá dizer da recente revolta muçulmana na Índia (Dezembro 2019), atiçada pela legislação que discrimina milhões de muçulmanos a quem o governo de Narendra Modi, impelido por uma sanha nacionalista e racista de que não há memória desde a fundação do Paquistão, em 1947, tenciona recusar a nacionalidade indiana a quem não seja religiosa, étnica e culturalmente hindu. Já as violentas e prolongadas manifestações dos “coletes amarelos”, em França, são claramente um acto de resistência desesperada contra a globalização que, entre outros, vem produzindo o efeito de marginalizar a Europa e o Atlântico no quadro da nova “economia-mundo” que há anos ou umas três décadas se vem desenhando e afirmando sob os nossos olhos.

O que impressiona neste nosso século é a frequência, a dimensão, a intensidade, a violência e a tenacidade dos movimentos de protesto. Dizer que tudo não passa de uma revolta de “descamisados” é passar ao lado do alvo. Muita e muita gente bem encamisada, em toda a parte, engrossa o cortejo dos insurgentes, avultando em muitos casos, sintomaticamente, os estudantes. No século XIX, aquando da “Primavera dos Povos” de 1848-9, uma vaga de sublevações contra o legitimismo monárquico em prol do nacionalismo e do liberalismo, Donoso Cortés, um político espanhol muito conservador, concluiu que o problema não residia nos governos, mas sim nos povos, que “se haviam tornado ingovernáveis”. Perante isto, Donoso recomendou algo que, pela primeira vez na história, prefigurava uma ditadura moderna (Carl Schmitt). Tal ditadura não chegou a ser necessária, porque em 1849 o movimento nacionalista-liberal foi militarmente derrotado e o legitimismo monárquico restaurado nos Estados europeus donde fugazmente fora expulso.

A maioria das rebeliões contemporâneas parece não possuir organização, líderes, meneurs ou hierarquia interna. Mas tem, só que sob formas radicalmente diversas dos tradicionais partidos políticos e movimentos sociais. Os telemóveis e as redes sociais substituíram toda essa antiga e pesada engrenagem de mobilização e norteamento. Mas a eficácia das novas modalidades do protesto depende, creio, de uma predisposição alicerçada no desprezo pelos poderes instituídos, não apenas nas ditaduras – o que seria compreensível – como também, com não menos ardor, nas democracias. Da América do Sul à Ásia, passando pela Europa, o mundo parece varrido por uma gigantesca onda catártica, percorrido por uma vaga vingativa de gente a mais variada mas que tem em comum o nunca ter saboreado o poder nem, sobretudo, ter merecido a sua atenção. Estas massas tão variegadas, de braços furiosos erguidos no ar em tão diversos azimutes, com reivindicações tão discordantes, transmitem a impressão de que postergam todas as formas e normas tradicionais da legitimidade cívica e política: berram os seus direitos, exigem que a sua existência lhes seja reconhecida.

A eficácia da nova rebeldia – nova pela simultaneidade e vastidão geográfica, pela sua ousadia e capacidade de resistência – requer também uma considerável indiferença pela repressão punitiva da Autoridade. Cada preso, cada espancado é mais um mártir da “causa”, seja ela qual for. Haverá sempre uma apertada margem para uma certa impunidade pelo motivo de que hoje em dia – felizmente –, no mundo civilizado, que inclui não apenas o Ocidente mas também a América Latina e parte da Ásia (China, Índia, por exemplo), existem linhas vermelhas que os Estados não podem calcar sob pena de se verem acusados de barbárie por infracção dos Direitos do Homem. Sabemos que tais infracções são triviais e quotidianas, mas são-no longe dos olhos do público, em campos de concentração na China (disfarçados de campos de educação) ou em prisões ensanguentadas, como na Venezuela; a tortura não foi extirpada do mundo.

Mas a existência do que não se vê, não se fala nem denuncia é como lixo varrido para baixo do tapete. Não compromete os fautores e não indigna o público. Já a exibição televisiva de “excessivos” desmandos policiais em Hong Kong ou Paris, ou em Santiago do Chile ou Bogotá e Caracas, colocam um país numa indecorosa “lista negra” que envergonha e pode traduzir-se em lesivas “sanções” internacionais. Por outras palavras, os insurgentes sabem que os respectivos governos, em princípio, evitarão chegar ao ponto de mandar a polícia intervir com balas reais, das que não só ferem como matam. Ao abrigo desta muito periclitante garantia, os rebeldes perderam o medo, arriscam e desafiam a Autoridade com desaforo e impudência nunca vistos.

Não, não se está a repetir a Era das Revoluções” (Eric Hobsbawm). Pela heterogeneidade, intensidade e amplitude do fenómeno, o primeiro quartel do século XXI talvez surja um dia nos livros de história sob o título “A Era do Desaforo”. Eis no que deu a morte de Deus e o eclipse da Verdade.

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