expresso.ptPedro Mexia - 10 nov 08:48

O mecanismo cómico

O mecanismo cómico

O cómico, escreve Bergson, não se dirige às emoções, mas à inteligência pura

Volto à comédia, porque assim que escrevi a crónica sobre Eagleton e o humor, encontrei uma nova tradução de “O Riso” (1900), o famoso “ensaio sobre a significação do cómico” de Henri Bergson. A terminologia, como se vê, tende para uma confusa sinonímia (humor, cómico, comédia, riso), mesmo em espíritos sofisticados. E não há espírito mais sofisticado do que Bergson, que concebeu noções ousadas de intuição, consciência, duração, e influenciou decisivamente Proust, tendo vencido aliás o Nobel da Literatura, que Proust nunca ganhou. E se habitualmente se diz que “O Riso” não tem graça nenhuma, trata-se de um deslizamento de sentido em si mesmo cómico, como se um manual de medicina tivesse virtudes terapêuticas.

Numa escassa centena de páginas bem escritas mas densas, Bergson estudou a produção do cómico e a essência do cómico. Uma teoria geral da comédia parece impraticável, tantas são as tonalidades e estratégias do discurso cómico; e, no entanto, a comédia é uma técnica, obedece a regras que a definem e circunscrevem. A regra de que só é cómico o que é humano (animais e objectos apenas provocam o riso quando lembram características ou necessidades humanas); a regra da distância emocional (a empatia é um entrave ao riso); a regra do significado social (o cómico tem um contexto colectivo, temporal, linguístico e cultural a que nem sempre sobrevive).

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