www.dinheirovivo.ptJoão Almeida Moreira - 4 dez 07:07

Infernópolis

Infernópolis

Os “rolêzinhos” tornaram-se assunto político depois de os grandes shoppings do país conseguirem impedir os encontros nos seus estabelecimentos.

Em 2013, ano em que no Brasil a radicalização política se começava a acentuar, a opinião pública dividira-se sobre o tema “rolêzinhos”.

Os rolêzinhos (traduzíveis por voltinha) eram, basicamente, encontros em centros comerciais, os shoppings, de centenas ou milhares de jovens das periferias das grandes cidades.

Combinados pela internet, reuniam adolescentes a mostrar em público ténis de marca ou aparelhos de dentes coloridos, usando uma gíria própria e cantando funk carioca, no caso do Rio de Janeiro, ou funk ostentação, a versão paulistana, onde em vez de temas como crime e favela são os bens de consumo a matéria das letras.

Os “rolêzinhos” tornaram-se assunto político depois de a justiça deferir um pedido dos grandes shoppings do país a impedir os encontros nos seus estabelecimentos.

De um lado, a ala mais à direita dos formadores de opinião considerava que, de facto, um “rolêzinho” não passava do equivalente a um arrastão, a prática de invadir uma praia e roubar tudo o que aparece pela frente, em espaço fechado.

Do outro, a ala mais à esquerda dos colunistas, via na decisão da justiça novo episódio do chamado “apartheid à brasileira”.

O fenómeno chegou a Brasília, com a direita, na época ainda dentro dos parâmetros da normalidade com Bolsonaro reduzido ao seu papel de deputado insignificante, a criticar os “rolêzinhos” na mesma proporção com que a esquerda, então no poder via Dilma Rousseff, defendia o direito de reunião dos jovens da periferia.

Diz quem conhece a periferia de São Paulo que os “rolês” já existiam desde os anos 90 – são até o tema de “Chopis Centis”, música da banda Mamonas Assassinas, fundada em Guarulhos, nos limites da megalópole.

A diferença é que nessa época não existiam redes sociais – e por isso os ajuntamentos eram de pouca gente – e os jovens da periferia não tinham dinheiro para chegar à cidade -, situação que mudara por aqueles tempos com a ascensão de 50 milhões de brasileiros à sociedade de consumo, ou seja, aos grandes centros comerciais.

O certo é que, como esses grandes centros comerciais conseguiram obter da justiça providências cautelares que lhes permitiam selecionar clientela, os “rolês” migraram dali para parques públicos, como o Ibirapuera, onde este repórter fez a cobertura de um deles.

Os bailes funk, como o Baile da 17, na favela de Paraisópolis, morada de 60 mil paulistanos, não passam afinal de “rolêzinhos” noturnos. Sem outras opções de lazer – desde aquela controvérsia de 2013 já nem nos shoppings se podem reunir – os participantes juntam-se na rua, de forma anárquica, dançando, namorando, fazendo barulho e consumindo álcool ou droga como em qualquer outra festa entre jovens de qualquer classe social de qualquer parte do mundo.

Como, por exemplo, o jovem Gustavo Montezano, hoje presidente do banco estatal BNDES, que enquanto morador do nobre Itaim Bibi, bairro a uns 20 minutos de Paraisópolis, provocou “cenas similares a um arrastão”, segundo o juiz, ao derrubar dois portões do seu condomínio, acompanhado por mais 30 amigos com bebidas alcoólicas e até garçons contratados.

Pagou 38 mil reais (à volta de 8,5 mil euros) ao condomínio e não se falou mais nisso. A polícia, chamada ao local, agiu discretamente, conversando com um dos seus amigos, o deputado Eduardo Bolsonaro, e saindo sem causar um arranhão em ninguém.

No último domingo, pelo contrário, a mesma polícia que, segundo o governador do estado João Doria, tem ordem para “mandar bandido para o cemitério”, e, de acordo com o presidente da República Jair Bolsonaro, deve disparar “para bandido morrer na rua igual barata”, foi ao Baile da 17.

Com cassetetes em punho e bombas de gás na mão, os agentes geraram correria por vielas minúsculas, pânico generalizado e a morte de nove garotos, todos pobres e quase todos negros, entre os 14 e os 23 anos.

Todos pisoteados pela desigualdade do apartheid à brasileira.

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