www.dinheirovivo.ptCarlos Brito - 9 nov 08:27

A cigarra e a formiga: qual delas era portuguesa?

A cigarra e a formiga: qual delas era portuguesa?

Diria que somos mais como formigas com elevado défice de literacia financeira

A taxa de poupança das famílias portuguesas é cerca de 6%, de acordo com os valores provisórios apresentados pela Pordata para 2018 com base em dados do INE e do Banco de Portugal. Essa percentagem é bem inferior à registada no auge da crise que o nosso país enfrentou na primeira metade desta década. E igualmente bem inferior à verificada em países como a França, Alemanha ou Holanda com percentagens que se situam entre os 13% e os 19%. Mas, e também há que salientá-lo, é superior à de Espanha ou mesmo do Reino Unido.

Dir-se-á que os portugueses ganham pouco e que, consequentemente, têm poucas possibilidades de aforro. Mas, se assim fosse, como explicar que em 2012, com a troika em Portugal e todas as medidas de austeridade que lhe estavam associadas, a taxa de poupança tivesse sido cerca de 10%? E como explicar que ainda antes do 25 de Abril, essa taxa tivesse atingido os 28% em 1972? Será que os portugueses viviam melhor nessa altura? É evidente que não!

Também se poderá argumentar que as atuais taxas de juro, situando-se em mínimos históricos, não incentivam a poupança, o que leva as famílias a preferirem gastar em automóveis, eletrodomésticos ou mesmo em férias do que colocar de lado uma maior fatia do seu rendimento disponível.

A questão que verdadeiramente se levanta é para que serve a poupança. Antes de ser um investimento, o aforro é uma forma de fazer face a situações imprevistas que possam vir a ocorrer no futuro. Se for possível aplicar essas verbas com uma rentabilidade interessante, tanto melhor. Mas, e volto a realçar, o seu propósito último não é a rentabilidade mas a redução do risco.

A história da Cigarra e da Formiga, que todos bem conhecemos mas nem sempre praticamos, deveria estar mais presente quando passeamos pelos centros comerciais ou navegamos em sites de e-commerce na internet. Recontada por La Fontaine, essa fábula é atribuída a Esopo, um escritor grego que viveu há mais de 2500 anos.

Nessa altura ninguém falava em formação em finanças domésticas mas é exatamente isso que nos falta. Porque não tenho dúvidas de que é errado – e principalmente injusto – dizer que somos como a cigarra pois o trabalhador português é em geral muito bom, independentemente do nível hierárquico em que se situa. Por isso, diria que somos mais como formigas com elevado défice de literacia financeira.

Não haverá quem, com responsabilidades, explique isto de forma clara aos portugueses? Ou não haverá interesse em fazê-lo? Uma coisa é certa: vamos ser apanhados desprevenidos e sem almofada financeira pela próxima crise – que, como é óbvio, vai surgir bem antes do final desta legislatura.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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