expresso.ptexpresso.pt - 10 nov 11:21

Julia Kristeva: “A morte está em nós, é ela que esculpe a vida”

Julia Kristeva: “A morte está em nós, é ela que esculpe a vida”

É aquela que Roland Barthes definiu como “a estrangeira”, psicanalista, filósofa, linguista, voz do estruturalismo. Mas é, sobretudo, uma mulher que pensa o mundo neste tempo, para quem só as pessoas concretas importam, longe de esquemas globais. Kristeva esteve em Lisboa e falou com o Expresso

E eis que no fim da conversa acontece o seu início: Julia Kristeva deixa de responder a perguntas e, mesmo assolada pela dor de cabeça e o cansaço de um dia sem paragens, começa a falar. Põe-se de pé, alisa o vestido azul, trava o passo que a conduzia à porta de saída, e vira-se, mão no nosso braço, para continuar o diálogo. Ela, que aos 78 anos apanhara um avião de madrugada, que proferira uma longa palestra na Universidade Católica — onde, na manhã seguinte, receberia o doutoramento Honoris Causa —, quer contar mais um episódio importante. Quer falar do dia em que o Papa Bento XVI a convidou, em 2011, a participar do encontro inter-religioso pela paz, em representação dos não-crentes, e ela apresentou os “Dez Princípios para o Humanismo do Século XXI”. “Eu estava sozinha no meio de nove oradores religiosos. O Papa falou depois de mim e agradeceu à delegação dos não-crentes, que pela primeira vez se juntava ao encontro em Assis. E disse qualquer coisa como isto: que, para nós, a verdade não é um absoluto, mas um caminho.”

Porque é que esta acabaria por ser uma história relevante para Kristeva, ateia, feminista, investigadora na área da semiótica, psicanalista, filósofa, escritora e uma das principais teóricas do estruturalismo? É preciso contextualizar: a conversa derivara numa ideia que ela defende, a “necessidade de acreditar” como atributo dos seres falantes, propulsor da vida e da procura, independente da adesão a qualquer religião organizada. “Penso que esta minha noção ditará a nossa sobrevivência. E isso não é nada de mau, de negativo”, disse, de pé, já de mala no ombro. “Cada vida é uma sobrevida, cada vida é sobrevivente, porque está além da morte e com a morte. A morte está em nós, é ela que esculpe a vida. Não significa ausência de progresso, de produtividade, de conquistas; mas se não pensarmos na mortalidade em nós, a vida perde sentido. Longe de ser um lamento, a sobrevivência é uma energia.”

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