www.jornaldenegocios.ptFrancisco Mendes da Silva - 3 dez 20:05

O que salvará o planeta é o capitalismo

O que salvará o planeta é o capitalismo

A Humanidade descobriu uma forma de ir domando a sua natureza - imperfeita, falível e conflituosa - e de a ir determinando em boa direcção. Essa descoberta pareceu-me sempre uma manifestação da Graça de Deus.

1. O Natal chega cada vez mais cedo, lamentam os inimigos do "consumismo", por causa do aproveitamento comercial da quadra, que começa quando as praias ainda são frequentáveis. Que eu tenha reparado, o Natal tem chegado todos os anos no mesmo dia. E não é o azevinho nas montras que me prova o contrário. De qualquer modo, aí está o coro triste do costume, unindo os cleros religiosos aos do anticapitalismo, contra a alienação da Humanidade, escravizada pelo desejo de satisfação imediata e incapaz de se despojar rumo à salvação - assim na Terra, pela revolução, como no Céu, pela Eternidade.


Imagino que, se eu fosse um progressista antirreligioso, veria alguma utilidade numa coligação sazonal e oportunista com o mercantilismo, que talvez corroa a "superstição". De facto, não sou um progressista antirreligioso. Mas, como cristão, não só não receio a espontaneidade do mundo como acho que a liberdade de comércio deve ser celebrada como uma ordenação da natureza humana, contra as probabilidades, no sentido do bem comum.

O principal objectivo de uma pessoa, numa ordem capitalista, é preocupar-se com o seu próprio bem? É. Mas isso é algo que a pessoa só consegue porque todas as outras pensam da mesma forma, competindo com desígnios contraditórios ou confluentes, e assim ajudando-se ou moderando-se mutuamente. Com todos os seus problemas, as sociedades liberais capitalistas foram sempre aquelas em que o progresso da qualidade de vida foi maior.

2. Por falar em religião e anticapitalismo, Greta Thunberg desembarcou em Lisboa com o seu radicalismo adolescente, ao qual alguns políticos foram prestar uma vassalagem embasbacada e previsível. Estas oportunidades fotográficas com as celebridades do momento são uma flor que fica sempre bem na lapela. Mas muitos desses políticos são de uma hipocrisia extraordinária, porque nunca terão nem vontade nem coragem de levar à prática as medidas profetizadas pela rapariga. E ainda bem. A aventura do "decrescimento" económico seria tão rapidamente devastadora para o mundo, a começar pelos mais pobres, que as preocupações com o ambiente teriam de ficar para mais tarde.

O que sempre definiu a esquerda foi a sua crítica das contradições do capitalismo, que por causa das crises cíclicas estaria fadado a atirar multidões para a miséria. Vê-la agora a defender a eternização de um ciclo de crise económica não deixa de surpreender. Aliás, nos últimos anos assistimos à esquerda europeia dizer que o regresso dos extremismos políticos é culpa da crise e da austeridade. Por que razão, de um momento para o outro, essa mesma esquerda deixou de estar preocupada com a fragmentação e a radicalização dos sistemas políticos que as medidas agressivas de abrandamento económico podem provocar?

Entre o negacionismo reacionário e o anticapitalismo primário, há-de haver um meio-termo civilizado na protecção do planeta. E esse meio-termo não há-de estar dependente do fim do crescimento económico, mas da reorientação do crescimento, nas políticas públicas e nas opções privadas, segundo pressupostos de sustentabilidade. Apesar de tudo, há bons exemplos: o nível de consumo de energia de fonte renovável em muitos países é já bastante significativo, e isso resulta tanto dos incentivos dos Estados como do investimento privado de pessoas que, olhando para o seu próprio umbigo, acharam que ganhariam dinheiro apostando no negócio das energias limpas.

A solução para a emergência ambiental não está em refrear a criatividade natural do ser humano, nem numa demanda impossível contra o nosso egoísmo intrínseco. Está na nossa liberdade e na nossa infinita capacidade de inovação tecnológica. Determinada, é claro, pelo desejo permanente de melhorarmos a nossa condição. O que salvará o planeta é o capitalismo. 

Advogado

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico 

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