expresso.ptexpresso.pt - 2 dez 19:00

Mind the Vote #15. Os problemas do trabalhista Jeremy Corbyn explicados por quem sabe de trabalho

Mind the Vote #15. Os problemas do trabalhista Jeremy Corbyn explicados por quem sabe de trabalho

O chefe de uma importante central sindical explicou que o Partido Trabalhista está coxo em regiões de Inglaterra que costumam ser-lhe queridas. O norte e centro da maior nação do Reino Unido pode ser crucial para determinar o desfecho das eleições de 12 de dezembro

Esta segunda-feira é o dia em que Donald Trump chega a Londres para a cimeira da NATO e uma visita oficial ao Reino Unido. Tal acontece a partir desta noite, pelo que o Mind the Vote vai focar-se noutros assuntos. Em todo o caso é bom que saiba que Boris Johnson já pediu ao Presidente americano para não intervir na campanha eleitoral. Sinal de que o conhece.

Viremos o olhar para a esquerda, então. Jeremy Corbyn tem um “calcanhar de Aquiles”. Quem o afirma é o secretário-geral da confederação sindical Unite, Len McCluskey. Em entrevista ao “HuffPost UK”, o sindicalista aponta as zonas eurocéticas do norte e centro de Inglaterra onde votantes tradicionais do Partido Trabalhista (de que o próprio é membro) não decidiram ainda em quem votar. “O nosso calcanhar de Aquiles está nas nossas comunidades, naquilo que é conhecido como os nossos redutos, que votaram pela saída [da UE] e não têm bem a certeza de dever dar o seu voto aos trabalhistas”, reconheceu.

O programa trabalhista é claramente de esquerda, com promessas de generosos gastos públicos e, em princípio, do agrado das populações destas zonas pós-industriais, mas McCluskey admite que a ambiguidade sobre o Brexit e dúvidas sobre as capacidades do próprio líder do partido estão a fazer vacilar apoiantes tradicionais. A seu ver, é preciso não só vender as ideias do partido como “resolver problemas muito reais que temos relativamente ao Brexit e a Jeremy nalguns locais”.

Corbyn promete negociar um novo acordo de saída da UE (deitando fora o de Boris Johnson, como este fez com o de Theresa May), que depois sujeitará a referendo com a opção de ficar na UE. Mas nessa consulta popular o líder permaneceria neutro, o que leva críticos a perguntar que acordo é esse que vai negociar e que ele próprio não está disposto a defender no putativo segundo referendo sobre o Brexit. Ao não defender taxativamente a saída, como os conservadores e o Partido do Brexit, nem a permanência, como Liberais Democratas, Verdes e nacionalistas escoceses, galeses e norte-irlandeses, o Partido Trabalhista arrisca-se a ficar na terra de ninguém.

Tal duplicidade valeu-lhe um resultado razoável em 2017, negando a maioria à conservadora May. Corbyn conseguiu não perder votos nas zonas de tendência trabalhista que tinham votado a favor do Brexit um ano antes (o partido foi oficialmente pela permanência na UE). Trata-se de círculos eleitorais onde muitos vontantes passaram diretamente do Partido Trabalhista para forças eurocéticas como o UKIP e, atualmente, o Partido do Brexit. Mas o efeito de 2017 pode não se repetir quando a data de saída se aproxima e o eleitorado anseia por definição. Nos estudos de opinião, de resto, Corbyn aparece atrás de Johnson em quase todas as qualidades que fazem um primeiro-ministro.

McCluskey assume as fragilidades do líder mas sublinha que “nunca houve nada como a campanha negativa contra Jeremy Corbyn em todos os assuntos em que a comunicação social possa tentar atribuir-lhe parte das culpas. Tem sido pessoalmente esquartejado, de tal forma que alguém mais fraco já teria quebrado, mas ele tem força que chegue”. O sindicalista falou mesmo de “traição” por deputados trabalhistas, alguns dos quais passaram a independentes ou aderiram aos liberais por causa da questão europeia ou das alegações de antissemitismo disseminado pelo partido e tolerado pela direção.

