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O SNS é um fator de estabilidade para as pessoas

O SNS é um fator de estabilidade para as pessoas

O paradigma da doença mudou, para uma maior prevalência das doenças crónicas não transmissíveis, e deu-se a evolução da medicina e das tecnologias, o que requer que o SNS, sem perder as suas linhas-mestras, tenha de se adaptar, defende Catarina Resende de Oliveira.

"Muito discreta, reservada, simples, delicada no trato, inteligente, observadora que cultiva um certo perfeccionismo, inquieta e aberta a novos desafios", assim foi caracterizada por Luís Portela, chairman da Bial, no seu elogio público, Catarina Resende de Oliveira, Prémio Personalidade Saúde Sustentável.

O ministro holandês da Saúde disse em outubro passado que a "demência pode ser dentro de 10 a 15 anos uma ameaça à saúde global na mesma escala do HIV/sida".
As doenças neurodegenerativas, e de uma maneira geral as doenças do cérebro, são doenças que têm um peso socioeconómico muito elevado. Afetam não só o indivíduo doente, mas a família e a sociedade. As neurodegenerativas são crónicas, progressivas, evoluem de uma maneira lenta e, não sendo uma causa de morte, como acontece com o enfarte do miocárdio ou o AVC, são altamente incapacitantes. Na Europa, estima-se que 35% das doenças são de natureza neurodegenerativa, responsáveis por um elevado "desgaste" a nível da saúde. O seu peso socioeconómico advém do facto de o indivíduo deixar de ser produtivo, necessitar de cuidados de terceiros, o que leva ao envolvimento da família. Este processo é extremamente desgastante para quem acompanha os doentes no seu dia a dia, ou seja, para os cuidadores formais ou informais. Esta é uma das razões pelas quais a legislação relativa aos cuidadores é muito importante. É necessário protegê-los, olhá-los com olhos de ver. Estas doenças estão ligadas ao processo de envelhecimento, que é um fator de risco para muitas delas.

O que em Portugal tem um impacto grande, pois somos o quinto país mais envelhecido do mundo…
O envelhecimento é uma conquista e simultaneamente um desafio. O aumento da longevidade surge porque há melhores cuidados médicos porque a saúde e as condições de vida são melhores. Estas doenças são algo que nos é "cobrado", que é extremamente pesado para a sociedade e para os serviços de saúde.

Assistiu e participou, quando já era médica e tinha a sua carreira clínica no hospital, quando se deu a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a que tem estado ligada…
Sou uma defensora do Serviço Nacional de Saúde porque é onde encontro os melhores cuidados de saúde.

As esperanças que tinha no SNS foram cumpridas quando olha para a situação atual do SNS? Será que tal como no envelhecimento também falhou a previsão?
A saúde é um dos fatores mais importantes para a estabilidade social e económica de qualquer país. Uma população com saúde é fundamental para o trabalho e para o progresso da sociedade. A existência de um SNS permite que o indivíduo independentemente da sua condição de nascimento tenha iguais perspetivas de atendimento quando está doente, ou seja, quando está fragilizado, é algo que tem um enorme valor. O Serviço Nacional de Saúde foi uma das maiores conquistas do 25 de Abril de 1974 porque criou este fator de estabilidade que é a saúde. Foi criado há 40 anos num contexto que entretanto sofreu alterações, o que requer que o SNS, sem perder as suas linhas-mestras, tenha de se adaptar.


"Sou uma defensora do SNS porque é onde encontro os melhores cuidados de saúde."

"O SNS permite que o indivíduo independentemente da sua condição tenha iguais perspetivas de atendimento quando está doente."


Como é que se pode fazer?
De facto, nas últimas décadas, o paradigma da doença mudou, para uma maior prevalência das doenças crónicas não transmissíveis. Simultaneamente foi enorme a evolução da medicina e das técnicas de diagnóstico e terapêutica. Se pensarmos por exemplo na evolução das técnicas de imagem, é inquestionável que nos permitem ter uma atuação mais precisa, com maior rigor de diagnóstico, mas exigem equipamentos que têm atualizações constantes e que são muito onerosos. Por outro lado, os cidadãos e os doentes têm acesso a informação que está disponível em grandes quantidades e de uma maneira indiscriminada, e passaram a ter maiores exigências. Ouvimos muitas vezes as pessoas dizerem: "Fui à urgência mas nem me fizeram uma TAC." O doente saiu defraudado porque não foi pedido um determinado exame. O salvador de vidas não é a TAC ou a ressonância magnética, é a observação clínica, e é nesta que os profissionais de saúde devem continuar a ser muito bem treinados. É importante a educação em saúde para evitar que a exigência não justificada do cidadão leve a uma prática médica demasiado dependente das tecnologias, que tem hoje um preço muito elevado.

