visao.sapo.ptMafalda Anjos - 7 nov 08:15

Joacine e os exageros da esquerda tribalista

Joacine e os exageros da esquerda tribalista

Joacine alinha no que já se convencionou lá fora chamar de tribalismo político. Uma retórica cada vez mais dominante de uma certa esquerda, que escolheu a via do entrincheiramento para lutar e para crescer: Não és dos meus e da minha tribo, és o inimigo e estás contra mim

. Se, há 50 anos, a luta dos movimentos dos direitos civis se centrava nos valores da igualdade e da justiça social com uma retórica inclusiva e humanista que transcendia grupos – da qual o célebre discurso de Martin Luther King é o melhor exemplo –, hoje cresce uma esquerda radical que, cansada do que entende ser o passo lento da mudança, escolheu o confronto, a divisão e a exclusão para se fazer notar.

Esta esquerda abandonou a mensagem universalista e a “clássica” ideia de luta de classes para escolher a via da política das identidades, priorizando preocupações e interesses de grupos e minorias sub-representadas, tendo em conta a sua etnia, a sua religião, a sua orientação sexual ou cultural. Em vez de advogar uma política voltada para o mundo, entrincheira-se no que é uma abordagem fechada, voltada para dentro, rodeando-se de uma suposta nobreza moral que a coloca acima de quaisquer críticas.

É nesta ala que a radicalização do politicamente correto vai mais longe: depressa se passa para discursos em que se defende apagar a memória e reescrever a História (e que aconselham a retirar estátuas, esconder quadros, banir livros), negar evidências científicas biológicas (que dizem que as mulheres e os homens não são biologicamente distintos) ou comunicar de forma impercetível (qualquer dia, vamos ouvir um “bom-dia a todas e a todos, caras e caros membros da comunidade LGBTTQQIAAP”).

A troca de mensagens entre Joacine e o comentador Daniel Oliveira neste fim de semana no Twitter, a propósito de um texto de opinião em que este sublinhou a personalização da forma de fazer política do Livre, não seria notícia se não fosse sintomática. Ao comparar os argumentos de Daniel Oliveira com os usados pela extrema-direita e ao dizer que nunca mais leria o que este tem para dizer sobre o partido, Joacine mostra ao que vem: deixa antever uma certa tentação totalitária ao negar-se ao debate construtivo e ao colocar todos os críticos, mesmo os que sempre foram da sua “ala”, do lado do “inimigo”.

Com estas e outras ideias, colocadas desta forma, na praça ultrapública das redes e no hemiciclo, um partido como o Chega terá espaço e argumentos de sobra para crescer. Paradoxalmente, é este radicalismo da esquerda que, em grande parte, explica o crescimento de movimentos no extremo oposto um pouco por todo o lado – o tribalismo e os excessos do politicamente correto dão argumentos poderosos para uma ala conservadora e reacionária que se sente ameaçada. Veja-se o absurdo do exemplo dos Estados Unidos da América e do Brasil: de repente, uma esmagadora maioria de norte-americanos, machos e brancos sente-se ameaçada pelas conquistas crescentes das minorias, e contra-ataca. Corre-se o risco de as tradicionais bandeiras da tolerância e da diversidade, que sempre foram de esquerda, passarem para o outro lado do espectro político.

Não tenhamos dúvidas: a incapacidade de uma certa esquerda de se autoquestionar e de ponderar alguns dos seus erros e exageros pode servir pior os seus justos fins últimos – mais igualdade e mais justiça social. Mas quando se aperceberem disso pode ser já tarde demais.

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