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On other matters, quem hoje visse o primeiro-ministro ladeado pelas duas maiores figuras do Partido Trabalhista (o mayor de Londres, Sadiq Khan, e o líder Jeremy Corbyn), poderia pensar que o atentado de sexta-feira passada em London Bridge gerou aquele tipo de união entre forças políticas que, conquanto nem sempre sincera, fica bem. Nada mais falso. A chicana política não para desde o trágico acontecimento.

Boris Johnson defendeu uma “sentença mínima obrigatória de 14 anos” para terroristas condenados, afirmando que alguns nunca deviam ser libertados. O assassino de London Bridge, que matou duas pessoas e feriu pelo menos três, era um jiadista em liberdade provisória, tendo cumprido apenas oito anos de uma sentença de 16. O primeiro-ministro pensa que para crimes de terrorismo e extremismo, “a sentença anunciada pelo juiz deve ser o tempo realmente cumprido; estes criminosos devem cumprir cada dia da sua pena, sem exceções”. Um passo adiante, portanto, em relação ao programa eleitoral conservador, que só punha fim à saída automática da prisão após metade da pena.

Esta quinta-feira o ministro da Justiça, Robert Buckland, reafirmou a promessa de Johnson, contrariando a vontade dos familiares das vítimas do atentado, que pediram que os políticos se abstivessem de utilizar o ocorrido para marcar pontos. “O primeiro-ministro teve razão ao dizer que quer que revejamos as sentenças por terrorismo e assegurar que são o mais eficazes possível”, afirmou Buckland.

Phillip Lee, seu ex-colega de partido que agora é candidato pelos Liberais Democratas e seu e porta-voz para a Justiça, considera a promessa de Johnson tirada “do manual de Trump”. Na Sky News, assegurou que a medida seria “extremamente difícil” de aplicar, por falta de espaço nas prisões. Fala com conhecimento de causa, já que foi subsecretário de Estado da Justiça no Governo de Theresa May. Defende, em vez disso, maior investimento na polícia, nos tribunais e nos sistemas de liberdade condicional, para que seja possível “trancar gente como Usman Khan [o cassassino de London Bridge] por muito mais tempo, aliás, para sempre”.

Nisto, um ex-diretor da Comissão de Liberdade Condicional criticou os cortes orçamentais em declarações à rádio BBC. “Os cortes e a reorganização de prisões e serviços de liberdade condicional tornam-nos muito menos capazes de fazer o seu trabalho e manter-nos seguros”, afirmou. A seu ver, a acusação de Johnson ao Partido Trabalhista (que não governa há nove anos) por ter criado o sistema de libertação ao abrigo do qual o terrorista saiu da cadeia não passa de “jogada política pateta”, com “profundo desrespeito pela família e amigos das pessoas que foram mortas”.

FOTO DO DIA Hoje, excecionalmente, a foto é do dia anterior… quem seguiu no domingo a campanha da liberal democrata Luciana Berger foi surpreendido pela participação do ator Hugh Grant no diálogo da candidata com populares, no estilo “porta-a-porta” comum nas eleições britânicas. A ex-trabalhista concorrepelo círculo de Finchley and Golders Green, no norte de Londres, zona favorável à permanência na UE, defendida pelos Liberais Democratas. Admitindo que não é apoiante de longa data do partido, Grant explicou que quer que o resultado das legislativas de 12 de dezembro seja contrário ao Brexit. “Sondagem após sondagem mostra que o Reino Unido mudou de opinião”, afirmou. Irá apoiar mais candidatos contra a saída da UE. FOTO GETTY IMAGES

