blitz.ptblitz.pt - 10 nov 02:52

Não há microfone que segure a voz de Carlos do Carmo. A despedida emocionada dos palcos no Coliseu de Lisboa

Não há microfone que segure a voz de Carlos do Carmo. A despedida emocionada dos palcos no Coliseu de Lisboa

Prestes a completar 80 anos, Carlos do Carmo agradeceu o carinho do público que o acompanhou ao longo de 57 anos de fado na noite em que se despediu dos palcos

Não era uma noite de sábado como as outras e a emoção pairava no ar muito antes de Carlos do Carmo colocar sequer um pé no palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. A sala nobre da cidade que sempre se deixou embalar e encantar pela sua voz transbordou para receber as despedidas de um cantor ímpar, fadista por amor, que, ao fim de 57 anos, decidiu abrandar o ritmo e abandonar os grandes palcos. De braços cruzados sobre o peito, como quem abraça todos e cada um dos presentes, o senhor do charme deu início a uma viagem pela memória, pontuada pelos seus retratos de uma Lisboa que foi e continua a ser um grande amor, como convinha: 'Vim Para o Fado'. "A minha formação musical não foi no fado, mas canto aquilo que gosto", ouvimo-lo explicar numa gravação de outros tempos, justificando a abertura que o seu fado sempre teve na hora de se deixar contagiar por linguagens de outras coordenadas temporais e geográficas.

A voz intemporal, com uma sobriedade jovial que mantém intacta, sempre meio falada meio cantada, segue imponente numa 'Gaivota' de palavras-bálsamo, sempre magistralmente pronunciadas, e em 'Canoas do Tejo', interpretada em dueto com a plateia. "Não sei se está a assistir o professor Centeno, mas seja qual for o orçamento para o próximo ano vocês para cantar assim não vão pagar mais", diz, espirituoso, incentivando o público a aumentar o volume. "Se de cada vez que canto batesse palmas a mim próprio...", provoca, de novo, reagindo ao entusiasmo generalizado. “Tenho dificuldade em dar-vos as boas noites. Não é só uma questão de emoção, é uma questão de amor. Sinto-me um homem coberto de amor, vocês têm-me dado tudo. Agradeço-vos”, acrescenta antes de enaltecer as presenças do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro ministro, António Costa, da ministra da cultura, Graça Fonseca, e do Presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

A intensidade que emprega a 'Duas Lágrimas de Orvalho', a forma como a sua voz consegue sempre domar o trinar das cordas das guitarras, mesmo numa densa interpretação de 'Estranha Forma de Vida' ("foi por causa deste fado que casei com a mulher que amo, com quem estou há 55 anos"), bem contornada pela melodia metálica do clarinete, e uma pose marcada pelas mãos descontraidamente resguardadas nos bolsos ajudam a rascunhar a imagem imortal de um homem que mais do que uma voz de Lisboa é, tal como Amália foi, uma voz de nós. "Isto tem sido um caminho. Já canto há 57 anos, mas cantar o fado deu-me o mundo. Sempre fui fascinado por canções italianas, francesas, brasileiras e o Sinatra. Quando canto o fado isso está tudo na minha cabeça", confessa antes de enaltecer a orientação do musicólogo Rui Vieira Nery na história do fado, a razão pela qual insistiu na construção do Museu do Fado e o orgulho que tem no filme "Fados", de Carlos Saura.

Entre o despeito do marialva inscrito em 'Pontas Soltas' por Maria do Rosário Pedreira e o gingar de 'Os Putos', uma dádiva de Ary dos Santos que se tornaria num dos seus temas maiores, Carlos do Carmo elogia as virtudes do silêncio, dos diferentes silêncios, e passa a homenagear a mãe, a também fadista Lucília do Carmo, com um rendilhado 'Olhos Garotos'. "A minha mãe decidiu deixar de cantar aos 60 anos", recorda, "não cantou nunca mais, só na varanda para os meus putos, os meus filhos, a cappella. Até hoje são loucos por ela". Deixando depois o fado de lado, recorda Bernardo Sassetti, com quem gravou 'O Sol' numa colaboração "sem rede, sem disciplina no arranjo, como dois loucos à solta", e entrega o protagonismo aos músicos que o acompanham, José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola fado, Marino de Freitas na viola baixo e João Santos no clarinete.

Partilhando o seu álbum de memórias com a plateia, regressa ao momento em que venceu um Grammy Latino e a quando interpretou 'I've Got You Under My Skin', tema celebrizado pelo ídolo Sinatra. "Cantar, dizem, é um afastamento da morte", cita então o escritor moçambicano Mia Couto, antes de voltar à sua Lisboa com 'Um Homem na Cidade' e o corridinho 'Bairro Alto'. O reconhecimento dos pares e grandes figuras da política, cultura e media chega depois num vídeo que junta as vénias e agradecimentos de Ana Moura, Camané e Mariza, mas também de Jorge Palma, Sérgio Godinho, Herman José, Alexandra Lencastre, Francisco Pinto Balsemão, António Guterres ou Simone de Oliveira. "Vou gravar um disco em janeiro", revela, de seguida, "não queria ir-me embora sem deixar um disco. Será o fecho da loja", desvendando também que cantará "uns dez ou onze fados" da autoria de, entre outros, Herberto Hélder, Jorge Palma ou Vasco Graça Moura. E é precisamente de Graça Moura, com música do "compadre" Paulo de Carvalho, a primeira amostra desse vindouro álbum: "vão ouvir um Vasco brejeiro", avisa antes de partir para 'Mariquinhas.com'.

'O Fado dos Cheirinhos', um magistral 'Cacilheiro' e o "eterno" 'Homem das Castanhas' ajudam a preparar um final que chega com agradecimentos especiais: "a Maria Judite é a pessoa da minha vida, mas tenho o maior orgulho nos meus filhos e nos meus netos. Saio com uma grande alegria que recebi de todos. Considero-me uma pessoa muito bem tratada. Fui, ao longo da minha vida, muito bem tratado pelo público. Sempre me respeitaram e eu sempre os respeitei. Quero agradecer-vos muito isso". 'Lisboa Menina e Moça' ficaria, de forma ternurenta, guardada para um final cantado em dueto com todos os presentes. Só que a ocasião era especial e a noite só ficaria completa depois de o fadista ser homenageado pelo governo com a medalha de mérito cultural e pelo Presidente da Câmara de Lisboa com a chave da cidade. "Como nenhum outro, interpretou a alma da cidade de Lisboa", diz Medina, "e cuidou não só do futuro do fado como do futuro da cidade". A despedida guardava ainda um momento especial e emocionante: no centro do palco, sem microfone ou ampliação das guitarras que o acompanham, o fadista entrega-se a 'Por Morrer uma Andorinha'.

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