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“Só eu, os Beatles e uma câmara”: morreu o fotógrafo de algumas das capas mais emblemáticas dos Fab Four

“Só eu, os Beatles e uma câmara”: morreu o fotógrafo de algumas das capas mais emblemáticas dos Fab Four

Robert Freeman tinha 82 anos e foi responsável não só pela fotografia, mas também pelo conceito das imagens de A Hard Day’s Night, Help! ou Rubber Soul. O fotojornalista trabalhou ainda nos seus filmes e fotografou Lennon a solo.

O fotógrafo e realizador britânico Robert Freeman morreu aos 82 anos, como foi anunciado pelo site oficial dos Beatles na sexta-feira. A causa e a data exacta da morte não foram reveladas. Em nome dos Beatles, Paul McCartney garante: “Era um dos nossos fotógrafos preferidos”, e atribui-lhe a autoria das ideias e imagens “de algumas das nossas capas mais icónicas” – é o caso de A Hard Day’s Night, Help! e Rubber Soul. No total, foi responsável por cinco capas originais dos Beatles no início das suas carreiras.

Robert Freeman nasceu em 1936 e trabalhou como fotojornalista para o semanário Sunday Times, recorda a agência noticiosa Associated Press. O seu local de nascimento diverge conforme a fonte, mas oscila entre Londres e Cambridge, em cuja universidade estudou. Como fotojornalista, retratou algumas das figuras mais importantes da época, de Nikita Khrushchev a John Coltrane. Começou a trabalhar com os Fab Four em 1963, quando o manager do grupo, Brian Epstein, o contratou para fazer um retrato do grupo formado em 1957. O produtor George Martin acreditava que precisavam de uma boa foto para o novo álbum numa altura em que os Beatles estavam finalmente a tornar-se mais populares.

PÚBLICO - Foto Freeman fotografado em 2006 na exposição George Harrison, music, human and mystic em Valência Manuel Bruque/EPA

Acabaria por se tornar no autor de algumas das imagens mais reconhecíveis dos jovens músicos e do seu cartão de visita à chegada aos EUA: é sua a imagem a preto e branco da capa de With The Beatles (1963), transformado no álbum de edição americana Meet The Beatles! (1964). Foi a primeira de cinco capas dos primeiros álbuns dos Beatles, começando com o seu segundo álbum e indo até Rubber Soul, com a edição americana a contar como uma sexta capa “repetida”.

Embora tenha sido também o autor do primeiro calendário Pirelli e tenha realizado o filme The Touchables, um estudo sobre a Londres dos anos 60 em plena revolução juvenil, é então o seu trabalho com os Beatles que define a sua carreira. “Além de ser um óptimo profissional, ele era imaginativo e um verdadeiro pensador original. As pessoas pensam muitas vezes que a capa de Meet The Beatles com as nossas testas meio na sombra foi uma imagem cuidadosamente orquestrada num estúdio. Na verdade, foi feita muito rapidamente no corredor de um hotel em que estávamos [em Bournemouth], com a luz natural a entrar pelas janelas no fundo do corredor”, conta Paul McCartney num testemunho publicado no seu site.

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“Como a fotografia era urgente, tive de improvisar uma situação de estúdio no hotel”, cita o Washington Post a partir do livro The Beatles: A Private View (1990). “Eles apareceram com as suas camisolas de gola alta. Pareceu-me natural fotografá-los a preto e branco vestidos nos seus habituais tons escuros. Não houve maquilhagem, cabeleireiro ou stylist – só eu, os Beatles e uma câmara.” Estavam todos juntos, sem montagens nem retoques.

Fotografaria depois John Lennon, McCartney, Ringo Starr e George Harrison individualmente (no seu estúdio, como detalha o semanário britânico Observer) para perfazer a colagem de retratos na capa de A Hard Day’s Night (1964) e também concebeu a versão pré-psicadélica da banda na capa de Rubber Soul (1965), o sexto disco dos Beatles.

“Normalmente ele usava um projector de slides e projectava as fotografias que tinha tirado num pedaço de cartão branco que era exactamente do tamanho da capa de um álbum [LP num disco em vinil] dando-nos uma ideia rigorosa de como ficaria”, explica McCartney. Mas, daquela vez, com Rubber Soul, o cartão estava desequilibrado e a foto parecia “esticada”, diz o cantor e guitarrista. “Em vez de o endireitarmos, ficámos entusiasmados com a ideia daquela nova versão da sua fotografia”, continua. Dado o título do álbum, “encaixava perfeitamente”.

PÚBLICO - Foto Uma foto de Freeman na exposição George Harrison, music, human and mystic em Valência EPA

Antes disso, tinha tido a ideia e fotografado a capa lúdica de Help! (1965) com os quatro de Liverpool a fazer uma versão da palavra “help” em código internacional de navegação marítima. No seu livro The Beatles: A Private View (1990), Robert Freeman contava que a sinalética com as bandeiras não está exactamente conforme o código, porque “não ficava bem. Decidimos improvisar” e ajustar a linguagem de bandeiras marítimas ao que seriam as melhores posições para os braços dos ídolos pop.

Trabalhou ainda nos créditos finais dos filmes dos Beatles A Hard Day’s Night e Help!, e fotografou Lennon, de quem foi vizinho, para dois dos seus livros, resume o diário norte-americano Washington Post.

No sábado, Ringo Starr enviou “paz e amor para toda a sua família” via Twitter. De acordo com o Observer, o fotógrafo tinha sofrido um AVC de alguma gravidade em 2014 e encontrava-se sob cuidado familiar. “Guardarei sempre as boas recordações que tenho dele. Obrigada Bob”, despediu-se Paul McCartney.

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