www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 jan 14:53

OE: Oportunidade perdida

OE: Oportunidade perdida

De pouco vale anunciar a contratação de profissionais sem assegurar-lhes condições para que possam cumprir a sua missão. Que ninguém se iluda, quem entra hoje vai sair já amanhã. - Opinião , Sábado.

O país não nasceu para dar lucro. Este é o ponto prévio. É inegável que este Orçamento do Estado ajuda a combater o histórico subfinanciamento do Serviço Nacional de Saúde, mas não ajuda a resolver um dos principais problemas do sector, a desmotivação crescente dos profissionais e, por consequência, o êxodo para o sector privado e para o estrangeiro. De pouco vale anunciar a contratação de profissionais sem assegurar-lhes condições para que possam cumprir a sua missão. Que ninguém se iluda, quem entra hoje vai sair já amanhã.  

Relacionado Enfermeiros têm nova forma de apresentar queixa contra violência Sindicato dos Enfermeiros Portugueses repudia agressões a profissionais e exige medidas

Aos salários indignos juntam-se a desorganização dos serviços, a falta de visão dos conselhos de administração, a burocratização dos cuidados e agora a crescente violência dos utentes contra os profissionais de saúde. Este orçamento falha porque não investe nas pessoas. Não valoriza, nem acrescenta nada à vida de quem todos os dias mantém o sistema a respirar. Antes pelo contrário. É, portanto, uma oportunidade perdida perante a consciencialização geral de que o SNS ou muda, ou morre.  

Com este Orçamento surgiu também a falácia de que o Ministro das Finanças abdicará do poder castrador sobre a autonomia dos hospitais. A verdade é que de nada vale dar mais autonomia aos conselhos de administração se estes continuam a ser nomeados sem critério e avaliados sem rigor. A escolha política está feita: um país de contas mais do que certas e serviços públicos em parte incerta. A ironia maior é ver a esquerda cúmplice e a direita sem argumentos. Centeno congratula-se com o país que dá lucro e Costa sorri, como se tivesse passado a acreditar que foi para isso que construímos o Estado Social. 

Um país que dá lucro não tem milhares de pessoas que morrem em listas de espera para cirurgias. Num país que dá lucro, os doentes não esperam mais de 6 horas, amontoados em macas, numa urgência, nem existem milhares de enfermeiros que decidem emigrar. Temos, portanto, um país ao serviço do orçamento e não o contrário. Trabalhamos para enriquecer o currículo de Mário Centeno enquanto deixamos destruir o principal pilar da vida das pessoas.

1
1