www.jornaldenegocios.ptPaulo Carmona - 4 dez 19:00

Quero ambição para o Natal

Quero ambição para o Natal

Fora dos néons da Web Summit há um povo que ganha um salário mínimo dos mais baixos da Europa, com pouca formação e interesse para as elites. No campo ou enlatado nos transportes que falham, nos barcos que faltam, em listas de espera sem seguro de saúde que lhes valha.

A FRASE...

"Bloco quer habitação pública em vez de ‘El Corte Inglés’ na antiga estação da Boavista."

Jornal de Notícias, 5 de novembro de 2019

A ANÁLISE...

Velha e apócrifa de séculos, a lenda do cônsul romano que dizia que por cá vivia um povo que não se governava nem se deixava governar. Hoje poderia atualizar para um "não se desenvolve nem se deixa desenvolver". Temos lítio, mas contestamos a sua exploração, apesar de ser simplesmente pedra, como bem referia João Galamba, é melhor importar. Petróleo também teremos, mas é melhor importar. Eletricidade a carvão também temos, mas é melhor importar, de Marrocos, onde é produzida… a carvão. Para o planeta é igual onde é produzido ou explorado, para nós o empobrecimento é maior.

No resto temos ares de quem não tem dinheiro, mas merecia ter, um fidalgo pobre com ares de rico. A gastar somos sempre muito bons e com mérito. Nas infraestruturas não ferroviárias, nas questões ambientais e tudo que meta festa e reconhecimento, como a Expo ou a Web Summit. E com uma autoestima elevada. Temos os melhores jogadores do mundo, mas conseguimos ficar atrás da Ucrânia na fase de grupos. É sempre a maldita realidade a condenar as expectativas, económicas, sociais e desportivas. 20 anos depois da moeda única continuamos pobres, e cada vez mais pobres do que os outros. A expectativas são criadas permanentemente pela classe política, nas promessas e num manto diáfano de fantasias, de direitos e facilidades. Os políticos criaram um povo com a cabeça num país desenvolvido e os pés num em vias de desenvolvimento, sem ambição e à espera que lhe caia o que é seu de direito. Habitação social na Boavista em vez do Corte Inglés, por exemplo, como exigem aqueles críticos do populismo de André Ventura.

Outros países com tantas expectativas falhadas viriam para a rua. Aqui sobra o desânimo, num povo conformado que é bom e merecia mais. Os portugueses têm perdido a ambição de criar, de crescer, de enriquecer, mergulhados entre impostos e promessas falhadas. Haja políticos que a encontrem e a devolvam, se fizerem favor. Podemos ser mais. Devemos ser. 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com
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