blitz.ptblitz.pt - 10 nov 09:00

“Sou um garoto sonhador, porém metódico”. Tim Bernardes regressa a Portugal com O Terno e fala-nos de conflitos e amores de um mundo ansioso

“Sou um garoto sonhador, porém metódico”. Tim Bernardes regressa a Portugal com O Terno e fala-nos de conflitos e amores de um mundo ansioso

Apenas um mês depois de uma digressão a solo por Portugal, o paulista regressa com a sua banda, O Terno, para atuar em Lisboa e Braga. Nesta entrevista com uma das maiores revelações da música brasileira fala-se também dos 'cúmplices' portugueses Capitão Fausto e Salvador Sobral. “Já éramos velhos amigos na primeira vez que nos encontrámos!”

Líder da banda indie O Terno desde os 18 anos, Tim Bernardes destacou-se também, nos últimos anos, como artista a solo, tendo recentemente feito uma digressão de seis datas em Portugal com o aclamado álbum “Recomeçar”. A 15 e 16 deste mês, regressa ao nosso país para tocar no Capitólio, em Lisboa, e no Festival para Gente Sentada, em Braga, agora com O Terno. De São Paulo, onde vive, tirou um retrato colorido do momento que atravessa, enquanto um dos artistas mais aplaudidos da sua geração.

Onde o encontramos hoje?
Hoje estou em casa, em São Paulo! Foram muitas as viagens nos últimos meses e estou feliz [por] curtir a minha casa e o grande calor que faz aqui neste fim de ano.

Muito recentemente deu vários concertos em Portugal. Como correu essa pequena digressão? Houve algo que o surpreendesse, sobretudo nas cidades que ainda não conhecia?
Eu adorei a digressão. Para mim foi uma mini-jornada pessoal, até. (risos) Viajei muito com O Terno, este ano, então tomei até um susto ao ver-me sozinho em Portugal para fazer o show do “Recomeçar”, que eu não fazia há alguns meses. Ainda que você tente manter o mesmo roteiro para seis concertos, assim mesmo eles são todos totalmente diferentes. Todos os shows foram marcantes por algum lado. Fazer o primeiro é marcante pelo choque. Fazer uma sala grande em Lisboa pela imponência e tamanho do público. Ou sentir que você vai “esquentando” e ficando mais solto ao longo da digressão. Na Casa da Música senti-me especialmente à vontade. Talvez pela acústica e proximidade com o público. Mas todos os shows foram diferentes e prazerosos!

No concerto de Lisboa, disse que não há nada mais “anos 10” do que tocar versões de um songwriter dos anos 70. Referia-se a uma certa nostalgia (ou curiosidade pelo passado) comum aos artistas da sua geração?
Eu pessoalmente sinto isso e enxergo essa semelhança em muitos da minha geração nesse “indie dos anos 10”. No meio da saturação da padronização fonográfica radiofónica dos anos 90, fomos encontrar uma dose de frescor e liberdade criativa que está presente na música dos 60/70. Mais que uma curiosidade pelo passado, sinto que é uma curiosidade por um terreno onde criatividade e comunicação popular convivem. Talvez imaginando esse passado (e embelezando-o mentalmente) vislumbramos um presente e futuro musical interessante para ousar pôr em prática.

Este mês, volta a Portugal para dois concertos com a sua banda, O Terno. Quando toca com a banda, o seu estado de espírito é muito diferente do que quando toca a solo?
É diferente, sim! Ainda que o “<atrás/além>” seja um momento curioso da banda, onde o que eu faço a solo e o que eu faço com a banda quase se encostou. É um disco que encosta quase literalmente nos contrastes e entre eles o individual/coletivo. Mas sim, somos um trio de amigos tocando juntos e para mim o grande diferencial d' O Terno para as outras coisas está nos momentos em que improvisamos juntos; é aí que às vezes se revela uma identidade mais pura da banda que não seria reproduzível sozinho nem com outra banda. Uma soma das nossas espontaneidades.

É libertador que as atenções não recaiam todas em si, nos concertos com banda?
Sim! Por mais que eu esteja numa posição de frontman, vocalista/compositor, há um lado gostoso de não ter um protagonismo único. É muito bonito ver o Biel [baterista] e o Gui [baixista] tocando, eu vejo isso na cara do público e eu mesmo olho para eles enquanto toco.
Cada formato tem suas vantagens; sinto que ter os dois é uma sorte muito grande para mim.

