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Mind the Vote #17. Trocas de galhardetes na NATO e no palácio de Buckingham

Mind the Vote #17. Trocas de galhardetes na NATO e no palácio de Buckingham

A campanha eleitoral prossegue mas as atenções estiveram na cimeira da Aliança Atlântica, de que Donald Trump saiu mais cedo após ter sido aparentemente gozado por outros dirigentes mundiais. Boris Johnson aproveita o encontro para reforçar as suas credenciais de segurança nacional

A oito dias de eleições legislativas fundamentais para o futuro do Reino Unido, a atualidade britânica é dominada pelos líderes dos dois maiores países da América do Norte. Reunidos em Watford para a cimeira da NATO, o primeiro-ministro do Canadá e o Presidente dos Estados Unidos envolveram-se numa rixa, com Donald Trump a dizer que Justin Trudeau tem “duas caras” e que devia aumentar o contributo pecuniário do seu país para a Aliança Atlântica. Trump falou assim, embora frisando que o canadiano é “muito simpático”, depois de ter sido divulgado um vídeo em que Trudeau aparenta gozar com ele, na receção de terça-feira no palácio de Buckingham, em conversa com o Presidente francês Emmanuel Macron, os primeiros-ministros britânico (Boris Johnson) e holandês (Mark Rutte) e a princesa Ana (a filha de Isabel II protagonizou outro momento engraçado, com a régia progenitora de 93 anos parecendo ralhar com a filha, de 60, por não estar ao seu lado para cumprimentar o americano).

Voltando ao episódio em que os dirigentes terão feito troça de Trump, o som da filmagem não é grande coisa, mas os intervenientes parecem referir-se a uma conferência de imprensa do americano que durou muito mais do que o previsto e que, diz Trudeau, fez “cair o queixo” ao staff da Casa Branca. Johnson pergunta a Macron se foi por isso que se atrasou. Agastado, Trump cancelou via Twitter (where else?) outro encontro com os jornalistas e fez saber que voltava para casa mal terminassem as reuniões do dia.

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Ao intervir perante os media na cimeira da NATO, Boris Johnson apressou-se a negar que tivesse rido de Trump, mas não mencionou o seu nome uma única vez, preferindo acusar o rival Jeremy Corbyn de querer “destruir a NATO”, com base em críticas passadas do líder trabalhista à organização (na verdade Corbyn defende agora a permanência do Reino Unido na NATO). Segundo o primeiro-ministro conservador, também os serviços secretos (MI5) estariam em perigo com Corbyn em Downing Street, assegurou, e criminosos e terroristas sairiam mais cedo da cadeia (aproveitamento político do atentado de sexta-feira passada? Honi soit qui mal y pense).

Johnson prometeu ter em conta a segurança nacional quando decidir se a empresa chinesa Huawei poderá participar na construção da rede 5G no Reino Unido. Apesar de não querer ser “desnecessariamente hostil ao investimento estrangeiro”, o governante privilegia a colaboração com o grupo dos “Cinco Olhos” (Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), sendo que Washington não veria com bons olhos o reforço da Huawei no mundo das comunicações britânicas. Com Pequim, diz Johnson, pode haver “parcerias estratégicas”, mas há que “estar ciente dos desafios que representa”.

De qualquer maneira, se falamos de segurança, o anúncio mais importante do dia é capaz de ser este..

Más notícias, por outro lado, para Jeremy Corbyn. A revista de esquerda “New Statesman”, tradicionalmente próxima do Partido Trabalhista, publicou hoje o seu editorial de orientação para as legislativas de 12 de dezembro (é tradição os meios de comunicação britânicos darem indicação de voto), que considera “. E, pela primeira vez em muito tempo, a publicação não se inclina para o Labour. O texto, longo e intitulado “O Reino Unido merece melhor”, explica que não é possível à revista apoiar qualquer dos três maiores partidos (conservadores, trabalhistas e liberais) e que, por mais que gostasse de ver mais deputados do Partido Verde em Westminster, este não tem hipótese de ser governo. Razão para não manter o seu apoio histórico? “O Partido Trabalhista conseguiu beliscar, e bem, o edifício do ‘realismo capitalista’, termo empregue pelo falecido teórico cultural Mark Fisher para descrever a ideia de que ‘não só o capitalismo é o único sistema político e económico viável como é mesmo impossível imaginar-lhe uma alternativa coerente”. Mas o juízo essencial a fazer é sobre o próprio Corbyn. A sua relutância em pedir desculpa pelo antissemitismo no partido e tomar posição sobre o Brexit, a maior questão que o país enfrenta, torna-o impróprio para ser primeiro-ministro”. Lapidar.

