expresso.ptLourenço Pereira Coutinho - 2 dez 09:33

'brexits'

'brexits'

Opinião de Lourenço Pereira Coutinho

Antes do tema de hoje, uma breve nota motivada pelo da semana passada (artigo “manifesto pessoal”): a rejeição de uma visão maniqueísta da vida e da política, e a apologia do consenso sobre o confronto, não significa ausência de comprometimento. Também, não significa receio de afirmar uma posição política. Para que conste, identifico-me sobretudo com as perspectivas do pensamento conservador-liberal de matriz anglo saxónica e, também, com as da democracia cristã e da social democracia de matriz continental.

O meu posicionamento político resulta, pois, da conjugação e conciliação destas referências, o que, julgo, me enquadraria algures no centro-direita do expectro ideológico-partidário europeu. Contudo, esta realidade não impede que reconheça virtudes, genéricas ou pontuais, a outras propostas políticas, nem se sobrepõe ao meu compromisso primordial, que é com o exercício de uma cidadania baseada em valores humanistas e princípios éticos.

Escrito isto, passemos então ao brexits.

Em 2016, o povo britânico votou em referendo, e por uma pequena margem, pela saída do Reino Unido da União Europeia. Considero que este foi um momento negativamente marcante, pois o Reino Unido é fundamental para o aprofundamento do projecto europeu, que me parece a melhor forma dos países que o integram conseguirem afirmar os seus valores de democracia e liberdades, isto no contexto de um mundo globalizado e ferozmente competitivo onde, genericamente, impera o primado do lucro desregulado e das ambições individuais ou particulares, sobre o bem comum e o respeito pela dignidade humana.

É certo que o projecto europeu está em crise, e que por isso urge recentrar prioridades, mas creio que a solução para este problema não deveria passar por abandonar o barco na altura em que ele mais oscila, e que mais precisa que todos ajudem a equilibrá-lo.

Esta decisão britânica pouco tem, porém, de surpreendente ou de incoerente. Aliás, o brexit de 2016 tem um precedente. Este ocorreu no longínquo ano de 1534, quando Henrique VIII Tudor decidiu abandonar o grupo dos estados obedientes a Roma e ao Papa, para fundar uma igreja anglicana subordinada ao rei de Inglaterra. Em pleno período da reforma protestante, a posição anglicana era, contudo, diferente da luterana e da calvinista, que romperam com o papado por questões teológicas. Pelo contrário, a motivação de Henrique VIII era antes do mais pragmática, sendo poucas, ou nenhumas, as divergências doutrinais que o opunham à ortodoxia católica. Sobretudo, o rei de Inglaterra queria controlar a nomeação dos bispos, o pagamento de taxas e impostos, a propriedade, e evitar que os seus súbditos obedecessem também a uma entidade externa.

É certo que o luteranismo também foi adoptado de forma pragmática, e por motivos semelhantes aos ingleses, pelos príncipes alemães e escandinavos e que, mais tarde, o mesmo aconteceu com o calvinismo pelas províncias unidas, mas a igreja anglicana foi a única das protestantes a ser fundada por um rei que, num acto de soberania, decidiu sair da respublica christiana ocidental.

Durante a idade moderna, a Inglaterra e, depois, o Reino Unido, solidificaram a sua teoria e prática de relação com o “continente”. Esta baseou-se na procura do equilíbrio de forças entre os principais estados europeus, e num firme desejo de não interferência nos seus assuntos, a não ser perante o perigo de uma hegemonia, ou de uma ameaça à sua supremacia naval.

Este pragmatismo inglês tornou-se evidente a partir da gloriosa revolução de 1688, quando o stadhouder das Províncias Unidas (Holanda por simplificação), Guilherme de Orange, tornou-se também rei de Inglaterra, com o nome de Guilherme III. Na altura, a Holanda era a maior potência naval europeia, e os ingleses, sempre pragmáticos, beneficiaram muito com esta partilha de soberano. Durante o século XVIII, os ingleses suplantariam mesmo os holandeses, e afirmaram-se como a principal potência naval europeia.