Tim Bernardes no Super Bock em Stock, em 2018

Tim Bernardes no Super Bock em Stock, em 2018

Rita Carmo

Um amigo que viu o seu concerto a solo em Coimbra comentou que o que distingue Tim Bernardes a solo de O Terno é uma maior “sensibilidade feminina” nas canções a solo. O que lhe parece esta visão?
Não saberia dizer se é algo que pega em masculino/feminino. Acho que o “Recomeçar” realmente é um registo inteiro na sensibilidade. Enquanto O Terno era mais eclético. Músicas engraçadas, seguidas de músicas agitadas, músicas leves, músicas densas e algumas sensíveis. Mas o “<atrás/além>” acaba por ser o registo mais sensível d' O Terno. Nós três agimos mais minimalistas em função da delicadeza das canções e menos como um power trio.
Vejo o “Recomecar” como um mergulho interno e uma jornada num ciclo sentimental amoroso, já o “<atrás/além>” seria uma jornada num ciclo maior da vida, mais existencialista, com as reflexões internas sendo mais trazidas para uma conversa com o mundo externo, com a geração, com a existência humana mesmo.

No Brasil cantou com os Capitão Fausto, e aqui em Lisboa fez uma versão da sua canção, 'Recomeçar', com eles. Quais as maiores afinidades que sente com os Capitão Fausto?
Uma parte dessa afinidade tem a ver com essa nossa formação de que falei antes: de buscar ser arte e ser produto, ao mesmo tempo que a nossa criatividade fala mais alto que os padrões da indústria. E isso naturalmente tem muito a ver com coisas dos anos 60 às quais fomos beber. Fora isso, os temas das letras e uma vontade de cantar sobre a nossa geração, a nossa década, os nossos conflitos e os amores de um mundo ansioso pós-internet. E mesmo de jeito, estilo e humor temos muito a ver, já éramos velhos amigos na primeira vez que encontramos!

Fez também uma versão de 'Anda Estragar-me os Planos', canção de Francisca Cortesão e Afonso Cabral, cantada em disco pelo Salvador Sobral. O que mais o atraiu nessa canção? A letra, a melodia?
Primeiro a melodia/harmonia, acho. Achei-a bonita, ela sobressaltou-se no disco do Salvador e eu sugeri que a cantássemos. O arranjo dele tem um astral muito bom! Depois ainda me fui identificando com flashes da letra, eu que sou um garoto sonhador porém metódico e planeador, fatalmente ia acabar por me rever em algo dessa letra! (risos)

Na entrevista a Henrique Amaro, na Antena 3, disse que o “Recomeçar” e o “<atrás/além>” perfazem um pequeno círculo, uma série. O que virá a seguir, algo de muito diferente?
Eu sinto até que o “Melhor do Que Parece” [álbum de 2016 d' O Terno] entra nesse ciclo também. Embora eu e O Terno tenhamos carreiras separadas, sinto que a minha carreira de compositor é contínua e vai atravessando esses discos. O que eu faço é muito a minha vida e eu ponho muito da minha vida no que eu faço. Sendo assim, eu sinto que os discos são uma construção sucessiva, uma trajetória só. Mas não sei dizer, porque tanto o “Recomeçar” quanto o “<atrás/além>” são discos conceptuais em si, com muita densidade e uma busca de unidade para ser um produto artístico, como discos inteiros e não só um conjunto de canções. Por isso eu sentia vontade de fazer discos menos conceptuais e densos, para não ficar viciado num formato. Sinto que fazendo coisas mais leves e descompromissadas eu poderia dizer coisas que não disse ainda.
Tenho muitos caminhos em mim que não estão no estilo que desenvolvi nesses discos. Ainda quero poder fazer coisas bem diferentes entre si!

Nas letras de “<atrás/além>” há muitas declarações de intenções: “quero ser velho”, “não vou mais aturar baixo astral na minha vida”, “quero trabalhar mas quero me divertir”… é um disco de nova fase, de novos hábitos?
Ou pelo menos de busca por eles. Um disco que se aproveita de um respiro para recuperar o passado e avaliar o que fica e o que vai. O que podemos mudar em nós, para onde ousamos sonhar, crescer e mudar. Ainda que não consigamos alcançar todos os anseios que esse disco é, o anseio direciona.

