sol.sapo.ptJosé António Saraiva - 8 nov 15:44

Portugueses lá fora

Portugueses lá fora

Na Suíça é um perigo ter uma conversa mais indiscreta num local público, pois há o elevado risco de estar um português a ouvir-nos.

Os portugueses têm uma extraordinária capacidade para se integrarem noutros povos. E por isso se espalharam pelo mundo. Ou o contrário: por se espalharem pelo mundo adquiriram uma grande capacidade de adaptação a outros ambientes e outras culturas.

Vamos a qualquer parte e encontramos um po  rtuguês. Ainda agora me aconteceu isso na Suíça. A cada passo nos cruzávamos com portugueses. Hoje são quase todos emigrantes económicos, mas noutra época houve também emigrantes políticos – ou fugidos à tropa, com mais propriedade. Lá se constituiu mesmo um grupo de intelectuais que adotou o nome de ‘grupo de Genebra’ e de que faziam parte António Barreto, Medeiros Ferreira, Ana Benavente e outros.

Na Suíça, encontrei agora emigrantes portugueses de diferentes gerações. Na parte velha de Genebra, junto à igreja de S. Pedro, entrei num restaurante que parecia italiano, chamado Chez Adriano, e mal abri a porta o patrão, que estava sentado a comer – nos restaurantes, os empregados e os patrões almoçam tarde –, levantou-se, disse «Bonjour» e encaminhou-me para uma mesa.

Em Portugal, quando chegamos fora de horas a um restaurante, ou nos dizem que a cozinha já fechou ou somos atendidos com uma cara feia. Ali não: muitos restaurantes funcionam todo o dia. E os clientes são em geral acolhidos com um sorriso.

Depois de sentados à mesa, o homem que nos tinha recebido à porta ouviu-nos falar e meteu conversa. Era um sujeito forte, alto, de cabeça rapada, dos seus 60 anos. Ninguém diria que era português. Mas era: disse-nos ser de Viseu, donde saíra há 35 anos. Tinha ali o seu negócio e estava aparentemente feliz.

À ida para lá, tínhamo-nos cruzado com dois trabalhadores que montavam umas decorações de Natal e falavam um com o outro em português. E à vinda passámos debaixo de uns andaimes onde dois operários trocavam impressões num português escorreito. Dizem-me que é frequente nessas circunstâncias ouvir um palavrão, mas não foi o caso…

Em Berna, entrámos num restaurante no centro onde veio ao nosso encontro, com ar formal, o chefe de mesa: um homem dos seus 55 anos, alto, com bom ar, de pele branca rosada. Um suíço, pelo aspeto. Recebeu-nos em três línguas: alemão (a língua da região), francês (a segunda língua do país) e italiano. Conduziu-nos à mesa. Quando trouxe as bebidas, disse: «Saúde». Percebemos que era português. De Aveiras de Cima – donde saiu, como o outro, há 35 anos, estando naquele restaurante há 25. Percebemos depois que também falava corretamente inglês e espanhol. Um poliglota!

Em Montreux, junto à promenade (só para peões) que circunda a esplêndida baía que é o ex-libris da cidade, dirigimo-nos a uma roulotte de venda de gelados. Atende-nos uma simpática jovem de vinte e poucos anos que, quando nos ouve falar português, sorri. Também é portuguesa. De Gaia. Está lá há pouco tempo mas vai continuar.

A seguir cruzamo-nos com duas mulheres baixinhas, de cabelo branco, dos seus 60 e muitos anos. Já as tinha visto ao longe e reparado que não paravam de tagarelar. Quando passam por nós, verifico que conversam em português.

Isto é uma pequena amostra. Na Suíça é um perigo ter uma conversa mais indiscreta num local público, seja na rua, num restaurante ou num autocarro, pois há o elevado risco de estar um português a ouvir-nos.

E os portugueses parecem integradíssimos na sociedade suíça. Desempenham as profissões que aqui não querem exercer: empregados de mesa e operários da construção civil. Em Portugal são os brasileiros e os africanos que fazem estes trabalhos. Só que na Suíça pagam por eles três ou quatro vezes mais.

O curioso é que, integrando-se os portugueses muito bem nas sociedades mais desenvolvidas, não dão o mesmo rendimento na sua própria terra. Os portugueses dão rendimento em organizações criadas por outros – mas não são capazes de as pôr de pé no seu país.

Por isso, as nossas principais indústrias foram levantadas por estrangeiros. O vinho do Porto por ingleses, assim como o vinho da Madeira. O vidro pelos irmãos Stephens. As minas foram em boa parte exploradas por ingleses. E a primeira casa livreira pertenceu aos irmãos Bertrand. 

Como explicar isto? Muito simplesmente: temos qualidades de trabalho, somos desenrascados, criativos, mas falta-nos algo que os povos do norte têm em elevado grau: capacidade de organização. Somos em geral desorganizados, caóticos, e por isso temos muita dificuldade em pôr de pé estruturas que funcionem. Tão simples quanto isto. E ao mesmo tempo, tão complicado. 

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