www.dinheirovivo.ptÓscar Afonso - 9 nov 08:25

O bolo do Costa não chega

O bolo do Costa não chega

Seria bom que os senhores governantes incentivassem o investimento em capital físico produtivo, esquecendo as “obras de fachada”

As manchetes económicas recentes concentraram-se na dívida, nos péssimos serviços públicos, no fraco nível de investimento, no emprego com baixos salários, na normalidade do desperdício na administração pública (que até a dimensão do governo espelha!), na banalidade dos casos de suposta corrupção que, mesmo sem recursos para serem detetados, emergem como cogumelos, e na cultura do amiguismo e do jeitinho sobre o mérito. Tudo isso porque, como o “bolo” (entenda-se o PIB) tem sido praticamente o mesmo nos últimos 25 anos e a ganância não tem limite, não há outra maneira de satisfazer todas as exigências que, ainda por cima, são crescentes. Goste-se ou não de ouvir/ler, este é o resultado das longas governações socialistas que, em 20 dos últimos 25 anos, os portugueses escolheram.

Eles, os governantes, não entendem o poder do crescimento sustentável e não percebem as suas fontes. O crescimento sustentável não é um fenómeno de curto prazo e não pode ser avaliado pelo desempenho circunstancial da procura. O crescimento sustentável é um fenómeno de longo prazo, dependente da qualidade das instituições e da quantidade e qualidade dos fatores produtivos. Seria bom que entendessem que, por exemplo, aumentar a taxa média de crescimento do país num ponto percentual nos próximos 25 anos resultaria num “bolo” (ou seja, num PIB) quase 30% superior ao atual e que facilitaria ter “contas certas”, mas com mais e melhores empregos, mais e melhores serviços públicos, bem menor relevância da dívida e bem menos corrupção. Não percebem que com um aumento de 2% ao ano o “bolo” seria 65% maior em 25 anos e que com um aumento de 2,77% ao ano o “bolo” duplicaria em 25 anos. Portanto, senhoras e senhores governantes deixem-se de “conversa” e não desviem o olhar do que realmente interessa: o interesse coletivo sobre o individual ou familiar e, portanto, o crescimento económico e as fontes que o sustentam sobre o ciclo político (a legislatura).

Face ao que vemos quais são os perigos que assustam?

O perigo de que estraguem ainda mais as já frágeis instituições portuguesas. Seria bom que os senhores governantes pensassem no estado a que deixaram chegar as instituições e analisassem com preocupação as motivações para o alheamento de metade da população, que se abstém de participar politicamente.

Seria bom que, de uma vez por todas, incentivassem o investimento em capital físico produtivo, esquecendo as “obras de fachada” que só trazem despesa e que, na sequência, promovessem o efetivo aumento da taxa de natalidade.

Seria desejável que promovessem também e com intensidade a acumulação de capital humano e o progresso técnico. A proteção de patentes não pode ser um processo burocrático e incerto. Uma sociedade estável, com direitos de propriedade seguros e mobilidade social é essencial para gerar incentivos à inovação e permitir que aqueles com capacidade e ambição alcancem o seu pleno potencial. Incentivem os melhores e mais brilhantes a entrar nos setores inovadores, pois atualmente esses setores apenas garantem emprego incerto e mal pago, pelo que não captam os melhores. “Metam na cabeça” que alocar os melhores talentos a outras atividades prejudica a capacidade inovadora de longo prazo da economia. Incentivem trabalhadores estrangeiros qualificados a trabalhar e a estabelecer-se em Portugal. A inovação depende das habilidades e engenhosidade dos melhores e mais brilhantes do mundo.

Porque o mercado não gera as inovações suficientes, justifica-se a existência de uma verdadeira política de subsídios à I&D e ao ensino superior. De que interessa o show off em torno do Web Summit se for um acontecimento meramente turístico e circunstancial, como parece ser? Parem de politizar o financiamento da ciência e de prejudicar o mérito. A longo prazo, os danos resultantes do desinvestimento no ensino superior e na sua politização, bem como o amiguismo serão terríveis. Continuará a levar os melhores e mais talentosos para outros países e contribuirá para definitivamente ficarmos na cauda da Europa, para onde sustentadamente temos infelizmente convergido!

Óscar Afonso, presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude e professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

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