www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 jan 03:58

Cyberbullying: apenas porque sim

Cyberbullying: apenas porque sim

Há que informar largamente os nossos jovens para os riscos que a exposição da sua imagem publicamente pode correr.

Numa era digital onde tudo se torna demasiado fácil, encapuçado por um ecrã, miúdos e graúdos escondem-se na compensação das suas necessidades sociais maioritariamente falhadas. Objetivos de difícil concretização manifestam-se numa agressão evidenciada por atos de índole dúbia.

Aquilo que se mostra em publicações de redes sociais é apenas os que se quer ver e não aquilo que verdadeiramente somos. Rasgos de felicidade e de vidas ilusionadas mostram-se em fotografias quase sempre de beleza e alegria. Quando assim não é a vitimização, por detrás da publicação, também ocorre. Mostra-se a vida que se pretende mostrar. Mantêm-se fachadas, máscaras do se quer mostrar e erra-se no encontro do que verdadeiramente é. Destroem-se vidas apenas porque sim. A difamação, calúnia e derrame da imagem ocorrem entre adolescentes, mas também e cada vez mais entre adultos. Uma forma cobarde de se atingirem objetivos infelizes de prejudicar a vida alheia. Muitas vezes porque sim.

Entre agressor e agredido a diferença é vasta e ao mesmo tempo tão curta. Agredir é muitas vezes um ato de defesa cobarde. Agride-se por que sim, porque quero e porque a liberdade que me é concedida nas redes sociais é de tal forma extensa que não há limites... e também porque ninguém está a ver, não se é identificado. Já lá vai o tempo em que o que corria menos bem se resolvia cara a cara. Agora ofende-se, denigre-se a imagem de outros por motivo algum, mas também porque sim.

Mas são assim tão importantes as redes sociais que nos fazem colocar a vida em risco ao expor a imagem que é do próprio e só a ele diz respeito? O grau de confiança que deposito em alguém é medido pelo que publica, pelo que diz que disse, e se será ou não de confiança. Entre dez atos de bondade ao próximo, um ato tido pelo outo como desadequado danifica uma relação, porque a virtualidade assim nos ensina. É fácil, descartável e ninguém me vê. Destruo a imagem do outro apenas porque sim.

Quando alguém ataca é porque se sente de alguma forma agredido, seja porque motivo for, mais que não seja porque a vida do outro nas redes sociais (desconhece-a na realidade) é tão boa, tão feliz, tão brilhante, repleta de sucesso que por esse motivo me apetece destrui-la, mesmo sem a conhecer na realidade. Construções mentais de emoções que assolam o corpo ao olhar para a realidade virtualidade social do outro manifestam-se na destruição daquele que se “admira”. A admiração, é subjetiva, pois no seu expoente máximo pode tornar-se obsessão e assim sendo deixam de existir bitolas que sirvam para manter o discernimento.

O agressor deliberadamente assume um papel de prepotência perante aquele, que sofre as consequências da ofensa. A diferença entre nós e os animais é que os mesmos atacam para se defenderem e se alimentarem. O ser humano fá-lo muitas vezes por que sim. A prepotência de quem agride exige uma paciência enorme do outro para que se dê a outra face. Muito poético, muito inteligente, muito sábio dar a outra face quando se sofre na pele a agressão da calúnia e difamação. No entanto, o limite humano permite-nos dizer chega!

Hoje em dia muitas são as crianças que já tem acesso às redes sociais e por vezes com a conivência do adulto. Digo por vezes porque situações há nas quais os pais desconhecem sequer o que os filhos fazem por mares navegados da internet. As redes sociais são de fácil acesso, difícil é sair delas, porque uma vez publicado dificilmente se apaga da net e da mente dos que assistiram de camarote à difamação e calúnia sem nada fazerem. As crianças e adolescentes ainda não atingiram um grau de maturidade para discernir entre o que pode eventualmente ser divulgado e o que não pode. Muitas vezes mesmo o que pode é alvo de calúnia. Esta educação deve vir da família em primeiro lugar, mas também da escola através das aulas de Educação para a Cidadania, por exemplo. Quantas imagens de jovens são colocadas nas redes sociais com fortes avisos de que emocionalmente não estão bem e nada é feito, porque o mundo virtual é de tal forma intrincado que a maioria das famílias e da escola não têm conhecimento deste sofrimento explicito na fotografia publicada para chamada de atenção. Por vezes considera-se (nalguns casos assim é) que o que se publica serve para alimentar o ego com mais likes e seguidores. Mas com isto têm que expor a sua vida, estar constantemente, ligados a uma App para que tenham vida social lá. A exposição mesmo a mais correta, acreditando que não há certos nem errados, pode ser alvo de calúnia e difamação. Como ficará no futuro a vida destes jovens que expõem a sua vida a nu nas redes sociais? Atualmente para termos uma noção superficial da pessoa que temos à frente vamos às redes sociais (por exemplo para uma entrevista de emprego). O que é facto é que muitas vezes são o lobo na pele do carneiro e isso as crianças e jovens são sabem discernir... nem mesmo os adultos. Porque muitas vezes acredita-se que o que é mostrado é o que é real. Em fases cujo desenvolvimento social, mental e da imagem têm elevada preponderância como é o caso da adolescência, como farão a gestão emocional quando, são alvo de chacota, difamação ou calúnia? Como poderão apresentar-se no dia seguinte na escola e enfrentar os colegas? Muitos dirão, infelizmente, “colocou-se a jeito”. Infeliz expressão e de desrespeito pelo ser humano. Consequências graves poderão advir destes atos impensados de jovens para jovens, pois o caminho para situações de automutilação ou suicídio é curto.

O uso de fotografias de crianças e jovens para fins degradantes é algo a reter já que ao ser publicada a fotografia na rede social, por mais cuidado com a segurança que se possa ter, aquela imagem, fica ao acesso de todos. E todos... são mesmo todos.

Mas o que é facto é que os adultos têm dificuldade em ser exemplo, pois ao publicarem nas redes sociais momentos que só aos próprios dizem respeito (por vezes para mostrarem que têm a família perfeita, dentro da desarmonia existente), fotografias de crianças (sem a sua autorização) estão a colocar em risco a vida dos que mais amam. Quanto mais adultos, mais distantes ficam da inocência da infância, e se as crianças são apanhadas nas malhas das redes sociais é por serem crédulas, de que o que vêem é o que é. No caso do adulto, o mesmo sabe ou deveria saber que expor-se nas redes sociais é colocar a sua imagem (literalmente) à disposição de todos. E as intenções nem sempre são as melhores de todos aqueles que se tornam amigos, seguidores, etc. Difama-se, calunia-se derrama-se a imagem apenas porque sim.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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