www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 jan 16:54

As minhas cartas com um terrorista do Estado Islâmico

As minhas cartas com um terrorista do Estado Islâmico

Há dois anos escrevi uma carta a Abdesselam Tazi, o marroquino preso por terrorismo em Monsanto. Ele respondeu de volta - muitas vezes - Opinião , Sábado.

Abdesselam Tazi era, fisicamente, o oposto do que normalmente se considera um homem perigoso. Com mais de sessenta anos, apresentava uma frágil figura que parecia arrastar-se com roupas demasiado largas para o seu corpo de cada vez que entrava na sala de um tribunal – a única oportunidade que tive de o ver ao vivo, embora várias vezes. Carregava sempre uma pasta castanha com documentos do processo e uns óculos de armação fina que colocava na ponta do nariz, mas a que só recorria para olhar para os papéis. De resto, olhava por cima deles para observar atentamente tudo o que se passava à sua volta. Estava por norma algemado nos pulsos e nas pernas, o que talvez não ajudasse a mostrar um andar confiante de um perigoso criminoso internacional, responsável pelo recrutamento de jovens muçulmanos para a jihad. 

O marroquino chegou a Portugal no final de março de 2017. Para além das suspeitas que lhe eram atribuídas – adesão ao autoproclamado Estado Islâmico, recrutamento e radicalização de outros marroquinos – e da descrição que dele faziam investigadores e alvos – "muito inteligente", "perigoso" e "manipulador" – pouco mais se sabia da sua vida, da sua versão dos factos ou da ideologia que professava. Para tentar descobrir, em abril desse ano escrevi-lhe uma carta, registada, a ser entregue e mão no Estabelecimento Prisional de Monsanto. Não sabia se responderia – e nunca imaginei que aquela se tornaria uma rotina durante o ano seguinte.  

A resposta chegou no início de maio. Numa letra direita, perfeitamente alinhada – e num português bastante aceitável – começou por agradecer a iniciativa, desejar saúde para mim e toda a família e disponibilizou-se a contar a sua história. Descreveu também os crimes de que era acusado e fez longas citações do despacho de indiciação que lhe foi lido pelo juiz Carlos Alexandre. Garantiu estar inocente e mostrou-se disponível para explicar tudo pessoalmente: "se você quiser visitar-me (…) podemos ter contacto, não há nenhum problema". E terminava com um "muito prazer em o conhecer. Até logo. (Ninguém foge ao seu destino.)"

Nos meses seguintes continuámos assim. Abdesselam Tazi escrevia a sua versão dos factos – semelhante ao que acabou por dizer em tribunal –, ia-me pondo a par do desenrolar do processo (interrogatórios, exames, etc) e respondia às minhas questões sobre o seu passado e origens. Nunca entrou em discussões ideológicas sobre grupos como o Estado Islâmico. Limitava-se a alegar inocência: "não sou terrorista nem radicalista", escrevia sucessivamente. Mas não só. Comigo a tentar manter a distância necessária, o marroquino mostrava-se alegre por receber as minhas cartas. Realçava que não tinha ninguém em Portugal, deu-me o contacto do filho que vive na Suécia, indicou-me as suas páginas de Facebook desconhecidas (e abertas) e ia fazendo pedidos – de ajuda.

Durante meses implorou-me que contactasse a advogada oficiosa que lhe tinha sido atribuída e que deixara de lhe responder aos telefonemas e mensagens. Depois que avisasse a família em Marrocos da sua situação. Quis saber como funcionava a justiça em Portugal e se os juízes eram independentes. Pediu moradas de instituições, privadas e públicas, e cópias de noticias que tinham sido escritas sobre ele. Provavelmente porque fui o único a responder-lhe – e Tazi escreveu dezenas de cartas, a polícias, juízes, ministros e até ao Presidente da República. "Preciso da sua ajuda" era uma frase constante.   

