expresso.ptexpresso.pt - 10 nov 13:04

“Mudei a minha casa e a minha vida para ter o António”. O testemunho da professora que primeiro acolheu e depois adotou

“Mudei a minha casa e a minha vida para ter o António”. O testemunho da professora que primeiro acolheu e depois adotou

No início, o António não falava. Só o necessário. Mas com Cláudia começou a brincar mais, a rir mais, a falar mais. Cláudia era "amiga" dele através de um programa de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. E só mais tarde o adotou

Chamo-me Cláudia, sou professora primária e em 2008 decidi inscrever-me no programa Amiga da Santa Casa da Misericórdia, para proporcionar experiências novas e positivas, num ambiente familiar, a crianças institucionalizadas. Quis fazê-lo porque tinha dois casos destes que me chamaram a atenção na escola onde trabalhava.

A primeira coisa que me disseram na formação é que não podia adotar nenhuma daquelas crianças. Confesso que ouvi-lo custou. Custa sempre, mesmo sabendo à partida ao que se vai. O António era uma dessas crianças. Foi retirado à familia em agosto de 2007 e esteve num CAOT, centro de acolhimento temporário para crianças vítimas de negligência grave, antes de ir para o lar onde o conheci em fevereiro do ano seguinte. A família biológica continuava a poder visitá-lo e tinha seis meses para tentar reestruturar-se. Caso não o conseguisse, o António, então com sete anos, seria dado para adoção.

Ainda me lembro do primeiro dia em que fui buscar o António ao lar. Os cabelos loiros, o olhar vivo, o ar envergonhado. Nesse dia só nos era permitido que conhecesse a minha casa e o sítio onde ia ficar a dormir no dia seguinte. Depois jantávamos e ele tinha de voltar para o lar. A ideia era prepará-lo para o fim de semana. O António não falava. Só o necessário. Não sei se alguma vez tinha andado de carro, mas no caminho até casa não queria encostar-se no banco de trás, estava fascinado com as luzes dos carros. Do nosso e dos lá de fora. Os olhos muito abertos, o espanto. E aquele assobio. O António gostava de assobiar quando andava de carro. Recordo a tristeza na viagem de volta ao lar nessa mesma noite. Não sei como foram as horas de sono dele até ao nosso reencontro no dia seguinte de manhã. As minhas foram de ansiedade e alegria ao mesmo tempo.

Nos nossos primeiros encontros a minha grande preocupação foi proporcionar-lhe experiências diferentes e boas, a dois ou em família. O mais difícil, sabendo que tinha um passado de violência, era evitar levantar a voz mas ao mesmo tempo fazer-lhe perceber que há regras. Perguntava-me muitas vezes como iria reagir à sua agressividade, muitas vezes autoinfligida, ou o que responderia se me fizesse perguntas ou comentários sobre a sua familia biológica. E pensava muitas vezes, vamos ter dois dias espetaculares, aconteça o que acontecer eu já ganhei, ele já ganhou, se não ficarmos juntos é o destino, estas memórias já ninguém nos tira.

Aos poucos deixei de ir buscá-lo ao sábado e devolvê-lo ao domingo e passei a ir buscá-lo à sexta para entregar na segunda-feira seguinte. E depois à quinta, para levar na terça-feira. No último dia juntos, o caminho para a escola já era feito de cabeça baixa, sem falar, e o António só perguntava o que íamos fazer no fim de semana seguinte.

Até que chegou o dia. O dia em que me disseram que as visitas do António à família biológica estavam a fazer-lhe mal, que ele sentia-se muito mais feliz e seguro comigo. Naqueles poucos meses o António tinha desabrochado. Brincava mais, ria mais. Só nunca se tornou um tagarela. Eram boas notícias, até certo ponto. O António ia ser dado para adoção. Estávamos em julho de 2008. Na minha cabeça ressoavam as palavras do primeiro dia de formação. "Não podem adoptar estas crianças". Claro que tentei criar mecanismos de defesa. Desde logo, comprei um sofá-cama para o monta e desmonta em vez de uma cama, para não ficar com um quarto vazio. Mas ao fim de uns meses dei-me conta que, no fundo, ele tinha já uma divisão da casa que era sua, embora ainda disfarçada de escritório. Eu tinha mudado a minha casa e a minha vida para ter o António.

Em setembro desse mesmo ano decidi meter os papéis para adoção. O António tinha sete anos quando o conheci, fez os oito comigo enquanto Amiga e os nove já como mãe. Atualmente está a terminar o 12º ano num curso profissional de eletricidade, automação e computadores numa escola pública. É escoteiro e trabalha aos fins de semana numa mercearia perto de casa. Está quase a terminar a carta de condução, passou no exame de código sem nenhuma resposta errada.

Em dezembro o António faz 19 anos e é um irmão carinhoso e atento.

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