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Milan Kundera volta a ser checo 40 anos depois

Milan Kundera volta a ser checo 40 anos depois

“Um gesto simbólico” para reparar a injustiça cometida pelo regime comunista contra “o melhor escritor checo”, explicou o embaixador da República Checa em Paris.

O governo da República Checa decidiu devolver a Milan Kundera a cidadania checa, que lhe fora retirada em 1979, pela autoridades comunistas da então Checoslováquia, quando o autor de A Insustentável Leveza do Ser já estava há alguns anos exilado em França.

O documento que formaliza esta decisão foi entregue ao escritor na passada quinta-feira pelo embaixador da República Checa em Paris, Petr Drulak. O diplomata dirigiu-se ao apartamento parisiense de Kundera e pediu-lhe desculpa, em nome do seu governo, pelas perseguições de que o autor fora alvo durante anos.

“Foi uma cerimónia simples e cordial”, descreveu Drulak à televisão pública francesa. “Estava de bom humor, pegou no documento e disse ‘obrigado’”. A ausência de solenidades públicas não retira relevância, argumentou ainda o diplomata, a este “gesto simbólico muito importante” que vem reparar uma injustiça cometida contra aquele que considerou “o melhor escritor checo”.

A diligência do embaixador veio culminar um processo que se iniciara há cerca de um ano, em Novembro de 2018, quando o primeiro-ministro da República Checa, Andrej Babis, líder do partido populista ANO 2011, se encontrou em Paris com Milan Kundera e lhe propôs recuperar a cidadania que lhe fora retirada há 40 anos.

Hoje com 90 anos, o escritor vive em França desde 1975, obteve a nacionalidade francesa em 1981, e há muito que escreve as suas obras directamente em francês.

Crónico candidato ao Nobel da Literatura, Kundera é provavelmente o escritor checo mais conhecido no mundo depois de Franz Kafka, mas nem a queda do regime pró-soviético da Checoslováquia normalizou as suas relações com o país Natal. Sinal dessas persistentes tensões é o facto de A Insustentável Leveza do Ser, que publicou em 1983 e se tornou o seu maior sucesso comercial, tendo sido adaptado ao cinema em 1988 por Philip Kaufman – num filme com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin –, só ter tido a sua primeira edição checa em 2006.

Kundera tinha apenas 21 anos quando, em 1950, foi expulso pela primeira vez do Partido Comunista checo, por “actividades anti-partidárias”, incidente que inspirou o seu romance A Brincadeira (1967). Readmitido no partido em 1956, foi novamente expulso em 1970, já na ressaca da Primavera de Praga, na qual se envolvera activamente, ao lado do dramaturgo, e futuro presidente, Václav Havel. Nos poucos anos em que ainda permaneceu no país, antes de se radicar em França, Kundera esteve impedido de publicar.

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