Foi em nome do equilíbrio de forças no continente que o então Reino Unido da Grã-Bretanha (Inglaterra por simplificação) liderou a coligação contra Luís XIV na guerra de sucessão de Espanha (1700-1713), isto de forma a evitar que a dinastia de Bourbon reinasse também neste estado. Também, foi em nome das suas ambições coloniais que o Reino Unido entrou na guerra dos 7 anos (1756-1763) ao lado da Prússia de Frederico II, e em oposição à França e ao Sacro Império. Na altura, os britânicos garantiram as suas possessões na América do norte e na India, isto à custa da derrota francesa.

Felizmente, o pragmatismo e a obsessão inglesa pelo equilíbrio na Europa salvaram por duas vezes o continente de uma hegemonia monocolor. Entre 1792 e 1815, os ingleses lideraram todas as 7 coligações contra a França, primeiro contra o estado revolucionário e a república e, depois, contra Napoleão. Mais tarde, já no século XX, o Reino Unido resistiu isoladamente (1940-1941), e foi crucial na derrota (1941-1945), do terror nazi.
Pelo meio, entre o século XVIII e a II guerra mundial, o Reino Unido consolidou-se como a principal potência naval à escala global. Por este motivo, passou a ter interesse em assegurar pontos chave que lhe permitissem o controlo dos mares. Neste enquadramento, e a partir do século XVIII, Portugal passou a ter um interesse estratégico para os ingleses, isto sobretudo por cinco motivos principais: por Lisboa e os Açores serem fundamentais como bases da navegação atlântica; pelo acesso aos recursos e comércio brasileiro; pelo controlo do negócio do vinho do Porto; e para evitar que Portugal e Espanha se juntassem num único estado, e assim formassem um concorrente naval e colonial de peso.

O interesse estratégico inglês por Portugal foi muitas vezes encarado pelos governos de Lisboa com alguma ingenuidade e romantismo. A “velha aliança” é uma expressão com alguma estética, mas não impediu os ingleses de governarem Portugal como um protetorado de facto, isto entre os anos de 1808 e 1821, enquanto o rei estava no Brasil; de enviarem o Ultimato de 1890, quando ambos os países disputavam o mesmo espaço colonial; ou, ainda, durante a I guerra mundial, de destinarem o Corpo Expedicionário Português (CEP) às zonas mais mortíferas das trincheiras.

A enumeração destes factos não é, de forma alguma, um apontar de dedo ao Reino Unido. Ao contrário de outros estados e regimes, como a Espanha de Carlos V e Felipe II, a França de Luís XIV e da revolução, ou a Alemanha nazi, os ingleses nunca tiveram a tentação de exportar ou impôr no “continente” os seus ideais ou religião. Nortearam-se sempre por princípios pragmáticos que, na maioria das vezes, acabaram por beneficiar o equilíbrio e salvar a Europa de hegemonias. No caso específico de Portugal, o país dificilmente se teria mantido independente não fosse os ingleses terem interesse na situação.

Após a II guerra mundial, e a progressiva perda das suas colónias, o Reino Unido encontrou o equilíbrio perfeito para fazer face aos desafios dos novos tempos: uma parceria estreita com os Estados Unidos, alicerçada em laços históricos, nas relações comerciais, e numa aliança militar, a NATO; uma relação privilegiada com as antigas colónias, baseada na Commonwealth; e, pela primeira vez, uma participação activa e constante num projecto europeu, isto depois de vencer inúmeras resistências, como as do general de Gaulle, e mesmo tendo em conta as reticências que os governos de Londres sempre manifestaram pelo aprofundamento do mesmo.

O recente brexit, não deixa, pois, de ser um golpe no equilíbrio que o Reino Unido construiu após a II guerra mundial. A saída do Reino Unido da União Europeia tem consequências negativas para ambos mas, à luz da História, não deixa de ter a sua lógica, e ser até expectável. Muito em breve, a grande ilha britânica e o “continente” vão voltar a estar separados por um fino manto de nevoeiro. Também tendo em conta a História, tenho esperanças que, um dia, este se volte a dissipar.

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