Hoje, excecionalmente, a foto é do dia anterior… quem seguiu no domingo a campanha da liberal democrata Luciana Berger foi surpreendido pela participação do ator Hugh Grant no diálogo da candidata com populares, no estilo “porta-a-porta” comum nas eleições britânicas. A ex-trabalhista concorrepelo círculo de Finchley and Golders Green, no norte de Londres, zona favorável à permanência na UE, defendida pelos Liberais Democratas. Admitindo que não é apoiante de longa data do partido, Grant explicou que quer que o resultado das legislativas de 12 de dezembro seja contrário ao Brexit. “Sondagem após sondagem mostra que o Reino Unido mudou de opinião”, afirmou. Irá apoiar mais candidatos contra a saída da UE. FOTO GETTY IMAGES

Leon Neal/GETTY IMAGES

A FRASE

“Não usem a morte do meu filho e as fotos dele e da sua colega para promover a vossa vil propaganda. Jack estava contra tudo o que vocês representam: ódio, divisão, ignorância.” Foi esta a dura reação de David Merritt, pai de uma das vítimas do ataque terrorista de sexta-feira em Londres, depois de jornais tabloides terem enaltecido promessas feitas por Boris Johnson, na sequência do atentado, de endurecer as penas de prisão.

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O primeiro-ministro prometeu devolver à cadeia jiadistas condenados e entretanto libertados ao abrigo da lei, enquanto o seu Partido Conservador culpou do sucedido o regime de liberdade provisória criado por um Governo trabalhista. Já os trabalhistas apontaram o dedo aos cortes de verbas para a polícia nos tempos dos tories. Dos meios liberais veio ironia contra a xenofobia de muitos apoiantes do Brexit. Dado que um dos polícias que barraram passo ao atacante de London Bridge era polaco, brincou-se: “O raio dos imigrantes da UE, a virem para cá e a combaterem os terroristas!”.

UMA HISTÓRIA FORA DO RADAR

Para lá da influência do atentado de sexta-feira no comportamento eleitoral dos britânicos e do (mais ou menos) subtil atirar de culpas que se seguiu, convém lembrar que morreram dois seres humanos e lembrar quem foram. Saskia Jones, de 23 anos, tinha um mestrado em Criminologia pela Universidade de Cambridge e tinha-se candidatado a entrar para a polícia. “Divertida” e “simpática”, nas palavras de parentes e amigos, queria especializar-se em apoio à vítima. Acredivata que “as pessoas que cometeram crimes devem ter oportunidades de reabilitação”, segundo a família, e era por isso que estava a assistir a um encontro sobre reabilitação de reclusos em Fishmongers’ Hall, onde morreu. A outra vítima do ataque foi Jack Merritt, de 25 anos. Amigo e colega de Saskia Jones, coordenava o programa Aprender Juntos do Instituto de Criminologia da Universidade de Cambridge. “Acreditava em redenção e reabilitação, não vingança”, disse a família, frisando que Merritt odiaria ver a sua morte instrumentalizada para defender penas de prisão mais pesadas. Em entrevista à rádio BBC 4, falou do trabalho com reclusos em Suffolk, explicando que este dá aos seus alunos “uma ideia em primeira mão, muito real mas também com nuances, de como funciona a lei, e também uma boa consciência de onde existe falta de informação, falta de conhecimento e que áreas do direito ganhariam com alguma clarificação… áreas em que veem pessoas passar pelo sistema prisional sem perceber e onde poderiam fazer investigação para ajudar essas pessoas”. O homicida, Usman Khan, fora convidado para a conferência para falar da sua experiência. Em vez disso, matou Jones e Merritt e feriu pelo menos mais três pessoas, antes de ser travado na ponte próxima do local do evento e morto pela polícia. Fora libertado há um ano, após cumprir oito de dezasseis anos a que fora condenado por conspirar para fazer explodir a Bolsa de Londres e outros edifícios.