No Brasil, abriu o enorme concerto dos Los Hermanos no Estádio do Maracanã. Fez um concerto diferente, por ser um sítio tão grande?
Na verdade não! Pensei justamente que o barato seria o desafio de levar a intimidade e solidão desse meu quarto para um estádio gigante.
Como se as pessoas estivessem vendo uma peça, ou uma cena, ou um filme. Um show-situação. (risos)


Sente que, depois desse concerto, ganhou alguns fãs novos?
Sinto que sim. Os Los Hermanos têm um trabalho maravilhoso e é realmente emocionante ver um estádio lotado cantando todas as palavras de todas as músicas quando estamos falando de canções tão diferentes, bonitas e profundas. É um perfil de público muito legal que eles literalmente criaram. E acho que ele dialoga com meu trabalho, assim muita gente que não [me] conhecia eu sinto que se ligou, o que é incrível!

No Instagram, o Rodrigo Amarante fez-lhe muitos elogios. Sente alguma identificação com ele? Há alguma afinidade entre “Recomeçar” e “Cavalo”, na insularidade do som, nas canções tão pessoais…
E
m muitos sentidos sinto, sim! Eu sempre fui muito fã. Acho-o um talento incrível, na música, na escrita, no jeito de tocar e cantar, de se colocar, na autenticidade, estilo, estética. Sinto ainda que, na época que fui me formando como compositor e artista, o que eu mais achava legal [nos Los Hermanos] era o facto de terem construido um estilo próprio. Paralelamente, no Brasil vi muitas bandas reproduzindo o estilo deles, e disso tanto O Terno quanto eu sempre fugimos muito, de soar parecido. Porque o que é bonito é desenvolver sua estética, seus caminhos; o lance da minha admiração passa muito por aí. O “Cavalo” e o “Recomeçar”, por exemplo, são discos com muito clima, introspeção, canção. Que se contrapõem à expansividade de um trabalho anterior de banda. Mas o mais legal é ver como o “Cavalo” soa tanto ao Rodrigo e o “Recomeçar” soa tanto ao Tim.


Como nasceu a colaboração d’ O Terno com o japonês Shintaro Sakamoto e Devendra Banhart, em 'Volta e Meia'? Estiveram todos juntos em estúdio ou foi à distância?
Estivemos juntos no line up do festival Week-End em Colónia, na Alemanha. Lá surgiu a afinidade e o contacto! De volta ao Brasil, fazendo o disco, tivemos a ideia do convite.
Aí foi tudo à distância: eles toparam, o Shintaro gravou do Japão, Devendra dos Estados Unidos e compilámos tudo no estúdio aqui em São Paulo.

Disseram-me que, no concerto em Aveiro, havia muitos espectadores bem jovens na plateia. Fica surpreendido ao ver que as suas canções atraem, também, fãs mais novinhos?
Eu fico muito contente, vejo isso no Brasil também. É um público que é muito entregue, intenso, fã mesmo. Começamos O Terno com 18 anos e muito público que conquistamos também era novo e acompanhou as nossas questões e assuntos. Acho que o público jovem pode identificar-se com muitas das composições e com toda a estética. Acabam por se ligar, mesmo quando abordamos questões mais profundas ou “adultas”, e isso é especialmente legal!

Anda em digressão há muito tempo, já, a solo e com a banda. Nunca se sente cansado?
Tenho-me sentido muito cansado. A música é algo que eu amo muito profundamente, então isso dá-me energia. Mas sinto que emendei muitas coisas umas na outra e um momento para descansar essa canseira mental vai ser muito bom, em breve. Após os shows em Portugal, vamos finalmente tirar umas férias um pouco mais longas; acho que pode ser essencial para desacelerar a mente. Esta é uma profissão onde viajamos muito, vemos muita gente e temos muitas experiências em periodos curtos de tempo. Ainda mais trabalhando também com as redes sociais, que é algo que tem outra velocidade. Sinto essa vontade enorme de me lançar para um descanso para poder decantar essas experiências todas desses últimos anos.

Já tem planos para o próximo ano?
Bom, além de descansar, tenho vontade de fazer o “<atrás/além>” nos sitios onde ele ainda não chegou, gostaria de explorá-lo com coisas como clipes e etc. Fora isso, eu tenho um repertório solo a formar-se que, sem muita pressa, estou a gostar de ir lapidando, para lançar no futuro.

Para terminar, como se lembraram de gravar um sambinha chamado 'Bielzinho', em referência ao vosso baterista, Gabriel “Biel” Basile?
Eu fiz essa música em casa, bem de brincadeira. Mas brincadeira é coisa séria e gravamos para valer. (risos)
É um barato. Ver as pessoas cantando por aí fora. Eu e Gui ficamos a ver a reação dele. É uma grande figura.

O Terno, a banda de Tim Bernardes, toca a 15 de novembro no Capitólio, em Lisboa, e a 16 de novembro no Festival para Gente Sentada, em Braga.

1
1