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Três décadas depois, há novos "muros" na Alemanha

Três décadas depois, há novos "muros" na Alemanha

Com a queda do "mauer" a 9 de novembro de 1989, caiu a "cortina de ferro" que separava dois grandes blocos: o ocidental, capitalista, e o de leste, comunista. Agora, erguem-se muros na Alemanha, não físicos e não tanto entre Leste e Oeste, mas entre classes e entre cidades e zonas rurais. E os populistas da extrema-direita estão a aproveitar-se disso.

Na escola de Peter Keup, não se falava de um muro em Berlim. A expressão usada era "barreira de proteção anti-fascista".

Peter nasceu e cresceu na antiga Alemanha de Leste, a RDA, perto da cidade de Dresden. E desde cedo lhe ensinaram que a "barreira" era uma forma de defender os cidadãos do país "da classe inimiga e do capitalismo, do imperialismo e dos promotores da guerra". Aliás, "não havia nazis" no Leste. A seguir à II Guerra Mundial, "estavam todos no Ocidente".

Mas a explicação não convencia Peter. Ele tinha familiares do outro lado, que estava impedido de visitar. Será que também eram inimigos? Era uma contradição. "Foram as primeiras dúvidas", conta à Renascença, 30 anos após a queda do "mauer".

Com a família dividida, a mãe de Peter quis sair do país e resolveu fazer um pedido formal ao Estado. "Era, pelo menos, uma medida legal, que não implicava perder a vida." O pai consentiu. Mas a RDA rejeitou o requerimento. E, quando isso se soube na escola de Peter, rotularam a família de "traidores".

Peter Keup tinha 16 anos. Na escola, deram-lhe duas alternativas: ou acabava o secundário – mas distanciava-se do requerimento para sair da RDA e ia viver com outra família – ou abandonava os estudos. Peter escolheu a segunda opção.

Foi obrigado a arranjar uma profissão que nunca pensara ter, tipógrafo. E só as competições de dança, em que participava na altura, lhe davam alguma satisfação. No entanto, a certa altura, até disso teve de desistir.

"Sentia-me como se estivesse enterrado vivo. E pensava todos os dias que vivia no pior país possível", recorda.

Só que a "barreira de proteção anti-fascista", as fronteiras vigiadas e o muro continuavam lá, impenetráveis. O então líder da RDA, Erich Honecker, chegou a dizer que o Muro de Berlim continuaria de pé por mais 100 anos. "Era isso que eu também achava", diz Peter.

O jovem estava entre a espada e a parede e resolveu fugir em 1981. A ideia era chegar à Hungria e, depois, atravessar o Danúbio a nado até à Áustria. Mas as autoridades da RDA detiveram-no logo no início da fuga. No dia em que fez 23 anos, estava na prisão.

Peter acabou por ser libertado e levado para fora do país. A Alemanha Ocidental pagou pela sua libertação.

Centenas de outras pessoas perderam a vida ao tentar passar para o outro lado. Nove meses antes da queda do Muro de Berlim, guardas fronteiriços da RDA mataram um jovem de 20 anos que tentava fugir para a Alemanha Ocidental. Foi a última pessoa a ser assassinada ao tentar atravessar a barreira.

Novos "muros"

A queda do Muro de Berlim precipitou o fim da divisão entre o Leste e o Oeste. Caiu a "cortina de ferro". Agora, 30 anos depois, afiguram-se novos muros políticos e ideológicos na Alemanha.

"Sim, parece haver uma espécie de um muro", comenta Peter Keup. "Há um 'Leste' e um 'Oeste'. Há 30 anos, com a reunificação da Alemanha, dizia-se que, numa ou duas gerações, o país seria um só. Acho que estávamos a caminho disso, mas há um retrocesso."

O município de Neißeaue, um aglomerado de aldeias junto à fronteira com a Polónia, foi onde a AfD conseguiu mais votos nas últimas eleições na Saxónia, em setembro. Ali, a extrema-direita conquistou 48,4% dos votos. Nas estaduais anteriores, em 2014, ficou-se pelos 15%.

Neißeaue é o ponto mais a leste da Alemanha; para quem anda de transportes públicos, não é fácil lá chegar. Partindo de Leipzig, a pouco mais de 200 quilómetros, é preciso contar com, pelo menos, quatro horas de viagem. Primeiro, apanham-se dois comboios. Depois um autocarro. A estrada até Neißeaue é íngreme, mas, regra geral, está em boas condições. O autocarro dá poucos solavancos.