NAFTALINA ELEITORAL

“Era uma espécie de mulher preconceituosa que disse que dantes era trabalhista. Quer dizer, isto é ridículo.” Era maio de 2010 e o primeiro-ministro Gordon Brown acabara de ter um diálogo complicado, em campanha e diante das câmaras, com uma eleitora de Rochdale, na área metropolitana de Manchester. Gillian Duffy temia que o influxo de imigrantes impedisse britânicos carenciados de receber ajudas do Estado. “Não se pode dizer nada sobre os imigrante, porque dizem que somos… mas todos estes europeus de leste que estão a chegar, de onde vêm?” O governante trabalhista respondeu: “Um milhão de pessoas chegou da Europa, mas um milhão de britânicos foi para a Europa.” Brown entrou para o carro e descompôs a sua equipa por ter propiciado aquele momento embaraçoso. “Foi um desastre! Sue [membro do seu gabinete] nunca devia ter-me posto com aquela mulher”.

O pior é que o microfone de lapela do primeiro-ministro ainda estava ligado e as suas palavras foram difundidas pela Sky News em todo o país. Brown foi à televisão pedir desculpas públicas e em seguida visitou Gillian Duffy em sua casa, mas esta recusou-se a comparecer com ele perante os jornalistas. Mais tarde disse ter ficado mais triste do que zangada, ofendida por Brown se referir a ela como “aquela mulher”, quando “podia ter dito ‘aquela senhora’”. Duffy absteve-se e, embora em Rochdale os trabalhistas tenham ganho, a nível nacional perderam e Brown entregou as chaves de Downing Street ao conservador David Cameron.

SONDAGEM DO DIA

A brecha parece estar a reduzir-se. Um conjunto de sondagens realizadas na última semana de novembro e divulgadas ao longo do fim de semana mantém o Partido Conservador à frente nas intenções de voto para as legislativas do próximo dia 12, mas revela duas tendências: maior concentração de votos nos dois maiores partidos e capacidade do Partido Trabalhista par recuperar terreno. No estudo de opinião da Survation, os conservadores de Boris Johnson surgem com 42% (sobem 1% em relação à sondagem anterior) e os trabalhistas de Jeremy Corbyn com 33% (sobem 2%). No setudo da YouGov, Johnson mantém 43% e Corbyn sobe 2% para 34%. A DeltaPoll prevê 45%-32% (ambos crescem 2%). Para o instituto OpiniumResearch, o estado de coisas está em 46%-31%, com os conservadores a cair 1% e os trabalhistas a crescer 3%. Embora as variações estejam dentro da margem de erro, o facto de a tendência se repetir nos vários estudos tem chamado a atenção dos meios de comunicação britânicos. Liberais Democratas (entre 11% e 15%) e Partido do Brexit (2%-3%) perdem apoios em quase todas estas sondagens, em que a única formação de âmbito nacional a crescer é o Partido Verde (3%-4%).

SAÍDO DO MANIFESTO

Um dos partidos que mais contribuíram para a presente situação política britânica apresentou hoje o seu programa eleitoral. O Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) pode ter perdido relevância e quase todos os apoios com a saída do líder Nigel Farage, mas não desiste de retirar o país da UE sem acordo. Para a líder interina do partido (já houve sete desde que Farage foi fundar o Partido do Brexit), o atual acordo de Boris Johnson mantém o Reino Unido “amarrado a Bruxelas”. O UKIP, que apenas concorre a 44 dos 650 lugares da Câmara dos Comuns, promete ainda reduzir a imigração para menos de 10 mil entradas por ano (hoje são perto de 200 mil) e reduzir os seus direitos a apoios estatais, reduzir custos de receitas médicas e propinas universitárias, aumentar as prestações sociais e cortar impostos, contratar 30 mil professores e renovar infraestruturas e linhas de transporte público, gastar mais em defesa mas menos em ajuda internacional. Declarando-se “realista”, Mountain sabe que não vai ser primeira-ministra mas quer representar “todos os que foram desiludidos e traídos pelos políticos em Westminster”. Vencedor das eleições europeias de 2014, chegou aos 13% nas legislativas do ano seguinte, mas em 2017 estava reduzido a 1,8% e nunca teve deputados que não dissidentes do Partido Conservador.

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