www.dinheirovivo.ptAlberto Castro - 12 out 11:36

Antes só...

Antes só...

A votação do PS talvez signifique que os eleitores lhe deram a força para, governando sozinho, estabelecer as pontes que garantam a estabilidade

No rescaldo das eleições, António Costa tem insistido na ideia de que o voto evidencia o apoio público à geringonça. Uma análise aritmética simples contraria-o: tanto o Bloco como a CDU perderam votos, mais do que os que o PS ganhou. A união não fez a força: a “geringonça” não ficou imune ao aumento da abstenção, tendo menos votos do que em 2015. Nestes termos, a afirmação de Costa refletirá mais uma vontade política que um facto.

Quando escrevo (manhã de dia 10), continuam as negociações para um acordo que possa garantir um apoio parlamentar maioritário e a dita estabilidade, tão prezada por todos, do Presidente da República aos empresários. Enquanto isso, uma após outra, várias organizações internacionais têm vindo a antever cenários dominados pela incerteza, apontando, em geral, para uma desaceleração do crescimento económico, sem excluir a hipótese de uma recessão. Dir-se-ia: nada de mais! O capitalismo é atreito a estas crises conjunturais, cíclicas constipações que logo se curam. Acontece que, nessas análises, sobressaem dimensões políticas que complexificam e complicam as previsões, adensando as preocupações.

Neste contexto, há o risco de uma solução “estável”, resultante de um acordo com o Bloco, ser tudo menos duradoura ou desejável. Não são conhecidos pormenores das negociações. Porém, o programa eleitoral bloquista é pródigo em soluções estatizantes que introduzem rigidez e irreversibilidades nos aumentos de despesa, difíceis de compaginar com as respostas que a gestão da crise pode vir a requerer. Para já não falar do peculiar entendimento das reformas necessárias, centradas no ataque à iniciativa privada.

A votação do PS talvez signifique que os eleitores, recusando-lhe o poder absoluto (gato escaldado…), lhe deram a força e a responsabilidade para, governando sozinho, fazer uma gestão política diferente, estabelecendo as pontes que garantam a estabilidade do regime. O PS tem a legitimidade política para escolher os seus “compagnons de route”. Mas, como diz o povo, às vezes mais vale só do que mal-acompanhado.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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