rr.sapo.ptOpinião de Graça Franco - 8 nov 16:40

Este texto não é sobre vacinas

Este texto não é sobre vacinas

Não há terapêutica que resulte se visar apenas “os pobres”. Só pode resultar com a colaboração ativa do doente, quebrando o mito de que a pobreza é coisa do “destino” e de que quem nasce pobre, pobre morrerá.

Não gosto de ver Marcelo, todas as noites, debaixo do fogo das câmaras da CMTV entre pessoas sem abrigo, que ora estão na estação do Rossio e lhe oferecem cachorrinhos, ora dormem na rua para os lados de Santa Apolónia e lhe merecem a designação de heróis da pátria. Porque “no esforço pela busca de meios de sobrevivência” salvam recém-nascidos descartados como se se tratassem de jornais velhos.

Não sei se o senhor Manuel (seria este o seu nome?) abraçado ao Presidente gera a empatia pretendida pela sua situação de excluído ou, pelo contrário, acentua a simples rejeição da política “show-off”. Dito isto, a verdade é que, pesados os prós e os contras, acho que o apelo de consciência de um Marcelo cristão Presidente de um país laico não tem como fugir à situação, pelo menos se quiser manter na agenda mediático-política a luta contra a exclusão e a indiferença como uma prioridade cívica nacional. Mesmo sujeitando-se a críticas “extremamente desagradáveis”, como, aqui mesmo na Renascença, a Joana Marques não o poupou.

Não me ocorre melhor ideia para nos cobrir diariamente a todos de vergonha. Tem o seu quê de patético ver a jovem ministra do Trabalho ao lado do Presidente, a anotar demoras de processos burocráticos, que se arrastam meses ou anos e visam tirar menos de 400 pessoas das ruas de Lisboa (já foram milhares!). A cena parece uma demonstração da incapacidade de ação dos poderes públicos. Ou, pior ainda, demonstra uma quase compulsão assistencialista do exercício das políticas de combate à pobreza e à exclusão, mas vale como arma de combate à indiferença.

Não devia ser assim. Mas o país é o que é. Esta jangada bipolar, onde se juntam, no mesmo dia, a escassos metros de distância, centenas de jovens ambiciosos fascinados por um boneco de peluche em forma de unicórnio e “penthouses” onde instalarão os seus gabinetes de gestores de empresas, avaliadas em mais de mil milhões – tudo de preferência antes de deixar os 'vintes' – e, ao lado, gente que dorme na rua em estado de alerta permanente e anda "aos papéis” antes dos 40.

Não somos caso único. Em todo o mundo dito “civilizado” se vive a mesma duplicidade. Esta semana, em Paris, às cinco da manhã, mais de 500 polícias avançaram para um acampamento improvisado de migrantes das mais variadas nacionalidades, com vista a levar homens, mulheres e crianças para centros de acolhimento em locais discretos e menos suscetíveis de embaciar o brilho da cidade-luz em época natalícia. Tudo para diminuir o pânico securitário da classe média.

Gente vinda de todo o mundo, como na nossa Web Summit, mas sem ténis de marca e sem aquele ar deliciosamente “negligée” dos rapazes e raparigas que invadiram a nova FIL. Como dizia o velho ator norte-americano Danny Glover, no Rivoli no Porto, enquanto participante no Fórum do Futuro: “Não me lembro de outro tempo com tanta desigualdade.”

Vale a pena dizer que desigualdade é sempre sinónimo de pobreza. Esta só existe por oposição à não-pobreza. As duas violam os Direitos Humanos mas a pobreza pode ser vista também como um problema grave de saúde pública. Em Portugal, no caso das pessoas sem abrigo, as doenças psiquiátricas e os casos de dependência do álcool e das drogas são muitas vezes prevalecentes. Mas mesmo nesse grupo os sinais exteriores são sintomas perturbadores, mas não são a génese da doença.

A pobreza mais grave e endémica é a pobreza com teto e até com trabalho (entre o salário mínimo e a linha de pobreza vão só 150 euros). É preciso combatê-la, mas sobretudo é preciso reforçar a sua deteção precoce. Como qualquer “doença” que se apresente como hereditária, crónica, debilitante e facilmente transmissível.

Sabemos até que ponto são quase sempre filhos de pobres, muitas vezes até à quinta geração, e perante a ineficiência do funcionamento dos elevadores sociais (condições de habitação, alimentação e acompanhamento que permitam e facilitem o sucesso escolar, o acesso ao Ensino Superior e à qualificação profissional, a ocupação de postos de trabalho bem remunerados, progressão meritocrática na carreira etc…). A pobreza facilmente assume características de autêntica doença contagiosa em contexto familiar.

O diagnóstico está feito. Economistas, sociólogos, psicólogos, e outros cientistas sociais investiram anos de investigação e descobriram as vacinas. Estão aí, ao serviço dos políticos, suficientemente testadas e disponíveis. Só falta sensibilizarmo-nos a todos para a prioridade da sua inclusão no Plano Nacional de Vacinação. Tendo clara uma ideia: não há terapêutica que resulte se visar apenas “os pobres”. Só pode resultar com a colaboração ativa do doente, quebrando o mito de que a pobreza é coisa do “destino” e de que quem nasce pobre, pobre morrerá.

É por isso que a Comissão Nacional Justiça e Paz vai amanhã promover no Centro Cultural Franciscano um dia inteiro de reflexão subordinado ao tema “Com os pobres”. Ali, além do arcebispo de Barcelona vir explicar o que significa hoje na Europa a proposta da “opção preferencial pelos pobres”, a economista Joana Duarte Silvada (UCP) falará da perspetiva económica e Pedro Góis (UC) vai tratar a pobreza na ótica do desenvolvimento e das migrações. Os três falarão das várias vacinas anti-pobreza. E de como podem ser eficazes se ministradas em tomas repetidas e na dose certa. Não é só mais um fórum anual. Quer-se que seja O Fórum.

Vale a pena passar por lá. Porque os cristãos não podem continuar a fugir. Aproveitemos a difícil digestão de uma estória tão tenebrosa que leva uma jovem mulher, ela própria sem abrigo, a dar à luz em plena rua, despejando o filho num contentor como quem se livra de um cartão velho desnecessário.

Agora que o seu bebé está salvo, falta salvar também essa mulher, como nos lembra o Henrique Raposo. Mas isso não passa por fingir que a culpa é sempre e só do sistema que a pode ter levado a um ato de loucura monstruosa. As pessoas sem abrigo são gente como nós e só por o serem não são inimputáveis.

O senhor Manuel (?) que vive na rua é um herói? Não sei. Só sei que viu naquele bebé um semelhante.

1
1