www.publico.ptpatricia.carvalho@publico.pt - 10 nov 08:36

Passar fome com peixe armazenado. Não, não estamos pior do que antes

Passar fome com peixe armazenado. Não, não estamos pior do que antes

Não me venham dizer que estamos pior. Que antigamente é que era bom. Que vivemos, hoje, um terror como nunca se viu. É fácil cairmos nessa armadilha.

Há um programa num canal por cabo que leva os concorrentes para sítios inóspitos do planeta e os deixa sozinhos, com uma câmara de filmar, a tentarem sobreviver. Têm de encontrar comida, construir um abrigo, lidar com eventuais problemas que possam surgir (seja um animal selvagem, uma picada de uma aranha venenosa ou um pé torcido) e adaptar-se à solidão. Quem aguentar mais tempo, leva para casa uma pequena fortuna.

Para ser honesta, o programa já vai em várias temporadas e eu devo ter visto, no total, uns três ou quatro episódios, por mero acaso. Mas a última vez em que me cruzei com ele (estava um bocado entediada, a saltar de canal em canal) assisti a uma cena de que não me esqueci. Além dos problemas emocionais de quem permanece semanas completamente isolado, o desafio maior que os concorrentes têm de ultrapassar é o de encontrarem comida. Havia ali gente a fazer uma festa porque um rato tinha caído numa armadilha improvisada e quem já só comesse caldos de fungos e ervas há vários dias.

A falta de alimentos atinge tais extremos que já tinha visto uma mulher a ser obrigada pelo médico do programa a abandonar o concurso, por causa do estado de subnutrição a que tinha chegado (há um médico que vai ver os concorrentes de vez em quando). Mas o caso que me deixou a pensar foi o de um homem que, aparentemente, era um génio na pesca e tinha conseguido acumular no seu abrigo uma quantidade generosa de peixe que, entretanto, conservara, fumando-o.

Ora, este homem, provavelmente o único naquela fase do programa que não tinha problemas em ter acesso a comida, apresentava uma magreza extrema e, no dia em que me cruzei com ele, estava, precisamente, a ser informado pelo médico que tinha de abandonar o concurso, porque o corpo podia entrar em colapso a qualquer momento.

O concorrente olhava para o peixe como quem não entende. A determinada altura, lá explicou que se tinha convencido de que, se comesse apenas meio peixe por dia, com a quantidade que já tinha armazenado, poder-se-ia manter no programa por muito tempo e seria o vencedor. E habituara-se, naquelas semanas, a ingerir tão pouco alimento que perdeu a capacidade de perceber como se estava a colocar em risco.

Dei por mim a pensar que aquele homem era uma versão magra e doente de todas aquelas pessoas que andam a lamentar-se, dia após dia, de como estamos todos hoje muito pior do que “antes”. Muitas vezes sinto-me a olhar para elas como o homem olhava para o peixe armazenado que de nada lhe servira — sem compreender. Estamos pior? Pior do que quando? De quando se morria sem se chegar a combater a doença de que se padecia porque não havia ainda conhecimentos médicos suficientes ou tratamentos eficazes? De quando os miúdos iam para a escola descalços porque não havia dinheiro para sapatos (e isto quando iam à escola)? De quando as mulheres tinham de pedir autorização ao marido para se ausentarem do país? De quando se podia ir parar a uma cela de tortura por se distribuir um panfleto? Ou a um manicómio por se ser homossexual? De quando dar um beijo em público dava direito a multa?

Estamos muito longe de podermos olhar em volta e dizer que está tudo bem. Há muita coisa mal, a começar pela forma como estamos a mostrar-nos incapazes de manter o planeta saudável e habitável. As pessoas continuam a ser capazes de actos inimagináveis de horror, à mesma velocidade que conseguem ser de uma bondade e generosidade desarmantes. As injustiças são mais do que muitas e, sim, é desesperante a forma como continuamos a repetir os mesmos erros, como se não aprendêssemos nada com o passado.

Mas não me venham dizer que estamos pior. Que antigamente é que era bom. Que vivemos, hoje, um terror como nunca se viu. É fácil cairmos nessa armadilha. Basta rodearmo-nos de pessoas que também o pensam e escolhermos como única fonte de informação os mesmos canais ou jornais que só mostram o pior que o mundo tem. Se nos fecharmos nesse círculo de desgraças, conseguimos um isolamento tão perfeito como o do homem que estava a morrer à fome com um excedente de peixe disponível. E esquecemo-nos de tudo o resto. Do que já conquistámos e da esperança do que ainda poderemos vir a conseguir.

Para explicar melhor, regresso à televisão e a um diálogo que apanhei, por acaso, entre duas personagens de uma série situada algures nos anos de 1950. Sentado num automóvel, um homem lamuriava-se de como naquele seu hoje tudo era pior do que antes. Claramente cansado daquele discurso que já deveria ter ouvido várias vezes, o seu interlocutor respondia-lhe algo como: “Antes, quando estávamos em guerra?”. E o pessimista retorquia com, ah, mas as relações pessoais eram outra coisa, os vizinhos eram muito mais prestáveis. “Os que estavam vivos e não tinham morrido na guerra, queres dizer?”, respondia-lhe o outro. É isto.

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