eco.sapo.pteco.sapo.pt - 10 nov 16:00

CannaBusiness: já sem preconceito, ainda com entraves

CannaBusiness: já sem preconceito, ainda com entraves

Canábis deixou de ser um tabu e passou a ser uma oportunidade de negócio também para investidores. EUA e Canadá lideram, mas a Europa está a ganhar espaço no setor.

O que acontece com a canábis é que as pessoas adoram-na“. A brincadeira é feita por Emily Paxhia, diretora-geral da Poseidon Asset Management, mas o que é muito sério é o dinheiro que está a investir no setor. Responsável por um dos maiores fundos dedicados à canábis, este é apenas um dos grandes investidores que está a apostar num setor que pode atingir os 66,3 mil milhões de dólares nos próximos anos. Mas, para isso, tem de conseguir transitar do mercado negro.

Quando começámos não era popular que investir em canábis fosse uma boa ideia. Tivemos de lutar um pouco. Tivemos problemas com comestíveis que eram demasiado fortes. É por isso que estamos a lutar, para que todos entrem no mercado regulado e para que as pessoas saibam no que se estão a meter”, conta Paxhia, no Web Summit.

Fundado em 2013 por Emily e pelo irmão Morgan, o Poseiden foi pioneiro na criação de um fundo de investimento em canábis, que tem atualmente 105 milhões de dólares sob gestão e participações em empresas de áreas tão diversas como tecnologia agrícola, machine learning ou compliance.

Já Tahira Rehmatullah começou a investir em canábis um ano antes e foca-se no cultivo, distribuição, marcas ou tecnologia, desde que o projeto contribua para criar valor a longo prazo na cadeia de produção. Em março, a Hyper Ventures, onde Rehmatullah é diretora geral, lançou um segundo fundo com 500 milhões de dólares.

Emily Paxhia (Poseidon), Tahira Rehmatullah (T3 Ventures) e Anne Gaviola (VICE Canada) no Venture Stage do Web Summit 2019.

“É uma indústria que toca todas as outras indústrias”, afirmou Rehmatullah, apontando para setores como saúde, pagamentos ou tecnologia. “Nos Estados Unidos, tudo teve de ser criado de raiz, o que gerou uma série de oportunidades“, explicou. Paxhia reforça que “a canábis é uma das indústria que cresce mais rápido no mundo” pelo que são necessárias “infraestruturas”. “É aí que a tecnologia entra”, sublinha.

Os EUA foram pioneiros no uso medicinal, mas foi, no ano passado, a aprovação do uso recriativo de canábis tanto nos EUA como no Canadá que fez disparar o interesse pelo setor, que está atualmente avaliado em 17 mil milhões de dólares. Empresas como a Tilray e a Aurora Cannabis entraram em bolsa com grande expectativa por parte dos investidores, juntando-se a outras como a Canopy Growth ou a Cronos.

No entanto, o entusiasmo passou rapidamente e os títulos começaram a afundaram. As investidores de capital de risco acreditam que o problema foi o rápido crescimento, mas estão ainda assim confiantes no setor. “Foi tudo demasiado rápido entre a legalização e os IPO, e estamos a assistir a uma certa recessão. Estamos entre as fases 2.0 e 3.0, mas penso que ainda numa fase inicial”, defendeu Rehmatullah.

"Foi tudo demasiado rápido entre a legalização e os IPO e estamos a assistir a uma certa recessão. Estamos entre as fases 2.0 e 3.0, mas penso que ainda numa fase inicial.”

Tahira Rehmatullah

Hyper Ventures

“Há muito hype“, sublinha Paxhia. A investidora conta que, por cautela, perdeu muitos negócios, mas não tem pena de nenhum pois considera que necessário que assim seja.

Ambas lembram que é um mercado que passou da clandestinidade para a legalização, o que tem desafios e barreiras específicos, nomeadamente de governance e compliance. É nessa adaptação que acreditam que a tecnologia pode impulsionar o setor para um novo patamar de regulamentação e de certificação em laboratórios.

“A boa notícia é que quem se seguir, vai poder aprender com os EUA e o Canadá”, afirma Paxhia. As duas investidoras têm apostas na Europa onde, apesar de o mercado ser menor, há empresas a estabelecerem-se (incluindo em Portugal, onde o cultivo de canábis proliferou no último ano). “Penso que na Europa terá mais força o mercado medicinal”, espera Rehmatullah. Questionada sobre se este é, ainda assim, um bom ponto de partida, não têm dúvidas: “absolutamente”, dizem.

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