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William Tyler atua esta semana em Portugal. “A coisa menos na moda deve ser um homem branco com guitarra, que é o que eu sou”

William Tyler atua esta semana em Portugal. “A coisa menos na moda deve ser um homem branco com guitarra, que é o que eu sou”

A partir de sexta-feira, o norte-americano toca em Espinho, Portalegre e Lisboa. Em entrevista, fala sobre as suas canções sem palavras, tão “mágicas e místicas” como o estado que as inspirou

Nascido em Nashville no dia de Natal de 1979, William Tyler levou uma vida a sonhar com a Costa Oeste dos Estados Unidos. Sem nunca lá ter estado, a não ser de passagem, deixou que a mitologia da região influenciasse a sua música. “Há uns anos fiz um disco chamado ‘Impossible Truth’”, conta-nos ao telefone de Nova Iorque, onde, ao contrário do que acontece em Los Angeles, onde agora vive, a temperatura varia ao longo do ano. “Nesse disco eu imaginava coisas sobre a Costa Oeste e a Califórnia, sem nunca lá ter vivido. Em muitos aspetos, a Califórnia é o sítio mais mágico e surreal da América: em termos de paisagem e geografia, de diferença entre cidades… mas também é muito intimidante. A natureza é muito provocadora e a possibilidade de haver um terramoto descomunal está sempre presente”, resume. Há dois anos que William Tyler tem morada em Los Angeles, mas ainda se sente como uma visita. “É uma cidade muito grande, sobretudo se comparada com o sítio onde cresci. E é bizarro, porque tem tanta gente de todo o país e de todo o mundo que nem parece um sítio em concreto. O tempo não muda, está quase sempre a mesma temperatura… Às vezes parece que estamos num planeta diferente. Estou certo que isso influenciou a minha música, mas não sei dizer como. Apesar de conhecer aqui muita gente, ainda não me sinto em casa”, confessa. “O Tennessee, o sul do país, será sempre a minha casa.”

No seu quarto álbum, “Goes West”, um título “evocativo” que pode ser lido como uma frase (“William Tyler Goes West”) ou de forma mais aberta, o guitarrista abre a porta a vários convidados, com destaque para os companheiros de instrumento, Meg Duffy e o veterano Bill Frisell (“Ele teve a simpatia de aceitar, o que significa muito para mim, pois é uma grande influência na minha abordagem artística.”) Ao mesmo tempo, continua a respirar-se entre canções, como se a quantidade de músicos nunca atafulhasse o espaço sonoro. “Isso terá a ver com a ausência de letras, ou de voz. Gosto de pensar na guitarra como o centro, mas dou sempre muita liberdade aos músicos para procurarem a sua voz”, explica. “E desta vez quis ter arranjos mais complexos, em termos de instrumentação, sem parecer demasiado cheio.” Ainda que seja um dos grandes guitarristas da sua geração, William Tyler considera-se “um compositor que toca guitarra e não um guitarrista que compõe.” Filho de músicos, apenas aos “15 ou 16” começou a tocar, aprofundando a relação com o instrumento pouco depois. “Interessei-me pela guitarra como meio de expressão, e não como acompanhamento, nos meus 20, quando comecei a ouvir John Fahey ou Sandy Bull, um músico que também tocou world music. Penso em mim como músico folk, porque não tenho treino clássico, mas interesso-me por música mais formal, como música clássica. A forma como estruturo as coisas tem tanto a ver com a escrita como com tocar.”

Sem palavras e sem voz, a obra de William Tyler consegue ser espetacularmente visual (foi por ter ambições de compor para cinema que se mudou para Los Angeles, confessa no final da entrevista). “Talvez seja o meu preconceito a falar”, ressalva, “mas acho mais poderoso contar uma história sem usar palavras. Deve ser por isso que me sinto mais atraído pela música clássica e pelo jazz do que por singer songwriters. Se pensares nas canções como música com palavras, são poemas com melodia e isso tem muita força – por alguma razão são a forma mais popular de música. Mas eu sinto que é uma proeza maior se conseguir contar uma história sem cantar nada.”

Da capa retro desenhada pelo amigo Robert Beatty (“Só lhe mandei a música e disse que andava a ouvir mais música new age e progressiva. Ele disse que estava a pensar na capa do “Pink Moon”, do Nick Drake, e deve ter sido essa referência que acabou por seguir”) à sonoridade acústica, “William Tyler Goes West” é um dos discos mais deslumbrantes dos últimos meses – mas não necessariamente um dos mais contemporâneos. “Por várias razões, a guitarra já não é tão importante como dantes. Hoje, os computadores são mais importantes em todas as áreas da vida, o que não é necessariamente bom, mas também te dão uma liberdade de expressão diferente. Dantes todas as casas tinham um piano ou um cravo; a mudança deu-se por causa do rock and roll, mas já estava a acontecer antes disso. Foi aí que a guitarra se transformou no instrumento principal da música ocidental. Hoje em dia, na América, a coisa menos na moda deve ser um homem branco com guitarra, que é o que eu sou”, ri-se. “É um reflexo do passado, da geração dos nossos pais. Acontece que é o meu instrumento.” E, como tal, continuará a ser a sua fonte de inspiração, tal como a imensidão de um país que continua a apaixoná-lo. “Há tanta coisa para nos perdermos, aqui!”


William Tyler toca no Auditório de Espinho a 8 de novembro; em Portalegre, no Pequeno Auditório do Centro de Artes do Espetáculo, a 9 do mesmo mês, e em Lisboa, no Teatro Bocage, a 10

Entrevista originalmente publicada na revista do Expresso a 2 de março de 2019

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