FOTO DO DIA Mascarado de abelha, um membro do movimento ambientalista Extinction Rebellion colou-se (literalmente) ao autocarro de campanha dos Liberais Democratas e sujou o para-brisas da viatura com ketchup, esta sexta-feira em Londres. O grupo promete “zumbir” em redor de todas as comitivas partidárias para exigir ação contra as mudanças climáticas. A líder do partido, Jo Swinson, conversou com os manifestantes

Mascarado de abelha, um membro do movimento ambientalista Extinction Rebellion colou-se (literalmente) ao autocarro de campanha dos Liberais Democratas e sujou o para-brisas da viatura com ketchup, esta sexta-feira em Londres. O grupo promete “zumbir” em redor de todas as comitivas partidárias para exigir ação contra as mudanças climáticas. A líder do partido, Jo Swinson, conversou com os manifestantes

Aaron Chown - PA Images

A FRASE

“Digo aos meus amigos trabalhistas que o Partido Trabalhista de Corbyn não é o Partido Trabalhista dos nossos pais e avós. Seria irrazoável eu esperar que saíssem todos do partido por causa do antissemitismo, mas seria irrazoável admitirem que há um problema grave de antissemitismo no partido e esperarem que me una ao vosso mantra de ‘mas o mais importante é termos um Governo trabalhista’. Imaginem que este racismo institucionalizado era contra qualquer outra minoria”. Eis a dura intervenção do antigo deputado trabalhista Ivan Lewis, que deixou o partido devido à disseminação de mensagens contra judeus, há um ano, ao mesmo tempo que era investigado por alegado assédio sexual. Ex-membro dos governos de Tony Blair e Gordon Brown, concorre como independente ao círculo de Bury South mas apelou ao voto no adversário conservador, contra si próprio, para garantir que o líder da sua antiga formação não chegue ao poder.

UMA HISTÓRIA FORA DO RADAR

Inglaterra tem 54% da superfície e 84% da população do Reino Unido, um peso incomparável ao dos demais países que formam a união: Escócia (32%/8%), País de Gales (9%/5%) e Irlanda do Norte (6%/3%). Isso nota-se nos 650 lugares que formam a Câmara dos Comuns: 59 são escoceses, 40 galeses, 18 norte-irlandeses e 533 ingleses. Ainda assim, não devemos descartar a influência dos resultados eleitorais nos três países mais pequenos. Após as últimas legislativas, em 2017, foi o pequeno Partido Democrático Unionista norte-irlandês, com dez deputados, que viabilizou o Executivo minoritário da conservadora Theresa May. Já aqui falámos em detalhe da política norte-irlandesa.

Há quatro anos, a irrupção do Partido Nacional Escocês (SNP), que conquistou 56 dos 59 lugares escoceses, prejudicou em muito a sorte do Partido Trabalhista, então chefiado por Ed Miliband. Este ano os conservadores parecem resilientes a norte da fronteira, apesar da demissão da sua popular líder Ruth Davidson. A posição clara contra a independência da Escócia (Boris Johnson diz que não autorizará um novo referendo ainda que os nacionalistas ganhem as eleições regionais) e a favor da saída da UE favorece uma polarização entre eles e o SNP, face à ambiguidade dos trabalhistas. Recorde-se que no referendo de 2016 a permanência na UE foi apoiada por 62% dos escoceses, mas 38% votaram pela saída.

O partido de Corbyn também está em apuros no País de Gales, onde poderá perder a primazia ao fim de 26 vitórias consecutivas em eleições gerais (também chefia o governo regional). Os conservadores esfregam as mãos numa parte do Reino Unido que votou a favor do Brexit (52,5%) e que poderá dividir-se entre eurocéticos a votar tory e europeístas a dividirem-se entre os Liberais Democratas, o Partido Verde e os nacionalistas do Plaid Cymru (os quais têm um pacto de não-agressão para capitalizar votos a favor de nova consulta popular).

