www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 4 dez 20:36

Com ou sem Black Friday, comprar mais um vestido não resolve o teu problema…

Com ou sem Black Friday, comprar mais um vestido não resolve o teu problema…

… mas aumenta o nosso: do consumismo, da ansiedade, da desigualdade, do clima. - Opinião , Sábado.

No rescaldo de uma friday que se estendeu pelo fim de semana e se transformou numa cyber segunda-feira, depois de conhecer dois mercado de trocas e perceber que, finalmente, que a nova tend��ncia é esta, de reutilizar mais e comprar menos, arrisco dizer que, sobre vestidos, nunca é apenas mais ou um e nunca é apenas só desta vez. É sempre, porque vivemos numa sociedade que depende do consumo para justificar a sua pertinência e garantir a sua existência. Quando foi a última vez que se recusaram a consumir e que impacto teve nas vossas vidas?

Life is short, buy the damm shoes é uma frase que ressoa sempre que temos esse vislumbre, quase epifânico, sobre o acto de comprar. Na loja, camisolas, calças ou vestidos pendurados no braço, avançamos para a caixa. O preço baixo, a renovação constante, a arrumação da loja, o cheiro a novo, as luzes que nos favorecem - sempre - e a ideia de que somos nós que queremos comprar, não eles que nos querem vender, transformou-nos radicalmente. Sei-o porque também já fui assim, dependente da aprovação dos outros para a minha auto-aprovação. Assisti ao nascimento da Zara, o seu impacto na moda, o declínio de marcas locais e o corrupio das miúdas, em Lisboa, que se organizavam em grupos, para fazerem compras na Guerra Junqueiro. 

A Black Friday não é apenas uma Sexta-feira porque o desvario começa antes, arrastando-se depois, até ao Natal, numa espécie de rescaldo para vender o que sobrou e o que podemos inventar. Se é certo que o podemos evitar, também é certo que precisamos vestir alguma coisa. 

A questão impõe-se: se não faço compras nas lojas fast fashion, onde as posso fazer?

A resposta não é simples. 

Há quem defenda que temos toda a roupa de que precisamos, só não a sabemos conjugar; outros optam pelas trocas em encontros que vão timidamente surgindo para isso mesmo, trocar peças de roupa; há quem compre em segunda mão e há quem opte por comprar em marcas sustentáveis. Em comparação com a fast fashion, é fácil comprar nestas marcas? Não é. Se para mercearia e frescos biológicos já encontramos muitas soluções, na roupa e sapatos nem por isso. Implica pesquisa, tempo e, principalmente, alguma paciência. Estas marcas estão dispersas, raramente têm loja física, dão-se a conhecer em mercados e perdem-se no fluxo de imagens no instagram. E para estas marcas, é fácil vender? Também não. Algumas desaparecem porque não resistem à pressão, outras percebem que, apesar de quererem dar um contributo para a mudança, são apenas mais uma marca a tentar sobreviver num universo repleto de opções, na sua maioria, pouco conscientes. Enquanto as grandes marcas - e os consumidores - não aceitarem que é preciso mudar, valem-nos estilistas como Stella McCartney que se associa a marcas para as tornar um bocadinho mais sustentáveis (os novos Stan Smith), sem que percam o apelo do consumo e é, também aqui que reside parte do problema: é necessário limitar a produção para evitar que muitas toneladas de roupa sejam incineradas porque não foram vendidas ou porque já não estão na moda. Uma das principais características do slow fashion, ético e sustentável, é a utilização de fibras naturais, tintas não agressivas para o corpo e o meio ambiente, bem como a capacidade de reinventar e eternizar os clássicos que nunca ficam fora de moda. Objectivo? Um guarda-roupa cápsula que permite múltiplas combinações, comprando menos e melhor.

A moda das tendências da estação em constante renovação e produção de novas peças novas para cada semana do ano são insustentáveis para o ambiente e a carteira: é estimado que em 2030 cada um de nós produza cerca de 17.5 kg de lixo têxtil por ano: roupa que compramos e descartamos, roupa que não chegamos a usar, roupa que não se vendeu. É urgente comprar menos, escolhendo o que perdura, fibras que não se desgastam. Simultaneamente, mudar a forma de pensar, aceitar trocar porque, das trocas (os swap markets) nascem relações e, com essas relações, recuperamos o sentido de comunidade que também o fast fashion fez perder, estimulando a inveja e a comparação. 

Se cada um de nós optar por comprar, no máximo, uma das tendências da estação, já imaginaram no número de peças de roupa que deixamos de comprar? Como lia há dias no perfil de alguém, cujo nome não recordo, mas que lembrava com saudade os anos 80, o casaco de bombazina que usou na altura, que passou para a irmã e, depois, para as primas, serve agora ao seu filho. Impecável, como eram as fibras de antigamente e que ainda podemos encontrar nas lojas. Todas que não são fast mas que são igualmente fashion. Deixo-vos alguns exemplos de lojas físicas e online, numa lista não exaustiva, desprovida de interesses comerciais, para quem quer um guarda-roupa sustentável: Naz, Conscious Swimwear, Balutta, Zouri, Sapato verde, Nas Vegan Shoes, Rise Alan, Tailor by Maria do Mar, Pikikos, Pecegueiro & F.os, Paparina, Cleonice, Insane in the Rain, Isto, Flávia Aranha, Enzo e Eva, Couve.

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