www.dinheirovivo.ptJoão Almeida Moreira - 6 nov 07:48

Geringonça brasileira

Geringonça brasileira

A geringonça com sotaque açucarado que governa o Brasil, sob a liderança de Jair Messias Bolsonaro.

Visualize um general, com a sisudez de Pinochet, de bigode e tudo. Agora, acrescente-lhe, por cima das pomposas medalhas, insígnias, ombreiras e fourragères de militar, um turbante negro, como o do Ayatollah Khomeini ou de outro fanático religioso. E, finalmente, junte-lhe o batom encarnado de Margaret Thatcher. O que resulta dessa misturada?

Um Frankenstein, dirão os mais severos. Uma geringonça, dirão os mais brandos.

Pois é essa geringonça – uma geringonça com sotaque açucarado e debaixo de um sol tropical mas, ainda assim, também uma geringonça – que governa o Brasil sob a liderança de Jair Messias Bolsonaro.

De um lado o militar-autoritarismo, do outro o fundamentalismo ideológico religioso e, pelo meio, o neoliberalismo da escola de Chicago.

Esse neoliberalismo da escola de Chicago, representado pelo batom de Thatcher na nossa imagem do primeiro parágrafo, é traduzido no executivo brasileiro pelo economista Paulo Guedes, um dos mais temidos e implacáveis tubarões dos mercados financeiros do país.

De tão fanático da privatização, de tão adepto da precarização do trabalho, de tão obcecado pelo corte de direitos sociais, nos últimos dias Guedes sentiu necessidade de dar uma reprimenda pública àqueles 60% de brasileiros que vivem abaixo do salário mínimo – ou seja, com pouco mais de 200 euros por mês. “Não sabem poupar!”, censurou.

A ala fundamentalista ideológico religiosa, representada pelo turbante de ayatollah na imagem, é liderada pelo ministro das Relações Exteriores, para quem o nazismo é de esquerda, o ministro da Educação, que escreve com erros ortográficos uns atrás dos outros, a ministra dos Direitos Humanos, pastora que ergueu cruzada contra o desenho animado Frozen por suposto lesbianismo de uma das princesas, e o ministro do Meio Ambiente, que acusou o Greenpeace de ser o responsável pelo recente vazamento de óleo na costa nordestina.

E por Edir Macedo, cuja televisão, a Record, e cujo partido político, o Republicanos, estão sempre à disposição de Bolsonaro, recentemente abençoado pelo bispo no templo da IURD, ou pelo pastor deputado Marco Feliciano, braço direito do presidente que garante que John Lennon morreu por se ter dito mais famoso do que Jesus Cristo e acredita piamente na cura gay.

Sobram os militares, representados pelo sobrolho franzido e pela quinquilharia de Pinochet no parágrafo original, que são às centenas no executivo. Um deles, o general Augusto Heleno, de tão íntimo do chefe, nem foi capaz de contrariar – ou não quis mesmo contrariar – o comentário de Eduardo Bolsonaro (os filhos mal comportados do presidente são um capítulo à parte da geringonça) a favor da instituição de uma ditadura no país.

E assim vai o Brasil na sua corrida furiosa e desenfreada rumo ao passado.

Em nome dos tubarões do mercado, de um Nosso Senhor que eles inventaram e de uma arma em punho, amém.

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