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O último romântico

O último romântico

Romântico incurável, o californiano Rudolph é hoje um imenso desconhecido. Ele foi um revolucionário das formas narrativas levando as técnicas de Robert Altman a uma desintegração da intriga em benefício de personagens complexas e saturadas de mistério - Opinião , Sábado.
Sem amor, o que resta? Para Alan Rudolph, nada. Só a música, que de novo resgatará o amor. Romântico incurável, o californiano Rudolph é hoje um imenso desconhecido. E no entanto, ele foi um revolucionário das formas narrativas, levando as técnicas corais, elusivas, esvoaçantes de Robert Altman (seu mentor, produziu-lhe os primeiros dois filmes) a uma desintegração da intriga em benefício de personagens complexas e saturadas de mistério. "O meu cinema não se inspira em John Ford, inspira-se em John Coltrane", disse numa entrevista obscura em 1985.

Para trás ficavam duas das obras mais experimentais da década mais madura do cinema americano, Welcome to LA (1976) e Remember My Name (1978), ambas vigiadas pela presença perturbante e solitária de Geraldine Chaplin. Com Genevieve Bujold e Keith Carradine, Chaplin integrava a linha da frente da trupe habitual de actores de Rudolph, e o desajustamento e a imprevisibilidade do trio tornaram-se a face deste cinema – rostos e canções eram a trave-mestra do diretor, não o guião. São criaturas de Lua vaga como os loners de Edward Hopper, comandadas pelo sonho, o destino, as suítes musicais de Richard Baskin, os blues de Roberta Hunter, o trompete de Mark Isham. É Isham a acompanhar Marianne Faithfull, ela que carrega na voz todos os pecados do mundo, ao longo da paisagem sonora, atravessada por lágrimas e chuva, de Trouble in Mind (1985).

Kris Kristofferson, em sobretudo preto, olhos minúsculos e brilhantes como um pássaro azul, sai da prisão e regressa ao Wanda’s Café (Wanda, para variar, é Geneviève Bujold), nos limites de uma cidade fortificada por chaminés industriais, cruzando-se – nos filmes de Rudolph, as personagens não se encontram, chocam de frente umas com as outras – com um anjo rural (Lori Singer, a Nicole Kidman dos pobres) e resgatando-a da relíquia macabra interpretada por um Carradine com eyeliner e crista de punk. O film noir não anda longe, mas são os acordes e os compassos da música que ditam o ritmo onírico, como um poster sonoro à sa��da de um diner pelas 3h da manhã.

Alan Rudolph é o Jacques Demy da América. Devíamos redescobri-lo, até porque precisamos de todos os românticos que encontrarmos. 

Santos e ...

A overdose de imagens e comentários ao duplo triunfo de Jesus no Flamengo abusou do messianismo cristão e quase fez esquecer que se trata apenas de um jogo de 11 contra 11 onde no fim ganha a Alemanha (agora, também Portugal começa a vencer). O exagero contagiou jornais, televisões e a versão futebolística do Presidente da República, cujo impulso para condecorar pessoas é apenas ultrapassada pela vontade de as beijar. Apesar de tudo, e aos 65 anos, o carismático, egocêntrico e criador de dialectos Jorge Jesus é autor de um feito notável, que poderá ser reforçado pela vitória sobre a temível armada do Liverpool no Mundial de Clubes de Dezembro. Caso fosse um treinador carioca a conquistar o campeonato português e a Liga dos Campeões, haveria igual transe colectivo no Brasil?

... Pecadores

A revista Atlantic chamou a atenção para uma das variantes mais mortíferas do metódico genocídio da verdade no espaço público: as falsas desculpas. Seja como estratégia de paralisia da inteligência ou enquanto fuga à epidemia do politicamente correcto, a desculpa conveniente e desprovida de convicção é a nova forma de mentira da era Trump. Do comediante Louis C.K. fustigado pelo movimento #MeToo, contrariando o acto de contrição de Novembro de 2017 pela acidez sem arrependimento de Dezembro de 2018, às lágrimas de crocodilo de Joe Biden, por nada ter feito 30 anos antes para ajudar Anita Hill no célebre caso de assédio sexual perpetrado pelo juiz Clarence Thomas (Biden era o presidente da comissão investigadora, bastava ter aberto a boca), a desculpa de conveniência é o novo ilusionismo da pós-verdade.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico
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