rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 3 dez 06:16

​As desigualdades revisitadas

​As desigualdades revisitadas

Importa que as políticas contra as desigualdades assentem em bases sólidas, o que implica, ainda, pesar bem as vantagens e os inconvenientes das medidas a tomar. Por isso, cuidado com as políticas ideológicas. Mas não se deve reduzir a urgência de combater as injustiças económicas.

Tenho frequentemente defendido aqui que as desigualdades de rendimentos e riqueza são talvez o problema político mais sério do séc. XXI. Não à escala mundial, pois a globalização tirou da miséria centenas de milhões (sobretudo na China), mas no interior dos países. Uma das fontes a que várias vezes recorro é o semanário “The Economist”, que julgo fiável.

De facto, tão fiável que o próprio “Economist” vem agora pôr em causa algumas medições correntes das desigualdades. É de saudar esta atitude, não porque ela satisfaça muitos gestores e milionários que normalmente serão leitores deste semanário, mas porque o pensamento crítico é a base da ciência. Todas as interpretações da realidade são boas até serem postas em causa por outras melhores.

O “Economist” não nega a existência de injustas desigualdades que se agravam. Por exemplo, o preço cada vez mais caro da habitação; as bolsas de pobreza em cidades cujas indústrias se desatualizaram; certas desigualdades na saúde e na esperança de vida; o “elevador social” parece avariado, etc. E acusa as autoridades da concorrência, em particular as dos EUA, de falta de firmeza, permitindo uma crescente concentração empresarial que prejudica os consumidores e dá poder excessivo a certas empresas. Bem como critica o excesso de regulamentação na América de algumas profissões (médicos, advogados, banqueiros, etc.), incluindo restrições à imigração – tudo isso afasta a competição.

O semanário britânico levanta dúvidas sobre alguns pontos, que agora são geralmente tomados como verdades indiscutíveis. É o caso da concentração da riqueza em apenas 1% população. Fora dos EUA e tomando em conta os impostos e as transferências sociais, essa concentração não parece ter acontecido na Grã-Bretanha desde meados dos anos 90 do século passado. O semanário dá, ainda, o exemplo da Dinamarca, onde a riqueza do tal 1% não aumenta há três décadas.

Muito curioso é o caso da Suécia, que tem um dos mais altos números mundiais de bilionários por número de habitantes. Ora a Suécia deixou de ter um imposto sobre a riqueza, assim como impostos sobre heranças. E não existe ali qualquer vontade política significativa de taxar o rendimento dos muito ricos… De qualquer forma, mesmo em crise, o modelo social europeu ainda é um importante amortecedor de desigualdades.

Nos EUA há indícios de volatilidade na concentração da riqueza a partir de 2000, não de uma clara tendência. Vários economistas americanos defendem que essa tendência é de estabilidade, não de subida. Para o que contribuem algumas medidas sociais tomadas naquele país, como o plano de saúde de Obama (que Trump e os republicanos não conseguiram destruir). Outra reserva à “crescente desigualdade” do trabalho face ao capital será o facto, de, em 2015, nos EUA metade das ações estar nas mãos de fundos de pensões (logo, indiretamente, de trabalhadores), contra apenas 4% em 1960.

Por outro lado, o “Economist” critica não se tomar na devida conta, na avaliação do nível de vida das classes desfavorecidas, a melhoria da qualidade e a baixa de preços de inúmeros bens e serviços, desde os “smartphones” aos medicamentos, passando por serviços médicos públicos.

“The Economist” alerta: estas dúvidas sobre desigualdades “não devem reduzir a urgência de combater as injustiças económicas”. Mas importa que as políticas contra as desigualdades assentem em bases sólidas, o que implica, ainda, pesar bem as vantagens e os inconvenientes das medidas a tomar. Por outras palavras, cuidado com as políticas ideológicas.

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