NAFTALINA ELEITORAL

Theresa May terá muitas qualidades mas uma delas não é ser divertida enquanto personagem pública. A antiga primeira-ministra deu provas disso há dois anos quando, numa entrevista à ITV durante a campanha para as eleições antecipadas que convocou, revelou a pior travessura que fizera na vida. “Oh, céus. Bom, suponho… ui. Sabe, não tenho bem a certeza. Ninguém se comporta sempre de forma perfeita, pois não? Quer dizer, sabe… devo confessar, quando eu e os meus amigos como que corríamos por campos de trigo, os agricultores não gostavam muito.” Já bocejou tudo? Pois. A resposta não serviu para colorir a imagem de uma governante acusada de cinzentismo e rigidez, ao ponto de ter ganho a alcunha “Maybot”, derivada de robô, por dar respostas mecânicas e pouco imaginativas. Não obstante, inspirou milhares de pessoas a inscrever-se em eventos convocados nas redes sociais, em jeito de paródia, para correr pelos trigais de Norfolk pouco depois das eleições (o Expresso não conseguiu apurar se a corrida se realizou), e não podia deixar de gerar abundantes memes na Internet, além deste remix:

O sucessor de May à frente do partido e do Governo, Boris Johnson, fez-se fotografar numa seara, bem disposto. Prestes a deixar o poder, já este ano, a própria diria: “Uma das coisas mais tolas que já fiz foi responder àquela pergunta, mas já está…”. Na eleição de há dois anos, convocada sem obrigação porque a primeira-ministra olhou para sondagens que lhe sorriam, o Partido Conservador perdeu a maioria absoluta que May herdara de David Cameron. Olhe, tivesse antes aprendido com esta vetusta antecessora…

SONDAGEM DO DIA

Um dos homens mais versados em sondagens no Reino Unido é Michael Ashroft, membro da Câmara dos Lordes pelo Partido Conservador. Hoje propôs não um estudo de opinião convencional mas o mapa que o instituto deste abastado empresário elaborou sobre a proximidade entre certas posições políticas e assuntos de campanha e as inclinações de voto dos britânicos. Ora, entretenha-se a escrutinar isto…

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SAÍDO DO MANIFESTO

Se acima mencionámos os unionistas norte-irlandeses do DUP, agora é hora de ver o que propõem os seus rivais do Sinn Féin (o nome deste partido republicano significa “nós próprios”). Sem surpresa, os nacionalistas focam-se na unificação da Irlanda e na recuperação das instituições do governo regional norte‑irlandês, suspensas desde janeiro de 2017 por desacordo entre, precisamente, o DUP e o Sinn Féin. É que ao abrigo do Acordo de Sexta-feira Santa, que pôs fim ao conflito de décadas entre protestantes e católicos, ambas as comunidades têm de estar representadas no Governo autónomo. O Sinn Féin abandonou-o porque a líder do DUP, Arlene Foster, se viu envolvida num escândalo de fraude no financiamento às energias renováveis, mas promete voltar na condição de ser adotada uma lei de proteção da língua irlandesa e uma reforma das instituições regionais. No que toca ao Parlamento britânico, o partido mantém a determinação em nunca tomar posse dos lugares que conquista, por não reconhecer a legitimidade daquele sobre a Irlanda do Norte. Ainda assim, garante que a sua voz se ouve em Dublin, Bruxelas e Washington e propõe-se defender um estatuto especial para a Irlanda do Norte na União Europeia (o partido foi contra o Brexit em 2016) e, se não for possível reverter a saída, acolhe o acordo de Boris Johnson como “mal menor”, nas palavras da líder Mary Lou McDonald, que mitiga, sem eliminar, os efeitos nocivos do Brexit. Caso haja reunificação da Irlanda — que o Sinn Féin deseja ver, após um referendo que a lei prevê —, a Irlanda do Norte regressará automaticamente ao seio da UE. O apoio a essa possibilidade tem crescido, também devido à questão europeia (55% dos norte-irlandeses votaram contra o Brexit), ao ponto de o primeiro-ministro da República da Irlanda, Leo Varadkar, ter admitido que a considera possível durante a sua vida. Completam o manifesto do Sinn Féin medidas de centro-esquerda nos âmbitos social e económico, além de preocupações ambientais.

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