expresso.ptexpresso.pt - 10 nov 10:07

O burro do presépio e todos os outros — Um conto de Natal de José Tolentino Mendonça

O burro do presépio e todos os outros — Um conto de Natal de José Tolentino Mendonça

Diz-se que os burros podem percorrer quatro quilómetros por hora e 24 quilómetros por dia. Penso, por vezes, que essa é a velocidade com que a tristeza caminha sobre a terra

Contaram-me que no “Dispensário Popular para Animais Doentes”, em Londres — uma maravilhosa instituição que oferece até aos dias de hoje uma parte significativa da sua atividade veterinária de forma gratuita —, existe uma inscrição que recorda todos os animais que foram mortos na Primeira Guerra Mundial, “nada sabendo das suas causas, não alimentando esperança alguma de vitória, movidos apenas pelo amor e pela lealdade” aos seres humanos. É um facto pouco recordado, mas nesses anos de 1914-1918, em que abundavam os meios mecânicos de transporte, um sem-número de animais foi forçado a desempenhar um papel no teatro militar. As cavalgaduras, por exemplo, protagonizaram episódios frequentes de deslocação de armamento e de tropas no terreno, sobretudo quando se tratava de territórios particularmente duros e inacessíveis, suportando com os soldados, e em seu favor, as condições de vida mais terríveis. Só o exército inglês importou da África do Sul, para serem utilizados na logística da guerra, 45 mil burros. Em Itália, em concreto nas zonas montanhosas onde atuavam os batalhões alpinos, cada divisão chegou a ter mais de 200 ao seu serviço. E o mesmo em França, sobre a frente ocidental do conflito, onde esses animais transportaram toneladas de munições e alimentos. E. H. Baynes relata no seu livro “Animais que Foram Heróis na Grande Guerra” o espanto de um oficial britânico perante um desses jumentos que atuava precisamente junto a um batalhão francês. Um projétil havia-o cegado e arrasara-lhe impie­dosamente as orelhas. O que delas restava parecia coroar agora a sua cabeça como torturantes pontas de arame farpado. E, mesmo assim, o animal insistia em prosseguir na realização daquela obra. Porém, a proverbial teimosia com que a sua espécie enfrenta a adversidade não deve fazer esquecer a realidade: os larguíssimos milhares de burros que pereceram ali, desconhecendo tudo sobre as razões do que sucedia, eles que por fidelidade e amor aos seres humanos se viam misturados involuntariamente com a primeira guerra química da história. Por isso, quando em “Animal Farm”, essa extraordinária fábula política com que George Orwell procura iluminar a escuridão de um século, se explica ao leitor que “os burros vivem muito tempo, e que nenhum de vós viu jamais um burro morto”, é evidentemente para ler ao contrário. O que pode assomar como uma farsa é, do princípio ao fim, uma elegia.

No British Museum conserva-se um achado arqueológico sumério, denominado “Estandarte de Ur”. Tem dois painéis principais, um que representa os tempos de paz e o outro a estação da guerra, e remonta a cerca de 2550 a.C. No painel dedicado à guerra vemos uma sucessão de carros militares conduzidos por burros, o que mostra como, desde os primeiros conflitos registados iconograficamente, estas criaturas foram submetidas às férreas ambições de cada época. Os burros do rei da Suméria parecem, no entanto, nessa representação figuras ingénuas de um delicado carrossel. E talvez isso intensifique a emoção que sobrevém ao contemplar o painel. Os asnos galopam numa ondulação marcada, isenta de violência, quase festiva, totalmente alheia ao cerco do terror. Mas o intervalo dos seus passos, no alinhamento do desenho, destapa o impensável: a morgue monumental em que a realidade dos povos, por vezes, se torna. Os corpos humanos tombados, que os nossos próprios olhos terão dificuldade em enfrentar, poderiam pertencer ao lápis apavorado de Otto Dix, de George Grosz, de Albin Egger-Lienz ou de qualquer outro pintor moderno da guerra. É como se não existisse diferença alguma. Os burritos do delicado carrossel do rei sumério atravessaram essas incompreensíveis linhas de fogo em rebentação. E, a quatro quilómetros por hora, sobre o seu galope inofensivo, se abateu a brutalidade da história. No exército romano acontecerá o mesmo, e repetidas vezes. Os garbosos cavalos eram naturalmente os animais preferidos e os mais usados, pelo menos entre os oficiais. Mas quando as condições de sobrevivência se tornavam desesperadas — e as quantidades de forragem necessárias para nutrir os cavalos eram já inalcançáveis — requisitavam-se os burros. Quando, por exemplo, numa das etapas da guerra civil que opôs César a Pompeu, as tropas deste incendiaram os campos para evitar que os cavalos de César se alimentassem, os homens deste conseguiram nutrir os burros com algas lavadas em água doce, a que misturavam uma mísera sombra de erva que restava.

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