Em termos de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde o que é que acha que se deveria fazer?
É necessário repensar o SNS para lhe dar uma maior funcionalidade e sustentabilidade. São múltiplos os aspetos a ter em conta, mas há um para o qual não se tem olhado e que considero importante. Como profissionais de saúde, prestamos os cuidados que consideramos serem os melhores para as pessoas. Pergunto-me muitas vezes se esses cuidados de saúde são aqueles que as pessoas esperavam e se na realidade foram os melhores para elas. Ou seja, não é comum fazermos uma avaliação dos resultados da prestação de cuidados tendo em conta a perspetiva do doente. A avaliação do valor dos cuidados prestados tem de ser feita, e é importante pôr o doente no centro da decisão. Não é ele que vai decidir mas é ele que nos vai dar o aporte do valor do cuidado que lhe foi prestado. Isto tem de ser equacionado e pesado. Há que tirar partido das novas tecnologias e usá-las na prestação de cuidados de saúde à distância, por exemplo, no acompanhamento durante o período de recuperação de um doente que pode ser feita em casa com vantagem. As abordagens à questão da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde são múltiplas. As potenciais soluções requerem organização e planeamento.

PERFIL A paixão pelo estudo do cérebro 

A investigação de Catarina Resende de Oliveira centrou-se no estudo dos mecanismos celulares e moleculares das doenças neurodegenerativas.

Aos cinco anos não queria aprender as letras porque queria ser sempre menina, mas depois de entrar na escola foi sempre uma aluna brilhante. "Talvez tivesse o pressentimento do que implicava aprender a ler", diz Catarina Resende de Oliveira, que nasceu em Coimbra em fevereiro de 1946.

Desde muito cedo que a sua determinação foi seguir medicina. O pai, professor de Medicina da Universidade de Coimbra, considerava que os seus interesses biomédicos e na fisiopatologia seriam satisfeitos num curso de Biologia, por exemplo. Mas Catarina Resende de Oliveira gostava do contacto com as pessoas, por isso seguiu o seu caminho e licenciou-se em 1970 e tornou-se assistente da Faculdade de Medicina e médica.

Em 1976 entrou nos serviços de neurologia do Hospital Universitário de Coimbra. Diz que "todos somos influenciados por role models". Tinha um professor de Neurologia, António Nunes Vicente, que era uma pessoa brilhante, de uma grande argúcia como clínico, de uma grande valia pedagógica e que marcou muitos alunos. "Tudo isto me despertou o desejo e o fascínio pelo cérebro, como funciona, como nos permite contactar com o mundo exterior, controlar as nossas emoções, a importância do cérebro na vida", diz. Foi sem surpresa que escolheu Neurologia.

Fez uma carreira clínica até chegar a chefe clínica. Quando estava a fazer o internato de especialidade em Neurologia, matriculou-se como aluna livre e começou a frequentar aulas em Bioquímica, Biologia Molecular na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, para reforçar a sua formação em investigação e alguns conhecimentos na área biológica. Conheceu Arsélio Pato de Carvalho que dirigia um centro mais dedicado à investigação na biologia e que marcou o seu trajeto futuro na investigação.

A investigação

Deu início ao projeto de doutoramento, em que se operou esta viragem para "o mundo da investigação mas sempre com uma perspetiva médica". O que gostava mesmo era de investigação em neurociências. Em 1984 doutora-se em Neurociências pela Universidade de Coimbra, onde deu aulas e chegou a catedrática. Nessa altura, o centro dirigido por Arsélio Pato de Carvalho transformou-se em Centro de Neurociências e Biologia Celular, onde passou a fazer investigação.

Nas neurociências, a investigação de Catarina Resende de Oliveira centrou-se no estudo dos mecanismos celulares e moleculares das doenças neurodegenerativas, os mecanismos que levam a que os neurónios degenerem em doenças como as de Alzheimer, Parkinson - as mais frequentes. Publicou mais de 200 artigos em vários jornais e revistas científicas internacionais e tem mais de 7.600 citações.

"O achado mais marcante foi o facto de termos encontrado para estas doenças neurodegenerativas o papel da mitocôndria, que é a central energética das nossas células, cujo compromisso funcional conduz à degenerescência e morte celular. A degenerescência está associada a uma falência da energia celular, neste caso neuronal, e tudo o resto de desencadeia a partir daqui."

Diz que o mais gratificante no seu percurso é a sua capacidade de atuar como mentora e motivadora de jovens investigadores e fala da sua "família científica que tem filhos, netos e bisnetos". A sua família é constituída pelo marido, um colega de curso de Medicina, quatro filhos e seis netos. 

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