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Houve “um antes e um depois do 25 de Abril” na alimentação a bordo dos bacalheiros

Houve “um antes e um depois do 25 de Abril” na alimentação a bordo dos bacalheiros

Festival que exalta a gastronomia de bordo arrancou esta sexta-feira, em Ílhavo, e viajará, depois, para a Murtosa. As ementas são preenchidas com as iguarias que alimentavam os homens da pesca.

Dos seus 73 anos de vida, 42 foram passados no mar. Naufragou logo na primeira viagem e jamais irá esquecer as imagens de ver o seu navio, o Lutador, a arder. Por mais que se sentisse são e salvo no bacalhoeiro que o resgatou, o Ilhavense, ficou devastado ao ver as labaredas a consumirem tudo o que podiam. “Ardeu desde as nove da noite até à tarde do dia seguinte. O fogo só parou quando chegou à linha de água”, recorda o homem que, por vontade do destino, acabou por se tornar cozinheiro de bordo. Durante os 30 anos que andou na pesca do bacalhau – a restante carreira no mar foi dedicada aos navios da marinha mercante -, José Gomes Ribeiro tratou de alimentar dezenas de homens que enfrentavam os climas agrestes da Terra Nova e da Gronelândia para pescar bacalhau.

Por mais que a ondulação ameaçasse arruinar a tarefa de quem andava de volta dos fogões e dos tachos, “tinha de se fazer comida para aquela malta”, recorda. Sopa, peixe ou carne. Dependia do que a pesca ia dando e do stock de mantimentos. Com essa certeza: houve um “antes” e um “depois do 25 de Abril” na alimentação a bordo dos bacalhoeiros, assegura este cozinheiro ilhavense, a partir da experiência que viveu entre 1963 e 1993. “Foi do 8 ao 80. Depois do 25 de Abril eram máquinas a meter comida a bordo”, testemunha. Foi, também, a partir da revolução de 1974 que terminou a existência de “comida de primeira e comida de segunda a bordo”. “Na linguagem de bordo, era a comida da proa e a comida de ré”, acrescenta, a propósito da diferença que existia entre oficiais e pescadores. 

Entre os pratos mais cozinhados a bordo estão a famosa chora – sopa feita com a cabeça do bacalhau -, “feijoada de chispe, bacalhau, pastéis de bacalhau e pataniscas”, enumera José Gomes Ribeiro. Já os samos e os línguas dificilmente chegariam aos pratos dos pescadores. “Eram parte do vencimento dos capitães e eles não deixavam mexer naquilo. Quando regressavam a Ílhavo, as suas esposas iam, depois, vendê-los ao mercado”, testemunha o cozinheiro. O mesmo acontecia com o óleo de fígado de bacalhau. “Era para o capitão e para o pessoal das máquinas”, refere, sem deixar de reparar que, “depois do 25 de Abril, quando o óleo passou a ser distribuído por todos os elementos da tripulação, já as farmácias deixaram de o querer”.  

José Gomes Ribeiro passou por navios como o Senhora da Vida, o Novos Mares e o Estêvão Gomes, além do Lutador, e foi em alto mar que se fez um mestre da cozinha. “Depois da escola de pesca, embarcávamos como moços, que na prática eram pau para toda a colher”, lembra. A este ilhavense calhou ir para a cozinha e de lá já não voltou a sair. Chegou a ter problemas por isso, uma vez que “era suposto ter andado como pescador, depois dos dois anos de moço”, testemunha. Teve de ir ao Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca do Bacalhau para ultrapassar o problema. Acabou por tirar a “carta de cozinheiro” depois do 25 de Abril, mantendo-se na pesca do bacalhau por quase mais duas dezenas de anos.

Festival resgata os sabores da comida de bordo

Fruto desta longa experiência na cozinha dos navios bacalhoeiros, José Gomes Ribeiro tem vindo a ser chamado a colaborar com o Festival Gastronomia de Bordo, evento que arrancou esta sexta-feira em Ílhavo (estende-se até ao próximo dia 17) e que conta com a curadoria da chef Patrícia Borges. Dividido por uma trilogia de eventos – o primeiro aconteceu em Peniche, de 18 a 20 de Outubro; e o terceiro irá acontecer na Murtosa, de 27 de Novembro a 1 de Dezembro -, este festival exalta a cozinha tradicionalmente produzida a bordo das embarcações.

Criado ao abrigo do projecto “Territórios com História: o Mar, as Pescas e as Comunidades”, que junta os municípios de Ílhavo, Murtosa e Peniche - unidos pela temática do mar e das pescas - este festival está a cumprir este ano a sua segunda edição. Em Peniche, o evento centra-se na pesca costeira, na Murtosa, é inspirado na pesca lagunar e, em Ílhavo, como não podia deixar de ser, o destaque vai para a comida que era servida a bordo dos navios bacalhoeiros.

Em 19 restaurantes do município de Ílhavo, está a ser dado destaque a iguarias inspiradas em pratos tão emblemáticos de bacalhau e seus derivados como a chora, caldeirada de espinhas de bacalhau, feijoada de chispe, feijão assado, línguas fritas, entre outros pratos também faziam parte do cardápio de quem tinha de enfrentar os mares inóspitos. Cada restaurante aderente – a lista completa pode ser consultada no website do evento - apresenta um menu próprio para o festival, com preços entre os 15 e os 30 euros por pessoa (aconselha-se a reserva com pelo menos 24 horas de antecedência).

Em paralelo, decorrem, também, várias visitas guiadas a locais ou equipamentos relacionados com a pesca. Uma delas será dedicada ao “Porto Bacalhoeiro e as novas ‘secas’ de bacalhau”. Acontece no próximo dia 16 e contempla, além da visita, uma degustação de bacalhau, a cargo do chef Ricardo Marques.

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