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A NATO e o regresso do medo

A NATO e o regresso do medo

Não ignorando os riscos que a NATO enfrenta, ela tem hoje um propósito que já não tinha desde o fim da Guerra Fria. Dito de uma forma simples: o medo está de regresso.

Foi em setembro. Em 1948. Poucos meses antes da criação da NATO. Na Assembleia-Geral das Nações Unidas. Paul-Henri Spaak conversava com o representante soviético. Já tinha havido a criação do Kominform, o “golpe de Praga” e o início do bloqueio de Berlim. E havia a hegemonia da URSS em praticamente toda a Europa de Leste. Exasperado, o primeiro-ministro belga virou-se para o seu parceiro de diálogo e atirou, certeiramente: “Sabeis qual é a base da nossa política? É o medo! O medo de vós, o medo do vosso governo, o medo da vossa política.”

É dezembro. Ano 2019. Em Londres, reúnem-se os dirigentes dos países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Celebram os 70 anos. Tratam do presente e decidem se há futuro. Haverá? O Presidente francês parece achar que nem por isso e o melhor é mesmo procurar alternativas, enquanto o seu homólogo norte-americano parece considerar que sim, pedindo a todos que gastem mais com a defesa comum. Nunca se pode ter a certeza nos dias de hoje, mas, ironicamente, ainda pode ser a administração Trump a salvar a NATO, dando-lhe não só mais poder, como, sobretudo, um novo propósito comum.

Todas as conversas andam à volta da recente entrevista de Emmanuel Macron à revista The Economist. O que ele disse não é só errado. É muito perigoso. Desde logo para a França, que, sem NATO e com o “Brexit”, pode ficar novamente sozinha com a Alemanha na Europa. Não costuma acabar bem. O Presidente francês acha que os países europeus já não podem confiar nos Estados Unidos, que a NATO está “cerebralmente morta” e tem de ser substituída por uma “aliança de defesa europeia”, que a Europa deve funcionar como “um poder equilibrador”. E não disse, mas está implícito nas suas palavras, que a UE deve considerar de forma equivalente os EUA, a Rússia e a China. De resto, ainda acrescentou que era preciso um entendimento com os russos, com ou sem os norte-americanos. Estaline concordaria. Aliás, chegou a mandar Molotov propor isso mesmo aos europeus.

Estas ideias, a serem postas em prática, só podem resultar numa rutura dos laços políticos e de segurança entre os Estados Unidos e a Europa, culminando numa “separação atlântica”, pois, neste caso, a NATO deixa de ter qualquer interesse para ambos os lados do oceano e o seu fim é apenas uma questão de datas. Mas ainda há esperança. Os restantes líderes europeus não acompanham o Presidente francês. Os alemães até pedem desculpa. E os norte-americanos já fizeram saber que a prioridade é fazer face ao regresso da competição entre grandes potências e à grande ameaça que vem das revisionistas Rússia e China. Estão preparados para fazê-lo sozinhos. Mas, retórica à parte, sabem bem que é do seu interesse agir com os aliados. Desde que, como lembrou a Casa Branca nas vésperas da cimeira, continue o “avanço sem precedentes” da partilha de encargos, que, desde 2016, já permitiu um aumento de 100 milhões de dólares em novos gastos de defesa.

Em Londres, como habitualmente, todas as atenções estão viradas não para Macron mas para Donald Trump. E, se por uma vez, desviarmos os nossos olhares dos faits divers, até mesmo da personalidade do Presidente dos EUA, e olharmos para os principais documentos estratégicos norte-americanos, percebemos que, não ignorando os riscos que a NATO enfrenta, ela tem hoje um propósito que já não tinha desde o fim da Guerra Fria. Dito de uma forma simples: o medo está de regresso.

Comecemos pelo medo da Rússia. A Estratégia de Segurança Nacional, de 2017, a Estratégia de Defesa Nacional e a Nuclear Posture Review, ambas de 2018, identificam-na, sem ambiguidades, como uma potência revisionista, um competidor estratégico e uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos. No primeiro documento pode mesmo ler-se que os russos pretendem “refazer o mundo de uma forma antitética aos valores e aos interesses norte-americanos” e procuram “estabelecer esferas de influência na sua vizinhança próxima”. E continua: Moscovo tem “como objetivo enfraquecer a influência dos EUA no mundo” e “separá-los dos seus aliados e parceiros”, vendo “a NATO e a União Europeia como ameaças”. Finalmente, para referir apenas alguns exemplos, diz-se que a Rússia “está a investir em novas capacidades militares, incluindo sistemas nucleares que continuam a ser a mais significativa ameaça existencial aos Estados Unidos”. Mais claro do que isto era impossível.

Depois, há o medo da China, que, de acordo com a mesma Estratégia de Segurança Nacional, pretende reescrever as regras da ordem internacional e criar novas, ao mesmo tempo que vai implementando o seu projeto de hegemonia regional e de expansão da sua influência ao nível mundial. Como? Construindo “a mais capaz e bem financiada força militar do mundo” logo a seguir à dos EUA. Aumentando o seu poder nuclear. Construindo postos militares avançados no Mar do Sul da China, “pondo em perigo o livre comércio, ameaçando a soberania de outras nações e minando a estabilidade regional”. Contrapondo à ordem norte-americana uma ordem chinesa, traduzida no projeto Belt&Road Initiative. Usando inventivos e penalidades económicas para estender a sua influência em outros Estados, penetrando assim em várias regiões.

E as grandes ameaças não ficam por aqui. As duas referidas são as principais. Mas elas também vêm dos Estados-párias, como o Irão e, pelo menos até há algum tempo atrás, a Coreia do Norte. Do terrorismo. E dos ciberataques.

Os mais cínicos estão neste momento a pensar que, mesmo sendo tudo isto verdade, tal não tem um impacto significativo na Aliança Atlântica, pois, não só Trump tem tweetado a sua desconfiança em relação aos aliados permanentes e a sua preferência por agir unilateralmente, como os Estados Unidos não precisam da NATO para nada. Pelo menos no caso da Rússia (e, talvez, mais cedo ou mais tarde, da China) a realidade prova o contrário, como o demonstra a extraordinária unidade transatlântica na reação à guerra da Ucrânia e anexação da Crimeia (que não se alterou com a eleição de Donald Trump, estando este a cumprir todos os compromissos assumidos pelo seu antecessor), assim como na ação concertada no caso Skripal. 

Se Paul-Henri Spaak fosse vivo e estivesse na cimeira dirigir-se-ia não a um representante soviético, mas aos líderes presentes na sala, para dizer-lhes que a NATO é hoje mais importante do que em qualquer outro momento do pós-Guerra Fria. E explicar-lhes-ia a atual base da política comum dos Estados-membros: “É o medo! O medo da Rússia. O medo da China.” Não deixa de ser curioso que os EUA, de Trump, tenham sido os primeiros a perceber isto.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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