blitz.ptLuís Guerra - 2 dez 12:03

Grave, orquestral, vulnerável e vibrante. O novo álbum de Angel Olsen é um tesouro raro

Grave, orquestral, vulnerável e vibrante. O novo álbum de Angel Olsen é um tesouro raro

Ao quarto álbum, Angel Olsen consegue definir as suas emoções como nunca. Uma intimidade amplificada

Tanto no prisma do observador desinteressado como no do admirador comprometido, a vida parecia correr bem a Angel Olsen, compositora norte-americana nascida na reclusão da folk, cantora virtuosa com um timbre que ora estuda o canto dos Apalaches ora perscruta a resignação fadista, singularmente capaz de almejar a torch song intemporal. Contudo, na digressão de “My Woman” (2016), o seu terceiro álbum e aquele onde a paleta sonora se escancara mais flagrantemente (houve sempre um pingo de rock, passou a haver sintetizadores mais vincadamente), Angel Olsen confrontava-se com um não tão inusual paradoxo: o sucesso artístico não encontrava a mesma luminosidade no reduto emocional. Na aridez da estrada, Olsen – então nos últimos anos da casa dos vintes – bebeu mais do que devia, chorou mais do que queria, perdeu-se num labirinto revoltantemente difícil de resolver, mas fácil de explicar: eram dores de amor (esteve prestes a casar), era a solidão do abandono (terá enfrentado com choque o fim da relação amorosa), era a miséria da humilhação (o desgosto que se adensa).

“All Mirrors” é o ‘álbum negro’ de Angel Olsen, aquele onde um abnegado luto permeia 11 canções que começaram num momento de demissão. Instável emocionalmente, insatisfeita com o dia-a-dia longe de casa, saturada dos companheiros de banda, Olsen fechou-se e voltou atrás, à economia de “Strange Cacti”, o EP de voz e guitarra com que se apresentou em 2010, o disco onde decalca (na ilusão de ‘Drunk with Dreams’) o dedilhar de guitarra de ‘Barco Negro’ – o disco onde nos diz quem é. O resultado não poderia, contudo, ser mais diferente do que o primeiro esboço; o recolhimento esbarrou na ambição dos dois principais colaboradores, o multi-instrumentista Ben Babitt (com currículo em bandas-sonoras de filmes e videojogos indie) e o arranjador Jherek Bischoff, e ela entusiasmou-se com a síntese. O primeiro acrescentou à base artesanal instrumentação aturada – Mellotron, vibrafone, piano –; o segundo trabalhou com Olsen em opulentos arranjos de cordas. “All Mirrors” ia ser um outro disco.

‘Lark’, a abrir, é um tremendo declarar de intenções, percebendo-se logo que a “perda de empatia, confiança e amor por pessoas destrutivas” (Olsen dixit) é um mote nunca abandonado. A pele é suturada com versos como “Learn to look me in the eye / Yet I still don’t feel it’s me you’re facing”, a combustão é lenta e magistralmente adornada com um aparato orquestral que tanto evoca a solenidade de Scott Walker como a temperança panorâmica de Sixto Rodriguez – o auge depois de 5 minutos, explosão de violinos em raide aéreo e, em plenos pulmões, “What about my dreams? / What about the heart?”. À flor da pele e em gestos grandes.

É o equilíbrio entre a grandiosidade da música e a fragilidade das emoções cantadas que fazem de “All Mirrors” um álbum raro. É como se Angel Olsen amplificasse a sua intimidade sem medo de esborratar a maquilhagem. A sua voz não grita no vazio, mas não emudece perante o trovão da música (o tema-título é outro exemplo de tal argúcia), envolvendo-se agora com maior maleabilidade nas canções em vez de lhes servir de esqueleto (até porque é praticamente ‘expropriada’ da guitarra), baixando a guarda quando a candura é maior (‘Spring’, uma delícia), não temendo despedir-se com uma canção de embalar (‘Chance’), misto de súplica com vontade de vencer. Bendita seja.

Angel Olsen regressa a Portugal para três concertos em 2020: 22 e 23 de janeiro no Capitólio, em Lisboa; 24 de janeiro no Hard Club, no Porto.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 12 de outubro de 2019

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