expresso.ptexpresso.pt - 10 nov 15:11

Há youtubers a “fazer mais pela prevenção da depressão do que o Governo”

Há youtubers a “fazer mais pela prevenção da depressão do que o Governo”

As redes sociais têm vários perigos e o FOMO, ou o “medo de ficar de fora e sentir-se muito ansioso por não saber o que os amigos virtuais estão a fazer”, é um deles. Mas também convém não “demonizar” e apostar mais na formação e educação, concordam os investigadores, psicólogos e gestores de redes sociais que se juntaram para falar sobre saúde no contexto do Festival Mental

Um homem sentado na plateia ergue o braço no ar, quer falar. Passam-lhe o microfone e ele diz: “antes eu usava as redes sociais durante sete horas por dia mas consegui reduzir para uma. Estou contente, é uma vitória para mim”. Lembramo-nos de imediato dos encontros de pessoas viciadas em álcool, drogas ou outros problema que se tentam resolver com terapia de grupo que tantas vezes vemos caricaturados em filmes. Mas a comparação não é para rir.

A questão foi enquadrada logo no início desta "talk" — a segunda que o festival Mental apresenta. O psicólogo Luís Gonçalves explica o quão as redes sociais se podem tornar aditivas, como o álcool: “FOMO quer dizer Fear of Missing Out”, que em português se traduz para ‘medo de ficar de fora’. O termo é já do século passado, mas o problema está mais presente hoje em dia por causa da tecnologia”. Mas medo de ficar de fora de quê? “Das redes sociais e de não assistir ao que os ‘amigos’ estão a fazer e não fazer parte dessa felicidade que eles nos transmitem”, explicou o psicólogo, de forma idêntica à que tinha feito numa entrevista ao Expresso em antecipação desta “talk”.

“Deixamos de viver a nossa vida para vivermos a dos outros, e de forma muito rápida, imediata. Há uma espécie de diluição da nossa identidade, tornamo-nos naquilo que não somos.” Os telemóveis, acrescentou, “ajudam a preencher rapidamente determinadas necessidades que temos, até no que diz respeito ao contacto com outras pessoas, fazendo com que as relações de carne e osso se tornem mais difíceis, por se praticar pouco.”

Será que sofro de FOMO?

“Há sinais”, esclarece o psicólogo, que trabalha com adolescentes e adultos e que se tem dedicado à implementação de projetos ligados à saúde mental nas organizações, respondendo a outra intervenção do público, composto sobretudo por adultos mas também jovens. São eles, aliás, quem ocupa as primeiras filas da sala no Cinema City Alvalade, em Lisboa. “Quando tudo na nossa vida circula em torno do telemóvel, é sinal de que algo não está bem. Quando começa a haver ansiedade, quando surgem problemas no sono.” Outro dos aspectos tem que ver com a “qualidade da comunicação”, assinala, que acaba “por diminuir quando se tem o telemóvel sempre por perto”.

Em suma, é preciso “pensar se as várias áreas da nossa vida, a vida pessoal, a profissional, os nossos hobbies, estão a ficar dependentes do telemóvel”. “As redes sociais têm um grande poder de nos deixar ligados. O nosso cérebro fica muito condicionado, muito ligado, o que é muito natural, porque isto mexe com o nosso sistema de recompensa cerebral.”

Fotografia cedida pela organização do Festival Mental

Luís Gonçalves não pretende, contudo, demonizar as redes sociais: “se servirem como um complemento à nossa vida, está tudo bem, só não está quando deixamos que comecem a control��-la”. Já Carlos Duarte Mendes, gestor de redes sociais numa empresa e um dos oradores da conferência, mostra como estas plataformas podem ser “úteis” e não ajuda diabolizá-las, Conta o caso de uma youtuber portuguesa que revelou recentemente ter uma depressão e tem divulgado vídeos sobre o “processo doloroso e de grande sofrimento”, que lhe garantiram centenas de seguidores. “Duvido que uma campanha do Governo surtisse mais efeito em termos de informação e prevenção da depressão do que os vídeos dela.”

“A partir do momento em que uma pessoa sai de uma rede social, é como se desaparecesse do mundo. Daí o FOMO”

Para Carlos Duarte Mendes, “é tudo uma questão de escolha”, embora concorde que sim, que com as redes sociais “tornámo-nos todos num produto, o mais valioso até em termos de mercado”, e que “nenhuma rede social é grátis e que é paga com os dados que nós disponibilizamos”. “Quando, no contexto do meu trabalho, crio um anúncio no Facebook, ele dá-me informação sobre os utilizadores, e vocês enquanto utilizadores acabam por querer participar nisso, porque se não o fizerem estão ‘fora’. A partir do momento em que uma pessoa sai de uma rede social, é como se desaparecesse do mundo. Daí o FOMO.”

Importante é “educarmo-nos enquanto utilizadores”, diz, e “educação” é também a palavra-chave para João Pico, que trabalhou durante vários anos na área do jornalismo e é atualmente CEO de uma agência de vídeo online e de marketing. “Será que não basta aprender a usar melhor as redes sociais? E ensinar as novas gerações a fazê-lo?”, questiona. “A educação formal está a ensinar as crianças a usar Excel e Word, e não é que eu tenha alguma coisa contra isso, mas não acho que seja suficiente. É importante repensar a educação e ensinar outras competências, como a criatividade e pensamento crítico”, defende, sublinhando que “o essencial é manter uma higienização digital e ter consciência do que é cada plataforma”. O inverso disso são problemas como o FOMO, “o vício, a dependência, a doença mental”. “Já existem centros de tratamento de dependência para jovens nos EUA e em Inglaterra”, lembra.

1
1