www.jornaldenegocios.ptLuís Todo Bom - 2 dez 19:35

Uma estratégia salarial para o país

Uma estratégia salarial para o país

A cada aumento do salário mínimo corresponde um aumento do número de trabalhadores a auferirem esse salário, estreitando a diferenciação para as posições seguintes, mantendo-se o salário médio sem alteração.

O salário mínimo nacional foi, novamente, aumentado. Ninguém, com um mínimo de sensibilidade social, pode estar contra este aumento.

Ninguém, com um mínimo de seriedade intelectual, pode deixar de reconhecer que este valor está, ainda, abaixo do valor mínimo para uma qualidade de vida aceitável.

Mas, infelizmente, a economia portuguesa não é capaz de acomodar um valor mais elevado.

Não é, nem será, no futuro próximo, já que a nossa produtividade continua muito baixa e sem crescimento, condicionando a competitividade das nossas empresas nos mercados externos e, por esse facto, reduzindo a capacidade para remunerar melhor o trabalho.

A competitividade da nossa economia continua, e continuará se não houver inversão das políticas atuais, a ser suportada em salários baixos.

Verifica-se, aliás, que, a cada aumento do salário mínimo corresponde um aumento do número de trabalhadores a auferirem esse salário, estreitando a diferenciação para as posições seguintes, mantendo-se o salário médio sem alteração, ou seja, há um acantonamento em torno do salário mínimo.

Não existe uma estratégia salarial para o país, alinhada com aumentos de produtividade e de competitividade.

No caso da função pública, a irracionalidade salarial é gritante.

Criaram-se, para fugir aos salários baixos dos quadros superiores, uma infinidade de carreiras fechadas, com progressões garantidas dentro daqueles universos - magistrados, reguladores, professores, diplomatas,….

Só quem não sabe a teoria dos sistemas é que não percebe que, em sistemas fechados e autorregulados, a produtividade se reduz.

Entretanto, no universo dos restantes sistemas, semiabertos, os quadros superiores especializados - médicos, enfermeiros, engenheiros, informáticos, economistas, gestores … auferem remunerações ridículas, pelo que emigram, cada vez mais, para os países da Europa do Norte.

A tentativa de promover um aumento de produtividade, atribuindo prémios a quem pica o ponto, é uma originalidade nacional.

Nas empresas, assistimos a uma redução progressiva dos leques salariais (embora as esquerdas, demagogicamente, afirmem o contrário, deturpando o conceito e a sua forma de cálculo, e confundindo rendimentos com património), afastando-se do valor ótimo para este ratio, com consequências claras na redução da produtividade.

Esta ausência duma estratégia salarial sistémica para o país tem origem na incapacidade do Governo em construir uma estratégia competitiva para o nosso sistema produtivo, continuando a apostar em setores de baixo valor acrescentado - turismo, comércio, indústrias e serviços tradicionais sem inovação.

Setores, que atraem uma imigração sem qualquer qualificação profissional, proveniente de países africanos e sul-americanos, que auferirão, sempre, o salário mínimo nacional e serão os primeiros a sofrer os ciclos negativos da economia.

É urgente alterar esta trajetória.

Mas não vislumbro nenhuma vontade política para que tal aconteça.

Gestor de Empresas

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