expresso.ptexpresso.pt - 4 dez 12:44

Consumo de carvão para produzir eletricidade teve novo mínimo histórico em setembro

Consumo de carvão para produzir eletricidade teve novo mínimo histórico em setembro

Em setembro Portugal queimou apenas 22 mil toneladas de carvão para produzir eletricidade, um registo mensal sem igual no histórico que a Direção-Geral de Energia publica desde 2005

O esforço de descarbonização que a Europa tem levado a cabo, nomeadamente pondo as centrais termoelétricas a pagar mais pelas emissões de dióxido de carbono (CO2), está a surtir efeitos no espaço, cada vez mais curto, que o carvão tem no sistema elétrico português. Em setembro Portugal alcançou um novo mínimo histórico no volume de carvão consumido para produzir eletricidade, segundo o levantamento feito pelo Expresso a partir dos registos da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) até ao ano 2005.

Em setembro foram queimadas 22 mil toneladas de carvão na produção de eletricidade em Portugal, menos de metade das 46 mil toneladas de agosto, revela o mais recente boletim estatístico sobre combustíveis fósseis da DGEG. Ora, não há, recuando até 2005 (últimos números detalhados por aquela entidade), registo de um tão baixo nível de consumo de carvão no sector elétrico em Portugal. O anterior mínimo era de março de 2010, quando tinham sido queimadas 38 mil toneladas de carvão para gerar eletricidade em Portugal.

Considerando o consumo anualizado de carvão, nos 12 meses terminados em setembro o nosso país tinha consumido 3,05 milhões de toneladas de carvão para produzir eletricidade (a indústria também queima carvão, mas num volume muito inferior, 17 mil toneladas por ano). Um valor bastante abaixo dos 3,5 milhões de toneladas no consumo anualizado até agosto, e que foi um mínimo de oito anos. E longe do nível de 4,5 milhões de toneladas que Portugal manteve de setembro de 2018 a abril de 2019, momento em que o consumo de carvão para eletricidade começou a cair de forma considerável.

Esta queda na produção de eletricidade a partir do carvão tem várias explicações e é um fenómeno que deverá ditar importantes perdas para as elétricas expostas a este tipo de ativos, como o Expresso já escreveu. Por um lado, a manutenção em níveis altos das licenças de emissão de CO2, que tornam as termoelétricas a carvão menos competitivas que as centrais alimentadas a gás natural ou outros grandes produtores de energia elétrica, como as barragens. Por outro lado, o facto de o gás natural estar este ano mais barato que o carvão como solução para gerar eletricidade. E ainda a tributação: a maior central do país, a termoelétrica a carvão de Sines (EDP) deixou de estar isenta do pagamento de ISP, o que veio agravar a falta de competitividade da central de Sines.

De facto, a incapacidade do carvão para concorrer com outras fontes de geração de eletricidade levou a que em agosto Portugal tivesse registado já um recorde de 19 dias consecutivos sem qualquer produção a partir do carvão, já que nesse período as duas únicas centrais alimentadas a carvão (Sines, da EDP, e Pego, da Tejo Energia) estiveram paradas.

Em setembro aquelas centrais voltaram a ter alguma atividade, mas ainda em níveis residuais (apenas operaram entre os dias 17 e 21 de setembro), o que explica o reduzido consumo mensal de carvão agora detalhado pela DGEG.

Dados do Omie, o operador do mercado ibérico de eletricidade responsável pela negociação do preço diário da energia, mostram no entanto que outubro já teve uma maior produção a carvão do que agosto e setembro. Embora as ofertas hídrica e de gás natural tenham permanecido mais ou menos estáveis face a setembro, a produção a carvão aumentou e acompanhou um incremento do consumo de eletricidade nesse mês. E em novembro o sistema elétrico português permaneceu com um regime de utilização do carvão similar ao de outubro.

No corrente mês de dezembro não houve, segundo o Omie, produção a carvão nos dias 1 e 2, mas os dados para os dias 3, 4 e 5 (a produção diária é contratada de véspera) mostram uma utilização considerável desta fonte no mercado português, em articulação com as centrais hidroelétricas e as centrais de ciclo combinado a gás natural.

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