Com toda a sinceridade, disse-lhe que não sabia como o podia ajudar. Sou jornalista, não advogado. E expliquei-lhe que o máximo que podia fazer era ouvir a sua versão da história e contá-la com a maior honestidade possível. Ao mesmo tempo expliquei-lhe os prazos da justiça, a forma como a magistratura se organiza e garanti-lhe que Portugal era diferente de Marrocos e os suspeitos tinham direitos que são respeitados. E sim, dei-lhe algumas moradas de instituições públicas para onde p��de escrever.   

Durante todo esse tempo insistimos, de parte a parte, nos pedidos de autorização para uma visita – que acabou por ser recusada porque, segundo o próprio, ao ser detido, Abdesselam Tazi dissera não ter familiares ou amigos em Portugal e que a única prova do nosso contacto se resumia à troca de correspondência.

Sem perspetivas de que essa autorização viesse a ser concedida – nunca foi –, a entrevista (por escrito) ao primeiro preso em Portugal por suspeitas de pertencer ao Estado Islâmico foi publicada em agosto. Depois, por cortesia, enviei-lhe um exemplar da SÁBADO, para que pudesse ler. Foi com surpresa que li, na carta seguinte, a explicação de que a Direção Geral dos Serviços Prisionais tinha apreendido a revista com o argumento de que Tazi só poderia receber publicações na língua materna – não sei se tal será verdade. Mais tarde escreveu-me também que a nossa correspondência tinha passado a ser apreendida porque a entrevista que dera violava as regras prisionais. As minhas cartas eram-lhe lidas e guardadas por um técnico dos serviços de reinserção.

A partir desse momento a nossa troca de correspondência tornou-se mais curta e esporádica. Tazi escreveu-me a desejar um Feliz Natal e depois um bom Ano Novo de 2018 – missivas a que respondi educadamente. Não me agradava a ideia de que as mesmas eram lidas e guardadas por alguém que não o seu destinatário.

Em março, Tazi acabou por ler o artigo. Pouco depois foi acusado de oito crimes relacionados com terrorismo. A acusação confirmava as suspeitas iniciais. Para o Ministério Público, o marroquino era de facto um perigoso terrorista. Passaram-me muitas questões e dúvidas pela cabeça. Sendo que a maior era: com quem estou eu realmente a "falar"? Nunca o pude confirmar de viva voz.

A última carta que me escreveu foi no final de julho de 2018. Nesse mês, o juiz Ivo Rosa tinha-o despronunciado dos crimes de terrorismo, decisão que viria a ser revertida na Relação. Quando a decisão foi anunciada, Tazi levantou-se, passou pelas cadeiras da assistência, escoltado por um polícia que ainda parecia maior ao seu lado, e estendeu-me a mão (e a alguns camaradas também). Foi a única vez que trocámos cumprimentos pessoalmente. Depois, escreveu a tal última carta: agradeceu-me por tudo o que tinha feito por ele – não fiz nada de especial, na verdade – e elogiou (naturalmente) o juiz Ivo Rosa: "Antes eu perguntei a você se há justiça em Portugal e se há juízes honestos. Agora eu posso dizer e responder que sim. O juiz Sr. Ivo rosa é um juiz honesto, capaz, responsável e corajoso".

Na mesma carta já planeava encontrar-se comigo em liberdade. Acho que me considerava um amigo – embora não soubesse que eu não partilhava bem essa opinião. Tudo levava a crer que fazia parte de uma rede internacional que planeava atentados terroristas na Europa. Mas nunca tive a oportunidade de o dizer olhos nos olhos e de lhe perguntar se tinha realmente cometido os crimes pelos quais acabaria por ser condenado em primeira instância. Também não voltarei a ter. A semana passada, Abdesselam Tazi morreu na sua cela no dia em que devia ter sido proferida a decisão do seu recurso pelos desembargadores do Tribunal da Relação. Talvez ele tivesse razão quando me escrevia: "Deus é justo", "Deus é justiceiro" e "Ninguém foge ao seu destino".
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