visao.sapo.ptMia Couto - 8 nov 08:30

Guaparivás

Guaparivás

A mãe senta-se no leito, bem próximo da filha. Juliana espreita o copo e pergunta: essa água é engarrafada? A mãe pousa o copo e observa a revista em cima da mesinha de cabeceira

Ilustração: Susa Monteiro

– Guaparivás.

Sem mover o rosto, Juliana ergue os olhos para o pai. Há uma hora que está sentada na berma da cama. Tem o corpo dobrado, os olhos e os ombros descidos, parece um desembrulho. Espera, em vão, que o sono lhe chegue.

Há uma semana que saiu de casa e do casamento. Deprimida, sofrendo de insónias, vive como uma refugiada em casa dos pais. Não sei como vocês conseguem dormir, diz ela como se lhe trouxesse alívio culpar os outros. E agora ali estão à sua frente o pai e a mãe, numa paciente mas impotente entrega. . Na capa, uma jovem muito branca, de rosto redondo, cabelos avermelhados e olhar determinado.

– Entra em que filme? – pergunta a mãe.

– Em filme nenhum. Só se for neste filme de terror que todos vivemos.

– Credo, filha!

– É Greta Thunberg, uma ativista ambiental. Se a mãe estivesse mais atenta ao mundo...

– Que mundo? Eu quero continuar a dormir bem, minha filha.

A mãe abraça Juliana: anda cá, minha querida. Com uma suavíssima toada, embala a filha. Ficam assim, duas sombras dançarinas, até que o corpo da filha vai desabando sem peso sobre o leito. Os pais ajeitam o lençol, beijam levemente a filha, apagam a luz.

Enquanto se afastam, pé ante pé, a mãe murmura: é tudo uma questão de jeito, marido. Foram anos que a adormeci ao colo. O marido reage, defensivo: esse embalo é uma violência, está provado cientificamente. Fala baixo, pede a esposa, ainda acordas a menina. E o marido insiste: está provado, para as crianças esse embalo é uma insuportável turbulência. Os bebés só adormecem vencidos pelo enjoo. Sorrindo, a esposa rodeia com os braços a cintura do marido: anda cá, meu tonto, agora és tu a ser embalado.

E ensaia uma lenta valsa. Contrariado, o homem deixa-se balançar. O marido resiste, os pés como raízes mais fundas do que a própria casa. Há anos que não se encostam assim tão cheios de corpo, há séculos que se esqueceram da doçura do primeiro encontro.

– Sabes quem dança como nós, no meio da noite? – pergunta ela.

O marido, de olhos fechados, sacode a cabeça. Depois, as palavras tateiam a penumbra, num ensonado sorriso: os guaparivás?

(Crónica publicada na VISÃO 1391 de 31 de outubro)

Aproveite a campanha Ler e Viver e receba o valor gasto na assinatura em experiências à escolha
1
1