www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 8 nov 09:00

As zonas de conforto

As zonas de conforto

Ela dizia-me que as praias eram lindas mas o caminho até lá tortuoso - Opinião , Sábado.
O jogo da vida, ela estava a dominar: enquanto chovia em Lisboa, na praia onde ela jantava o sol revirava os olhos e punha-se, extenuado de tanta boa vida. Sete horas à minha frente, ela bebia uma margarita.

Sete horas atrás dela, eu tirava uma espécie de café numa espécie de máquina. Enquanto ela estava no Pacífico, eu tentava pacificar-me com a ideia de que tinha sete horas para ficar tão confortável como ela com o meu dia.

Tocada pela luz da razoabilidade, ela não me deitava a língua de fora, optava por me falar do copo meio vazio: as praias eram lindas, mas o caminho até lá tortuoso; os bungalows eram maravilhosos, mas tinham de ser partilhados com osgas e mosquitos de proporções godzilianas; os trilhos davam gosto mas também davam nódoas negras. Ela falava e eu suspirava.

No meio do relato – todo no WhatsApp porque, para isso, não há melhor –, ela confessava: apesar de a viagem não ter sido feita com a espiritualidade como bagagem de mão, corria-lhe no espírito uma sensação de descoberta. "Descobri que sou muito forte e independente em muita coisa na minha vida, mas sou uma medricas com animais, transportes e snorkeling." Ri-me – primeiro porque a conheço e de facto nunca a vi fazer snorkeling, depois porque ela não tem medo de se conhecer nem debaixo de água.

As descobertas não ficavam por ali. "Decidi que quero educar os meus filhos no meio da natureza para eles não serem assim", escreveu.

Dei-lhe tempo – o tempo que o WhatsApp permite – para reler o que tinha escrito e certificar-se de que ia mesmo mudar-se para o meio da natureza quando fosse mãe. Vi-a pegar no tempo que eu lhe tinha dado para elaborar: o namorado não era assim, não tinha medo de nada, queria fazer tudo, tinha atirado com "metemo-los nos escuteiros" e ela tinha-lhe refreado os ânimos, "porque há limites".

Quando nos despedíamos e comentávamos a diferença horária, ela disse: "Estou elétrica. Por causa do jet lag não durmo há três dias. Mas bebo uma margarita e, como já deves ter percebido, fico bêbada." Rimo-nos e eu pensei: já devia ter era percebido que a minha zona de conforto é onde eu tiver uma amiga assim. capa Assine já a Sábado digital por 1 euro para ler este artigo no ePaper ou encontre-o nas bancas a 06 de novembro de 2019.
Se já é assinante, faça login e leia o artigo diretamente no ePaper da SÁBADO.
1
1