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A Web Summit é só turismo?

A Web Summit é só turismo?

Empreender e fechar uma empresa um ou dois anos depois não é uma perda de tempo ou desperdício de vida. Mas disto só pode falar quem por lá passou — e a verdade é que não é para todos, nem tem que ser, e o empreendedorismo também não é a cura para t

Acabou a Web Summit (WS). Mais uma vez com o apoio declarado dos políticos em exercício, de uma grande parte da comunidade empreendedora e tecnológica e com a presença das grandes empresas portuguesas e multinacionais que não querem ficar fora desta conversa. Também houve, como nas edições anteriores, ferozes críticas vindas de muitos e diferentes ângulos. 

As críticas começam, normalmente, no investimento público para a realização da WS em Portugal. É verdade que é gigantesco e a ele acresce ainda o toque nacional de falhar prazos (neste caso, a expansão da FIL), que levou a Câmara Municipal de Lisboa a um gasto de quase mais cinco milhões de euros. Mas, como aponta um estudo feito em 2018, a WS traz para as empresas portuguesas um rendimento de pelo menos mais 100 milhões de euros por ano — e para o Estado, pelo menos mais 21 milhões de euros por ano (no cenário mais pessimista), quase o dobro do investimento anual realizado.

A futilidades e feira de vaidades

Fala-se, num artigo publicado no P3, da falta de utilidade e da futilidade da WS, como se “de uma geração cool se tratasse”. Pois eu vejo uma geração que é, de facto, “cool”. Vejo várias gerações “cool”, de várias nacionalidades, empenhadas em fazer acontecer.

É verdade que há na WS um lado de feira de vaidades e alguns disparates, como a venda camisolas iguais à que o Paddy usou na abertura da cimeira, por mais de 700 euros. Mas ainda mais disparatado é que há quem as compre. Se pudesse, obrigava-os a doar as receitas das camisolas a alguma instituição ou a utilizá-las em bolsas de estudo para apoiar, a quem não pode pagar, a frequência de cursos.

Fala-se também do “mediatismo vazio” que é termos o Tony Blair ou o Ronaldinho como oradores. É verdade que, infelizmente, não se reverteu o “Brexit” na conferência, mas as salas (ou pavilhões) ficam a abarrotar para os ouvir. Além disso, as palestras são apenas uma pequena parte daquilo que a WS tem para oferecer. Há dois anos que não assisto a nenhuma e tenho a sensação que boa parte dos empreendedores na WS me acompanha nesta experiência.

Vale a pena empreender? E estar na WS?

No mesmo artigo diz-se que as startups portuguesas “não têm conseguido vingar”, mas na WS, com o passar dos anos, vejo o crescimento e consolidação de muitos dos empreendedores e startups nacionais, algumas já consagradas como a Uniplaces ou a Hole19, e de outras que passaram já por importantes rondas de financiamento e têm sucesso comercial na vida real, como a Tonic App, a Legal Vision ou a HUUB. Comum a todas, além de contrariar a ideia de que não há sucesso nas startups portuguesas, é a noção de que vale a pena estar na WS.

“É verdade que há na WS um lado de feira de vaidades e alguns disparates, como a venda camisolas iguais à que o Paddy usou na abertura da cimeira, por mais de 700 euros. Mas ainda mais disparatado é que há quem as compre.”

Ao contrário do que é dito no artigo, empreender e fechar uma empresa um ou dois anos depois não é uma perda de tempo ou desperdício de vida. Mas disto só pode falar quem por lá passou — e a verdade é que não é para todos, nem tem que ser, e o empreendedorismo também não é a cura para todos os males. Mas não duvido que nos torna mais resilientes e criativos e está a gerar muita riqueza e empregos em todo o mundo.

A exploração (ou não) dos voluntários

Depois há a crítica aos voluntários, um dos habituais pontos quentes nos ataques à WS. Conheço alguns e, por ser sensível ao tema, nas últimas duas edições falei com vários. Na sua grande maioria são estudantes, entusiastas de tecnologia, que de outra forma não poderiam assistir ao maior evento em Portugal sobre aquilo que os apaixona. Claro que podemos e devemos perguntar-nos: mas se a WS dá tanto dinheiro, porque não podem pagar? Se os decisores fossem outros talvez fosse diferente, mas o Paddy já mostrou várias vezes que não está nisto por caridade. Além disso, ser voluntário na WS,  estagiário numa sociedade de advogados ou fazer um estágio curricular numa empresa só difere em duas coisas: a paixão pelo tema e a duração do trabalho. Na WS, são maiores e mais curtos, respectivamente.

Este ano notou-se uma prevalência ainda maior das preocupações e motivações sociais e ambientais, com muitas startups a querer dar um contributo para muitos dos problemas que a nossa sociedade e planeta enfrentam, e também um assumir dessa mensagem, sem vergonha, pela organização da WS. Aqui, sim, há ainda muito para fazer. Fazer convergir 70.000 pessoas num só local durante três dias tem um impacto ambiental significativo e não é a plantar uma árvore por visitante que se compensa essa pegada.

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Em suma, a WS não é só turismo. Mas, mesmo que fosse, de facto, só turismo, produzia riqueza. Porque o turismo em Portugal produz — e não é pouco.

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