Do lado de fora da janela, um cenário pitoresco: ovelhas pastam nos campos e, à beira da estrada, vê-se uma ou outra fileira de abóboras, muitas cor de laranja, outras mais amarelas. O exterior das casas está bem cuidado – à porta de algumas há inclusive mais abóboras, esculpidas com carantonhas para o Halloween. No telemóvel, a rede é pouca, fica-se por um ou dois "tracinhos". Daqui não dá para enviar fotos.

Chegados à Câmara Municipal de Neißeaue, perguntamos à presidente, Evelin Bergmann (independente), porque é que as pessoas aqui votaram tanto na AfD. Estão insatisfeitas?

"Boa questão. Muito boa questão. Não posso falar por mim, porque não estou propriamente insatisfeita. Penso que é uma insatisfação global", comenta a autarca.

Zonas rurais foram negligenciadas

A Câmara Municipal de Neißeaue fica na aldeia de Groß Krauscha. Vivem aqui pouco mais de 300 pessoas. No município, são cerca de 1.700.

Ao andar pelas ruas, quase desertas, paira no ar um cheiro quente a lareira, vindo das casas, que contrasta com o vento frio do campo. É hora de almoço. Passam vários carros, mas não param. Não há cafés nem restaurantes à vista.

Perguntamos a quem passa porque é que a AfD teve tanto sucesso nas últimas eleições. Mas as pessoas que abordamos na rua recusam-se a falar ou a deixarem-se gravar. Uma desabafa apenas que já vieram aqui muitos jornalistas perguntar o mesmo. A imagem que se passa para fora é de que tudo é mau. Mas a verdade, diz, é que não há nada na localidade, nem mercearia, nem padaria.

A presidente da Câmara confirma. "Antigamente, havia aqui uma padaria na localidade, é verdade", recorda Bergmann. "Antes da viragem, e mesmo logo a seguir [à queda do muro], havia em cada localidade um sítio para fazer compras."

A padaria está agora a três quilómetros de distância. Para quem não tem carro, pode ser um problema, reconhece a autarca. Por aqui, passam poucos autocarros. Na paragem onde descemos, param apenas cinco autocarros por dia - e só de segunda a sexta-feira. Ao fim-de-semana não há nenhum.

Evelin Bergmann conta que, a seguir à queda do Muro de Berlim, em 1989, houve uma grande euforia: passou a haver liberdade de circulação, as pessoas podiam viajar para onde quisessem e comprar coisas que, até à queda do muro, só havia no Ocidente. Mas à euforia seguiu-se a desilusão.

"Depois da viragem, houve muitas pessoas desempregadas. Os jovens migraram e houve um despovoamento das zonas rurais, porque os jovens não tinham oportunidades de formação nem trabalho."

Nos últimos tempos, as coisas mudaram, continua Bergmann: "Em oito localidades, temos três creches, uma escola primária, um ATL, um consultório médico na localidade vizinha… Temos locais para fazer compras, embora não em todas as localidades, e um consultório de fisioterapia…"

Muito até parece correr bem. Como é que pode haver aqui uma "insatisfação global"? Parece um paradoxo.

"Crise dos refugiados, nós não temos um único refugiado. Pobreza na velhice, afeta aqui uma ou outra pessoa, se tanto", explica a autarca. Mas as pessoas ouvem falar constantemente destes temas nos media, e isso pode causar medo, acrescenta.

"É um medo global em relação ao futuro, que se calhar não afeta as pessoas diretamente. O que acontecerá aos nossos filhos? O que acontecerá aos nossos netos? Será que virá uma 'onda' de refugiados?"

Além disso, muitas pessoas a viver nas zonas rurais ainda sentem que o Governo federal se esqueceu delas nas últimas décadas, apostando sobretudo em grandes centros urbanos.

Problemas nas infraestruturas

A maior parte das regiões negligenciadas na Alemanha fica no leste do país, segundo um estudo divulgado em agosto pelo Instituto de Berlim para a População e o Desenvolvimento. O município de Neißeaue faz parte da lista.

Estas são zonas onde há mais pessoas a receber rendimento social de inserção, onde houve um forte êxodo e onde há pouca internet e uma fraca rede de abastecimento local.

