www.publico.ptpublico@publico.pt - 3 dez 05:38

Não fales, sorri!

Não fales, sorri!

Quando é que a luta pela igualdade passou de uma luta universal para uma luta identitária, extremista, fraturante? Passou no dia em que aqueles que eram os principais alvos da desigualdade, por simplesmente serem quem são, passaram a ter uma voz.

Um dia dei por mim a querer escrever sobre racismo e a censurar-me. Pensei... já não se pode dizer nada sem se ser acusada de identitária, extremista, de fomentar o racismo, de racismo reverso ou de estar a acusar “aliados” de racismo. Tal como me apelidaram de feminazi e por aí adiante em questões feministas. Ressenti um verdadeiro sentimento de opressão. Pensei que este deve ser um sentimento próximo daquele que sentem os que vão insultando mulheres, pessoas racializadas e LGBT+ enquanto proclamam que “já não se pode dizer nada”. A famosa defesa do politicamente incorreto, de que se queixam pessoas de todos os quadrantes, desde Trump, Bolsonaro até a certas “esquerdas”. Afinal são só piadas, e ninguém leva a mal. Mas a comparação não é válida, lutar pela igualdade não é a mesma coisa que lutar pelo direito a insultar e a contribuir para perpetuar discriminações.

Num artigo do PÚBLICO, o feminismo e o antirracismo são qualificados de questões fraturantes e extremistas, como se a igualdade fosse uma questão de opinião e como se ser feminista ou antirracista tivesse como projeto causar mal a alguém. Ora, o que mata é o machismo, o racismo e a homofobia e não o inverso. A igualdade é um dos valores basilares da democracia e quem se diz democrata deveria ter sempre na sua agenda política estas questões, interligadas de forma íntima a questões de classe, sim, mas que nelas não se esgotam. A questão da violência é um exemplo. Não se resolve a violência contra as mulheres unicamente solucionando questões de classe pois essa violência está em todas as camadas sociais, o mesmo para o racismo e a homofobia. É indecente pedir a vítimas de violência que esperem pelos “amanhãs que cantam” e que “tudo se resolve com o tempo”.

Deixaram de sorrir e de dizer “não levo a mal”. Enquanto era uma luta abstrata, que não pedia qualquer esforço de mudança, enquanto não pedia escuta, humildade, respeito, modificação de comportamento, introspeção, era fácil ser-se pela igualdade. Mas o mundo mudou. A luta passou a ser concreta, com corpos falantes, com corpos vividos. A luta é de todos, mas as vivências não. Somos todos seres humanos, sim, mas com experiências diferentes, temos direito a ser iguais nessa diferença. Temos direito a que a(s) nossa(s) História(s), a que as nossas vivências não sejam branqueadas, relativizadas, desqualificadas, apropriadas por uma narrativa homogeneizante que tem como principal intuito esconder verdades embaraçosas e perpetuar privilégios.

Os que se dizem progressistas, mas passam o seu tempo a criticar aqueles que pretendem defender, que utilizam as mesmas retóricas dos intolerantes pincelando-as com um verniz diferente, devem fazer um exame de consciência. Diz-me com que andas, dir-te-ei quem és. A luta não se pode resumir a defender a sua reputação. A dizer não sou racista, mas.., não sou sexista, mas...

Os que nos acusam de identitários esquecem que não fomos nós que construímos identidades inferiorizadas com as quais agora temos de lidar e encontrar estratégias para lutar contra o sexismo ou o racismo externos e interiorizados. E querem que façamos de conta que elas não existem porque “somos todos seres humanos”? A negação de vivências é violência. Provoca, como diria James Baldwin, um sofrimento político porque nos desqualificam de poder participar na luta que se trava no espaço público pelas nossas vidas. A passagem do antirracismo moral para o antirracismo político dói porque já não basta passar a mão pela cabeça do “pretinho” para mostrar ser boa pessoa, agora é necessário parar de o obrigar a sorrir e respeitar a(s) sua(s) voz(es). Custa, eu sei, mas é no esforço que está o verdadeiro “engagement”.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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