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O comportamento das finanças e as finanças do comportamento

O comportamento das finanças e as finanças do comportamento

É cada vez mais forte a distinção da visão comportamentalista dos mercados.

Kahneman, Tversky, Smith, Shiller e Thaler, são alguns dos gigantes que têm contribuído para a mudança da forma de pensar a economia. Os efeitos do comportamento dos indivíduos e a diversidade na perceção das realidades evidenciada pelo "normal homo sapiens" aquando da tomada de decisões, particularmente as de caráter financeiro, são heterogéneos e imprevisíveis. A escola comportamentalista tem, definitivamente, uma palavra determinante para melhorar a compreensão do funcionamento dos mercados financeiros. Porquê a enorme controvérsia que há anos persiste?

As finanças comportamentais procuram flexibilizar os pressupostos de base ao conhecimento da forma como os indivíduos se comportam perante as mais diversas decisões financeiras. O principal desafio às finanças tradicionais imposto pelas finanças comportamentais consiste na desmontagem do caráter normativo imposto pela hipótese da eficiência dos mercados, preocupando-se com o estudo da influência da psicologia no comportamento dos agentes do mercado financeiro, podendo este afastar-se significativamente do que é previsto no quadro do paradigma da racionalidade completa adotado pelas finanças tradicionais (moderna teoria financeira, MTF). Por exemplo, na base do desenvolvimento dos modelos da MTF é pressuposto a existência de um agente económico ideal com características muito específicas (racionalidade perfeita, auto interesse perfeito e informação perfeita) que determinam as decisões financeiras individuais, enquanto as finanças comportamentais se preocupam em estudar a forma e as consequências das decisões dos agentes que se afastam do previsto pelas finanças tradicionais. Por outras palavras e quanto à forma, as finanças comportamentais estabelecem que algumas variáveis económicas não podem ser descritas pelas condições de equilíbrio da teoria moderna, tendo em vista que os agentes financeiros tomam decisões muitas vezes incompatíveis com atitudes baseadas em expectativas racionais. No que respeita à formação dos preços e às consequências decorrentes das decisões e da atuação nos mercados por parte dos agentes de racionalidade limitada, podem ser a seguintes: os preços tendem a afastar-se das condições de eficiência e de não-arbitragem dificultando e encarecendo as estratégias de reposição dos equilíbrios (teóricos) estipuladas pelos modelos tradicionais.

Ao observarmos os enviesados sustentáculos da MTF, que estipulam que o ser humano, à semelhança de um perfeito homo economicus, se preocupa apenas com o seu bem-estar, interpreta corretamente toda a informação disponível e decide de forma isolada sem ter qualquer influência dos valores do grupo social de que faz parte, facilmente percebemos que estes pressupostos não se ajustam, adequadamente, aos problemas do mundo real. Em resposta, as finanças comportamentais propõem pressupostos mais realistas acerca do comportamento dos investidores para permitir explicar o que realmente se passa nos mercados financeiros e não o que se deveria passar num mundo ideal e inexistente. Com efeito, é um facto de que os seres humanos não apresentam racionalidade completa, não conseguem saber tudo porque as suas capacidades cognitivas são limitadas e as emoções e o contexto sociocultural em que se inserem influenciam determinantemente as suas decisões; dito de outra forma propõem incorporar aquela que é, provavelmente, a mais desafiante de todas as variáveis - a condição humana do investidor.

A controvérsia entre estas correntes do pensamento económico reside na aceitação não tanto em relação ao realismo dos modelos, mas em relação aos aspetos metodológicos. No meio académico, que há 60 anos baseia as "investigações" em torno destes pressupostos, é onde encontramos os mais fervorosos apoiantes. Por um lado, o pressuposto dos mercados eficientes torna a análise dos problemas muito mais simples; e, por outro, a consideração de um agente perfeitamente racional, individualista e com capacidade cognitiva completa permite uma mais fácil matematização da economia e das finanças, transmitindo a grosseira ilusão destas serem ciências exatas, fenómeno já identificado por vários autores como a "inveja da Física". Por enquanto, é o que (ainda não) há. Mas uma coisa é certa, o debate entre as duas correntes irá continuar.


JOGO DA BOLSA 18 de Novembro a 13 de Dezembro

As classificações do Jogo da Bolsa são atualizadas diariamente. Em primeiro lugar, um top é publicado no Negócios e às 14 horas a listagem total é publicada no Jornal de Negócios Online. Para o efeito, todos os dias é retirada uma classificação provisória da Classificação Global, a Classificação Universitária e da Classificação Universo ISCTE Business School. Depois, todas as terças-feiras, é divulgado o vencedor semanal



*Luís Oliveira, Professor de Finanças da ISCTE-IUL Business School


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