expresso.ptexpresso.pt - 10 nov 09:16

Hoje não sabemos quem vai governar. E amanhã, Espanha?

Hoje não sabemos quem vai governar. E amanhã, Espanha?

A subida da extrema-direita nas sondagens poderá convencer os votantes de esquerda a acorrer às urnas e a reforçar a vitória quase certa dos socialistas

O enigma continua a ser como se irá governar Espanha. As urnas estão abertas este domingo, 10 de novembro, das 9h às 20h (das 8h às 19h em Portugal) nas segundas eleições legislativas deste ano, as quartas dos últimos quatro anos. Tudo o resto parece estar muito claro. Está claro que os cidadãos se preparam para cumprir o seu dever cívico (os que o fizerem) num ambiente de pessimismo generalizado, cansaço e de frustração, com escassa empatia para com os dirigentes políticos e o ânimo impregnado de desespero. Os números da abstenção devem crescer devido ao fastio geral. Analistas e gurus das sondagens preveem uma repetição quase linear do panorama que resultou das eleições gerais de 28 de abril: dois blocos ideológicos distintos, ambos incapazes de somar votos e assentos que bastem para uma maioria parlamentar suficiente, estável e coesa, e também com inabilidade quase patológica para alcançarem acordos.

Os dados com que lidam os investigadores políticos não variaram muito nas últimas horas: vai voltar a ganhar o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda), com o Partido Popular (PP, centro-direita) como principal força da oposição, recuperando dos péssimos resultados de 28 de abril. O PP cresce devido à boa imagem do seu jovem líder, Pablo Casado, e ao monumental desgaste de outro grupo do mesmo espectro ideológico, o Cidadãos (C’s, centro-direita liberal), que paga caro as suas oscilações estratégicas.

A ultradireita encarnada pelo Vox dá um salto espetacular graças à transferência de votos do C’s, do PP e mesmo de sectores descontentes do PSOE, e acalenta a ideia de se converter no terceiro partido político espanhol. A aliança Unidas Podemos (UP, esquerda populista) mantém as posições de há sete meses, continuando a ser o principal apoio teórico dos socialistas para um governo progressista. Há um novo lidador nesta praça, o Mais País, dissidência do Podemos que tem à sua frente o fundador e outrora número dois desse grupo, Íñigo Errejón. O seu propósito é contribuir para o eventual pacto de esquerda que tire Espanha do marasmo.

O provável vencedor das eleições deste domingo, Pedro Sánchez, primeiro-ministro em gestão, já não põe em cima da mesa o modelo de Executivo de coligação com a UP, que fracassou no verão passado devido à recusa de Pablo Iglesias em aceitar a distribuição de pastas proposta por Sánchez. A fórmula desejada pelo PSOE é um acordo de legislatura com UP, Mais País e, provavelmente, o Partido Nacionalista Basco (PNV) e algum outro grupo regionalista (da Cantábria ou Canárias, por xemplo). O governante acordaria um pacto de investidura com o PP e o C’s que tornasse desnecessário o contributo dos partidos independentistas catalães representados no Parlamento espanhol.

SUSANA VERA

Para facilitar este plano, o líder socialista teve gestos que se interpretam como viragem ao centro, como o pedido expresso de abstenção a Pablo Casado (PP) e Albert Rivera (C’s), o endurecimento de posições a respeito do conflito catalão e a anunciada ascensão da atual ministra da Economia, Nadia Calviño, a vice-primeira-ministra, tendo em conta que esta antiga alta funcionária da UE é considerada um membro destacado do establishment.

O Cidadãos já se manifestou aberto à abstenção solicitada; Casado assegura que, se lha conceder, a jogada “não sairá grátis a Sánchez”; Iglesias lamenta amargamente o pacto a que, supostamente, já chegaram PSOE e PP; e Errejón assegura, referindo-se a Sánchez e Iglesias, que se a governabilidade “voltar a depender desses dois, iremos para terceiras eleições”. Em suma: ninguém parece ter nas suas estratégias a solução para o impasse político em que Espanha vive há quatro anos.

Descubra as diferenças

Há, contudo, três fatores diferenciais em relação a 28 de abril, que à última hora poderão influir na atitude final dos votantes perante os boletins. Em primeiro lugar, a situação de quase pré-insurreição que se vive na Catalunha, derivada da sentença do Supremo Tribunal que condenou por sedição vários políticos implicados na intentona separatista de 2017. Agitadores da ala independentista prometeram converter a jornada eleitoral num inferno de incidentes.

Em segundo lugar vem o panorama, cada vez mais evidente, de desaceleração económica, confirmado até pela UE, que baixou em 0,4% a previsão de crescimento de Espanha este ano (dos 2,3% calculados pelo Executivo para 1,9%). Por fim, a subida nos estudos de opinião da extrema-direita representada pelo Vox, alimento por um letárgico ultranacionalismo espanhol que quer neutralizar o nacionalismo catalão, agora violento.

JON NAZCA

Esta previsão pode ter o efeito colateral de instigar a mobilização do eleitorado de esquerda, o mais ressentido pelos desanimadores aspetos da presente situação. A romancista Almudena Grandes resumiu muito bem este sentimento numa recente coluna publicada no diário “El País”: “Vocês estão fartos de votar com uma faca encostada à garganta, de perdoar o imperdoável, de engolir as vossas palavras” (…) “Sei que têm toda a razão e, no entanto, vou pedir-lhes que renunciem a ela. Peço-vos que, sem esperança, sem alegria, sem ilusão, vão votar no próximo domingo”.

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