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Ser homem na época de Adam Driver

Ser homem na época de Adam Driver

Driver parece um boxeur, um tenente disposto a salvar o soldado Ryan, um samurai dos bosques digitais, mas é o primeiro a desatar a chorar quando se esperam heróis - Opinião , Sábado.
Todas as épocas têm o seu modelo masculino, e ele costuma surgir projetado em ecrãs enormes através de focos de luz fantasiosa na escuridão da nossa banalidade. Bogart pelos anos 40. Brando nos 50. JFK e a tragédia fria dos sixties. Paul Newman na transição da década, e os dois Robert (Redford e De Niro) na paranóia dos 70. Viver como homem no tempo de Adam Driver não é tarefa fácil. Driver tem 1,89 m de essência brutal, primitiva – tem músculos onde os outros actores têm tatuagens com juras em línguas que não compreendem.

Foi marine durante dois anos, até uma lesão o lançar fora da carreira militar. Desde puto que fazia peças de teatro, em papéis de delicadeza que considerava uma segunda pele, mas alistou-se logo ao seguir ao 11 de Setembro. É esse bamboleio, esse desalinho, são essas pegadas numa corda tensa sobre o precipício que o tornam um modelo tão difícil de seguir. Driver parece um boxeur, um tenente disposto a salvar o soldado Ryan, um samurai dos bosques digitais, mas é o primeiro a desatar a chorar quando se esperam heróis.

Não se trata da carência oculta no sorriso de James Dean. Ou do tormento de Montgomery Clift. Adam Douglas Driver não só não tem vergonha de ser frágil como mostra orgulho por o ser. É um gigante quando estende a sombra sobre as mulheres (Lena Dunham, Golshifteh Farahani, Scarlett Johansson), mas tão inofensivo como uma criança. Cresceu ao sol másculo da Califórnia, mas as raízes são negras, fundas, paradoxais como as árvores dos pântanos do Louisiana – o padrasto era pastor baptista; nota-se.

Tem voz de barítono, corpo de wrestler e rosto de aluno com orelhas de burro, no castigo. Em menos de uma década, o instinto para se encostar aos grandes é quase insuperável: Clint Eastwood (J. Edgar), Spielberg (Lincoln), os irmãos Coen (A Propósito de Llewyn Davis), Jim Jarmusch (Paterson), Scorsese (Silêncio), Spike Lee (BlacKkKlansman: O Infiltrado), mais o filho espiritual de Darth Vader. Em The Marriage Story, quarta colaboração com Noah Baumbach, Driver agarra-se ao matrimónio como um naufragado a uma jangada que sabe ser de pedra. Afunda-se com brio, cantando Sondheim de coração aberto: "Somebody crowd me with love/ somebody force me to care/ somebody let me come through/ I’ll always be there/ as frightened as you/ to help us survive." Adam Driver é o homem da primeira década do novo século e devemos dar graças por isso. 

Santos e ...

O conceito mais importante do tirânico livrinho vermelho da Michelin não é a classificação por estrelas. É o "Bib Gourmand". Os restaurantes que ostentam o título são planetas sólidos e hospitaleiros onde o que interessa é o traço honesto da cozinha e a relação qualidade-preço de uma carta acessível à pequena e média burguesia (os estabelecimentos com estrelas Michelin são para CEO do PSI 20, reformados finlandeses e nababos dos Emirados). Neste momento há 34 "Bib Gourmand" em Portugal, embora todos conheçamos outros 34, mais modestos, cuja sabedoria na simplicidade vale cada euro. São o nosso abençoado canto fora de casa.

... Pecadores

Chamar "democracia musculada" à Rússia é um delicadíssimo eufemismo: completaram-se agora 20 anos da monarquia constitucional de Vladimir Putin. Marionetista supremo do Médio Oriente, a sua capacidade de influenciar plebiscitos noutros estados – Ucrânia, EUA, Brexit – só é superada pela máscara de ferro que enfiou nos adversários internos e nos media locais. Uma das personagens mais fascinantes no xadrez pós-soviético de Putin é Mikhail Khodorkovsky. Personagem de refinada ambivalência, Khodorkovsky passou, em pouco mais de década e meia, de oligarca mor da teia do czar a inimigo público n.º 1. Discutivelmente condenado por fraude na gestão da petrolífera Yukos, que abarbatara ao erário público, passou 10 anos na prisão até ser perdoado pelo grande chefe, tornando-se um porta-voz da liberdade de imprensa e do Estado de direito. O mosaico de Khodorkovsky pode ser reconstituído em Citizen K, o novo documentário de Alex Gibney, que tem o arraso da Cientologia no currículo. É como olhar para Putin por um espelho fractal.


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