www.jornaldenegocios.ptJoão Costa Pinto - 3 dez 10:10

Os bancos e a economia - (I)

Os bancos e a economia - (I)

Como foram ou estão a ser utilizados e qual o destino dos recursos públicos mobilizados com a intenção de assegurar a estabilidade do nosso mercado bancário?

1. Vai ser necessário algum distanciamento temporal para avaliar com objectividade quer o papel dos bancos na crise financeira quer a intervenção com que o(s) governo(s) e o regulador/supervisor procuraram preservar a estabilidade do nosso sistema financeiro. No entanto, passados cerca de oito anos sobre o programa da troika e cinco sobre a decisão de "resolver" o BES, algumas questões e dúvidas merecem reflexão, dadas as suas implicações: como foram ou estão a ser utilizados e qual o destino dos recursos públicos mobilizados com a intenção de assegurar a estabilidade do nosso mercado bancário? Como se encontram hoje os bancos? Robusteceram a sua situação patrimonial e melhoraram de forma sustentável as condições de exploração, de modo a aumentar a sua resistência a futuras crises e a remunerar o seu capital? Como é que têm vindo a reagir às múltiplas pressões que - de forma crescente - estão a forçar alterações estruturais nos seus modelos tradicionais de negócio? Como é que o movimento de recentragem deste modelo se está a reflectir, tanto no equilíbrio financeiro da nossa economia, como nos fluxos de financiamento da actividade económica, em particular, do tecido produtivo?

Reflexão que deve ser conduzida tendo presente quer o contexto institucional, regulamentar e prudencial que enquadra o euro quer o impacto da política monetária sobre os mercados financeiros e, em particular, sobre o negócio bancário.

2. Como sabemos, opera hoje no nosso mercado bancário um número relativamente elevado de intermediários que podem ser agrupados de acordo com a dimensão dos seus balanços e com a sua natureza jurídico/estatutária: bancos comerciais privados que formam um grupo integrado por quatro bancos de primeira linha - BCP, Santander, BPI e Novo Banco - e por um conjunto heterogéneo de pequenos bancos; um banco de capitais públicos - CGD - em torno do qual se formou um conglomerado financeiro que tem vindo a ser reconfigurado e que representa mais de um quarto do nosso sistema financeiro; por último, um segmento do mercado integrado por dois grupos que representam entre nós o movimento mutualista - o Crédito Agrícola de base cooperativa e o Montepio centrado numa associação mutualista.

A generalidade destes bancos tem vindo a protagonizar um esforço de reorganização operacional, de reorientação do seu modelo de negócio e de regeneração patrimonial que começa a ser visível nas suas condições de exploração. No entanto, antes de analisar o impacto desta evolução sobre o financiamento da actividade económica, reveste-se de interesse ter presente duas situações que pelas suas implicações devem - embora por razões diferentes - ser avaliadas com particular atenção: o grupo Montepio e o Novo Banco.

A situação do grupo Montepio apresenta-se com particular complexidade devido à convergência de questões de natureza distinta, em que avultam: a natureza híbrida da actividade desenvolvida pela associação mutualista e os seus reflexos sobre a base de capital necessária à cobertura das suas operações de risco; as ligações - de accionista, operacionais, comerciais e financeiras - entre a associação mutualista e as áreas bancária e seguradora do grupo, à luz do enquadramento jurídico/regulamentar e prudencial hoje em vigor (a continuar).

Economista

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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