Segundo o sociólogo alemão Holger Lengfeld, "o leste da Alemanha tem menos indústria moderna e, se olharmos para trás na História, veremos que já era assim, mesmo nos tempos áureos da industrialização. O Leste alemão sempre se dedicou mais à agricultura. A indústria era algo mais pontual."

É um facto que, trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, o leste da Alemanha está melhor, economicamente.

O desemprego baixou significativamente. Cinco anos depois da queda do muro, a taxa de desemprego no Leste rondava os 14,8% contra 8,1% no oeste da Alemanha. No ano passado, estava quase ao nível do Ocidente: 6,9% contra 4,8%. A diferença de salários também diminuiu, embora no Ocidente se continue a ganhar mais do que no Leste (3.340 euros brutos mensais contra 2.790 euros brutos no Leste, em 2018).

Mas apesar das melhorias, continua a imperar um sentimento de desagrado. "O que presumimos é que isso tenha a ver sobretudo com as infraestruturas, como escolas, piscinas ou assistência médica", diz o professor Lengfeld.

AfD tira proveito

O partido de extrema-direita AfD tem dado voz a esta insatisfação, prometendo servir de megafone a muitos alemães do Leste que, 30 anos depois da queda do muro, continuam a sentir-se como "cidadãos de segunda classe".

Jonas Dünzel é membro da AfD. Tem 25 anos e nasceu na Saxónia. Nas conversas de família, a queda do muro ainda é um tema presente: "A geração dos meus pais passou muitas coisas à geração seguinte. O meu pai disse-me sempre para questionar o mundo à minha volta e formar a minha própria opinião. Acho que esse é um dos motivos para o sucesso da AfD aqui."

O jovem político conta que, em 2017, se tornou membro da AfD por duas razões fundamentais: para subir o valor das reformas na Alemanha e por causa da chamada "crise dos refugiados", em 2015, com a chegada de mais de um milhão de migrantes, sobretudo da Síria, do Afeganistão e do Iraque.

Segundo Dünzel, uma das grandes diferenças entre o leste e o oeste do país continua a ser a estrutura da população. "Em geral, os alemães ocidentais têm muito mais experiência com pessoas de origem imigrante, tanto positiva como negativa. Mas as pessoas aqui também veem os problemas que isso traz."

Todos os partidos tradicionais contra a AfD

A Alternativa para a Alemanha é acusada frequentemente de incitar ao ódio e à xenofobia.

No programa para as eleições na Saxónia deste ano, a AfD afirma que ajudar "supostos refugiados" em território alemão sai caro e que essa ajuda é prestada à custa de recursos necessários para resolver outros problemas no país. O partido diz-se ainda contra o "estabelecimento crescente de estruturas islâmicas" e é contra o ensino do Islão nas escolas públicas e contra o que afirma serem "direitos especiais para muçulmanos": por exemplo, a oferta de comida halal em cantinas escolares, algo que, segundo a AfD, seria a "expressão de uma islamização progressiva", que pretende combater.

No ano passado, um dos dois líderes do partido, Alexander Gauland, reduziu o nazismo a uma "caganita de pássaro" num milénio bem sucedido da história da Alemanha.

Todos os partidos tradicionais, da esquerda à direita, recusam trabalhar com a AfD. A liderança do partido da chanceler Angela Merkel, a CDU, disse que rejeita qualquer cooperação com a AfD, porque quem o faz se aproxima de um partido que tolera conscientemente nas suas fileiras ideias de extrema-direita, racismo e antissemitismo.

Jonas Dünzel, político que milita na AfD, nega: "No nosso partido, não há lugar para pronunciamentos racistas e contra o ser humano." E questiona: "O que é que CDU quer fazer de diferente? Têm de dar algum motivo para não se coligarem connosco. A questão é se isso é inteligente para a CDU. [Por outro lado,] no passado já houve algumas cooperações a nível local.“

Medo da AfD

Em Leipzig, também no leste da Alemanha, o ritmo e o burburinho da cidade contrastam com a tranquilidade e o silêncio em Neißeaue. No final de 2018 moravam aqui quase 600 mil pessoas, e a tendência é para crescer. Há constantemente elétricos a passar nas ruas. As ruas estão cheias. Veem-se muitos jovens. Até há um ano, a cidade dava 150 euros aos estudantes que fixassem aqui residência.

