expresso.ptexpresso.pt - 9 nov 03:44

Luís Montenegro perde batalha de Bragança

Luís Montenegro perde batalha de Bragança

Os homens do antigo líder parlamentar não conseguiram derrotar a direção e estender a todos os militantes a possibilidade de votarem nas próximas eleições. Apoiantes de Pinto Luz voltaram a tentar reforçar a ideia de terceira via e não apoiaram Montenegro. Rio resumiu tudo a questões de “mercearia” e assumiu como prioridade ganhar câmaras ao PS. Quantas? Logo se vê.

A estratégia já era comentada há muito entre os leais a Luís Montenegro e acabou por se concretizar esta sexta-feira: a candidatura do antigo líder parlamentar do PSD tentou fazer aprovar no Conselho Nacional do partido uma alteração aos regulamentos para permitir que todos os militantes, com ou sem quotas em dia, pudessem votar nas próximas eleições internas. Acabaram, sem grande surpresa, derrotados: a mesa não aceitou sequer sujeitar a votos o documento.

Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu, apoiante de Luís Montenegro e primeiro subscritor da proposta, acabou a noite a queixar-se aos jornalistas de que prevaleceu a vontade de uma maioria que prefere o partido “dentro da trincheira” e a parafrasear Winston Churchill: apesar de minoritários, o tempo dará razão aos que defendem esta solução. “Quando os partidos se fecham, a prazo, podem morrer. Esta forma de ver as coisas muito burocrática, muito virada para dentro, só prejudica o partido. Saio de consciência tranquila”, disse.

De resto, perante o mais do que anunciado desfecho - além da evidente minoria no Conselho Nacional, só uma leitura complexa dos atuais estatutos permitiria enquadrar uma alteração desta natureza -, o discurso de Almeida Henriques estava mais do que ensaiado ainda antes da reunião: a estratégia serviu também para tentar fazer vingar a tese de que Rui Rio está a fazer tudo para vencer as eleições na secretaria. Servirá, muito provavelmente, para mobilizar os tifosi montenegristas. Resta saber se será suficiente para condicionar a opinião pública e os militantes indecisos a favor de Luís Montenegro.

RUI DUARTE SIVLA

Autárquicas são a chave para Rio

Rui Rio, que chegou a Bragança a dizer que ligava pouco a questões de “mercearia”, acabou a noite a comentar questões de mercearia. Em declarações aos jornalistas, já depois de terminado o Conselho Nacional, o líder do PSD defendeu a posição assumida pela mesa e insistiu que a proposta apresentada por Almeida Henriques, tal como foi desenhada, violava os estatutos do partido. E deu o passo em frente, sugerindo, mais uma vez, que o verdadeiro objetivo dos apoiantes de Luís Montenegro era agilizar o pagamento maciço de quotas para ganhar tração eleitoral.

“Estou farto de dizer que sou contra [essas] vigarices de ter pessoas a votar as quotas de outros. Pagar 100, 200, 300 mil euros [em quotas], isto é bonito? Isto descredibiliza o partido. Estas regras visam acabar com isso. Não vamos mascarar isso, nem vamos arranjar um esquema de ‘parece que’. Isso não faz o meu feitio”, rematou Rio.

Ainda durante a reunião com os conselheiros do partido, que decorreu, como é habitual, à porta fechada, Rio limitou-se a repetir, no essencial, os argumentos já usados na noite eleitoral e depois no lançamento da recandidatura para justificar o resultado das legislativas: apesar de assumir a derrota, o líder do PSD destacou o efeito das sondagens alegadamente manipuladas, a turbulência interna, o ciclo difícil em que se encontrava o PSD no pós-troika, a circunstância histórica de um primeiro-ministro em funções, à exceção de Santana Lopes, nunca ter perdido legislativas e as boas graças do Governo depois de quatro anos a gozar de uma conjuntura externa extraordinária. Se para os apoiantes de Rio a intervenção foi “coerente” e “correta”, para os críticos foi o oposto: “Foi um discurso vazio e altamente justificativo”, comenta com o Expresso um adversário do líder.

Rui Rio aproveitou este Conselho Nacional para se focar, mais uma vez, na necessidade de inverter a tendência negativa das últimas autárquicas — o PSD perde câmaras consecutivamente desde 2005 — e assumir como absoluta prioridade conseguir um resultado melhor do que em 2017 — não será difícil, uma vez que há dois anos o partido teve o pior resultado autárquico de sempre, ao ponto de precipitar a queda de Pedro Passos Coelho. Quão melhor? Rio não se comprometeu, mesmo depois da insistência dos jornalistas já depois do final da reunião.

Perante a enunciação desse desejo, não faltaram, naturalmente críticas. Vindas, sobretudo, de Pedro Alves, diretor de campanha de Montenegro e a voz do antigo líder parlamentar neste Conselho Nacional. Para quem, como Rio, “está tão preocupado com as autárquicas”, acusou o líder da distrital do PSD/Viseu, o presidente do partido “nada fez” ou está a fazer para lançar pontes com os autarcas eleitos ou para reforçar a implantação local do partido. Ficaria sem resposta.

RUI DUARTE SILVA

Pinto Luz põe-se à margem

Os homens de Miguel Pinto Luz relativizaram a questão das quotas e evitaram entrar na contenda - é uma imagem e um discurso que não interessam à candidatura do ‘vice’ de Cascais, que se quer afirmar como terceira via.

À chegada ao hotel onde decorreu o Conselho Nacional, as declarações de Telmo Faria, antigo autarca de Óbidos e apoiante de Pinto Luz, foram um resumo da estratégia do candiato: “O PSD precisa de fazer um bom combate, mas precisa de dar ao país a imagem de novos rostos, novas ideias e procurar o seu posicionamento face aos problemas do país, espero que este conselho nacional seja o início desse grande debate com elegância, com motivação”. Todo um programa.

As tropas de Pinto Luz ainda foram para casa com uma semi-vitória: conseguiram que a direção do partido se comprometesse a enviar para todos os militantes ativos (com quotas pagas nos últimos dois anos) novas cartas com informação sobre como obter a referência, gerada aleatoriamente e enviada depois por SMS, que permite regularizar a situação e assim estar apto a votar.

Num Conselho Nacional altamente favorável a Rui Rio - os principais críticos ficaram à porta por já não terem assento neste órgão e os candidatos Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz não gozavam desse direito - esta noite acabou por ser um passeio no parque para o presidente do partido - atendendo ao histórico da liderança de Rio, claro. Em contrapartida, começa agora a campanha eleitoral: as tréguas (aparentes, pelo menos) em nome do respeito pelas regras e calendários vigentes acabaram. Agora vai ser a doer e a luta travar-se-á em campo aberto.

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