Em 1989, foi em Leipzig que tiveram lugar muitos dos protestos contra a ditadura da RDA, antes da queda do muro, incluindo o protesto que reuniu 70 mil pessoas na estação de comboio da cidade contra o regime comunista de leste.

Este ano, 30 anos depois da "revolução pacífica", um grupo de artistas quis entrar em diálogo com a população e fez perguntas ou reptos em várias montras, na rua.

Numa delas, lê-se: "Isto mete-me medo". Em baixo, há muitas respostas dos transeuntes, escritas em folhas A4 vermelhas: Trump, Capitalismo, Merkel, Greta, Alterações Climáticas, Injustiça Social entre milionários e pobres, AfD.

O sucesso da AfD no leste da Alemanha "é um desenvolvimento lamentável", comenta uma das pessoas em frente à montra. "Como cidadã deste país, penso que cada um de nós é chamado a tomar uma posição, a não ficar calado."

Outro passante diz que "a AfD é a consequência de uma política mal sucedida" e que, "infelizmente, as forças de direita são uma grande parte da AfD, o que não significa necessariamente que as pessoas no Leste são de direita. É uma manifestação da insatisfação, por não serem compreendidas", remata. Uma jovem que cresceu numa aldeia da Saxónia refere que, quando fala com pessoas que votaram AfD, tem a impressão de que elas "não se preocupam em saber o que o partido é".

Os "muros" de hoje

Em agosto, o movimento de Susann Riske, o #unteilbar ("indivisível", em português), organizou uma manifestação em Dresden para mostrar um outro lado do Leste alemão. Segundo Riske, participaram 40 mil pessoas – foi um dos maiores protestos depois da reunificação alemã.

"A manifestação tinha como objetivo encorajar as pessoas e enviarem um sinal claro contra políticas conservadoras e de direita", diz Riske. "Este tema do Leste foi instrumentalizado pela AfD, para os seus objetivos. Penso que é tempo de voltarmos a falar sobre ele, de outra forma, e de ter um grande debate na Alemanha, em conjunto, sobre a sociedade em queremos viver."

Isto porque, hoje em dia, as divisões não são tanto "entre Leste e Oeste", afirma. "[O que] aumenta cada vez mais é o fosso entre ricos e pobres, entre cidades e zonas rurais."

A politóloga Rebecca Pates também observa este fenómeno, e não só na Alemanha: "Sim, existe um novo muro. É um muro entre classes locais e transnacionais."

E cada grupo na sociedade vai colocando arame farpado em seu redor. Segundo Pates, "muitas pessoas não falam com a AfD por razões morais, e a AfD também diz para não se falar com os Verdes ou com os chamados 'partidos tradicionais', também por razões morais".

Muitas vezes, é difícil trocar pontos de vista com simpatizantes da Alternativa para a Alemanha, acrescenta Peter Keup. "Falamos, mas não há uma interseção."

Apelo ao diálogo

Para Peter Keup, a queda do Muro de Berlim, há 30 anos, foi uma benção, mas – para si, em particular – também uma ameaça. Nesse dia, 9 de novembro de 1989, Peter lembrou-se do que um oficial da Stasi, a polícia política da Alemanha de Leste, lhe disse quando foi libertado e enviado para a Alemanha Ocidental: "Se contares mentiras sobre nós, o nosso braço chega a todo o lado."

"Não pensei de forma racional. Desejo a todos que tenham liberdade. Não é isso que está em causa. Mas eu não conseguia perceber o que aquele acontecimento traria consigo", afirma Peter.

Trinta anos depois, Keup anda agora de escola em escola, dentro e fora da Alemanha, a contar a história da sua tentativa de fuga e detenção na Alemanha de Leste.

"Uma vez, juntámos duas escolas, uma do 'Leste', outra do 'Oeste'. Falámos sobre liberdade de expressão e de opinião, para mostrar o que não havia na ditadura. E acho que se deve fazer [mais] algo do género. Acho que os jovens no Leste têm de ser mais esclarecidos, quando os avós lhes dizem que [na RDA] era melhor porque havia empregos seguros…"

"O capitalismo é terrível, é verdade. Mas é preciso mostrar aos jovens o que significa viver em ditadura", conclui. Para isso, Peter apela ao diálogo e ao investimento na Educação e na Cultura, agora que há novos "muros" a surgir na Alemanha.

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