www.publico.ptpublico@publico.pt - 12 out 05:15

Risco

Risco

A erosão da noção de risco em Inglaterra contrasta, a meu ver, com o resultado das eleições legislativas em Portugal.

O que é um comportamento de risco? A revolta contra a inércia dos políticos fase à mudança climática ou a recusa dos governos em mudar políticas que estão a destruir o planeta? Onde está a irresponsabilidade?

Os bancos dos países desenvolvidos passaram a emprestar aos pobres e remediados sem garantias, na expectativa de poder espremê-los eternamente com taxas de juro inadequadas. A tampa saltou em 2007, com milhões de pessoas no desemprego e sem casa. A falta de penalização favorece o comportamento de risco dos bancos. Praticamente nenhum gestor foi punido pela última recessão.

O Banco Central Europeu desempenhou um papel decisivo na recuperação desta recessão, embora o programa de aquisição massiva de ativos financeiros, dívidas do Estado e dívidas de empresas, com o objetivo de encorajar investimento e diminuir os juros, talvez tivesse sido melhor aplicado na distribuição de títulos e ações pela população pobre, de forma a diminuir a desigualdade social, como propõe Piketty. A descida a taxas de juro negativas trará forte insatisfação social, dada a difusão de comissões bancárias sobre depósitos, ou seja, poupanças. Esta sequência exemplifica um comportamento prudente mas discutível combinado com comportamento de risco.

O consumo de drogas antes dos 24 anos provoca psicoses e danos irreparáveis no cérebro. É responsável pelo aumento das doenças mentais entre os adolescentes, embora a crescente competitividade escolar também desempenhe um papel. A tensão entre expectativas e possibilidades de acesso aos empregos mais bem remunerados induz um comportamento de risco banalizado.

Os grupos etários de meia-idade e idade avançada consomem cada vez mais medicamentos para as dores ou para dormir, enquanto as drogas para simular uma agudeza perdida ou camuflar cansaço se difundem entre quadros, gestores e políticos. A fronteira entre droga e medicamento deixou de ser pertinente, a não ser por imperativos legais.

Em Londres, o consumo de cocaína atinge 23 Kgs, ou seja, cerca de 600.000 doses por dia, três toneladas ao ano, o equivalente ao consumo combinado de Barcelona, Amesterdão e Berlim (estudo de cientistas do KCL). O fenómeno está difundido: a cidade com maior consumo de cocaína na Europa é Bristol, entre 75 estudadas. A cocaína é agora muito mais pura e induz habituação imediata.

O vício do jogo foi largamente transferido para a internet, com as possibilidades infinitas oferecidas por 24 horas de acesso diárias. Pessoas de todos os grupos etários dedicam seis, sete horas por dia ao jogo. O romance de Dostoyevsky O jogador (1866), com a análise psicológica soberba deste comportamento compulsivo, ganha uma nova acuidade.

Embora os jovens tenham herdado enormes problemas acumulados pelas gerações anteriores e estejam confrontados com situações muito difíceis, a minha visão da nova geração é otimista. Há uma enorme criatividade entre os jovens, uma consciência aguda dos problemas ecológicos, uma preocupação com a qualidade e a origem dos alimentos, uma sensibilidade aos problemas psicológicos, uma vivência pós-racial. A resistência à difusão das drogas, do jogo, da ansiedade de género, da competição pode gerar novas formas de sociabilidade e novos projetos sociais.

Em política, o risco tende igualmente a ser desvalorizado. Os europeus não conseguem compreender a transformação da Inglaterra, conhecida pelo seu pragmatismo, num país que vota a favor do “Brexit" e assiste à maior transformação de sempre do Partido Conservador, cativo pela extrema-direita. A esmagadora maioria dos economistas alerta para os riscos de uma nova recessão britânica e internacional, mas quem se rala com isso? Os inquéritos mostram que a maioria dos conservadores aceita o desmantelamento do Reino Unido como preço a pagar pela saída da União Europeia.

Os Brexiteers consideram que o declínio económico será temporário e o futuro brilhante fora da União Europeia. Existe uma atmosfera casual, ‘logo se vê’, ‘porque não?’, sublinhada por anedotas confiantes que desvalorizam a noção de risco e a opinião dos especialistas, uns chatos.

Tenho fortes dúvidas que um novo referendo implique uma mudança de voto. A demagogia do ‘estamos melhor sozinhos’, ‘não precisamos de depender de Bruxelas’, ‘pagamos muito mais do que recebemos’ é imbatível, mesmo que se rebatam estas afirmações uma por uma.

Os Trabalhistas preocupam-se com a rutura da estrutura fiscal, a possível quebra do investimento do Estado, o dumping da legislação laboral e da proteção dos consumidores. Contudo, o neoliberalismo do tempo de Reagan e Thatcher, com redução do Estado, controlo do orçamento e confiança na mão invisível do mercado, já não é o mantra da direita.

As promessas de investimentos em educação e saúde por Boris Johnson, com simultânea redução de impostos, conduzirão a um enorme endividamento público. A provável crise económica ligada ao “Brexit” levará a medidas mais drásticas contra a legislação do trabalho e encorajamento do investimento estrangeiro de que o Reino Unido depende, mas não se vê como funcionará sem o mercado europeu associado.

A erosão da noção de risco em Inglaterra, curiosamente promovida pela população mais idosa, contrasta, a meu ver, com o resultado das eleições legislativas em Portugal. Vi Francisco Louçã congratular-se na televisão com a perda de mais 500 mil votos pela direita, já enfraquecida com menos um milhão em 2015, enquanto li João Miguel Tavares apontar para o futuro risonho dos partidos anti-establishment.

No primeiro caso há um raciocínio tradicional esquerda/direita que se baseia nas alianças do PS com o Bloco e a CDU. O segundo caso é ambíguo. Tanto o Livre como a Iniciativa Liberal dificilmente poderão ser classificados como outsiders. A chegada da extrema-direita ao Parlamento (Chega) é grave, mas nada que não se esperasse. Foi provavelmente precipitada pela implosão do CDS em Lisboa e retardada pelo bom trabalho do PCP no Alentejo, ao contrário do que aconteceu em França com a passagem direta de votos comunistas para a extrema-direita. A emergência do PAN, por seu lado, está em linha com o que se passa noutros países europeus, sobretudo a Alemanha. A surpresa é a continuação de uma forte votação no PSD depois dos cortes, é verdade há duas legislaturas, nas pensões de reforma e nos salários da função pública.

Predominou a visão pragmática entre o eleitorado, que premiou o re-equilíbrio do País conseguido pelo PS com o apoio dos partidos à sua esquerda, e promoveu pequenos reacertos nessa mesma esquerda. A direita vai ter que enfrentar uma crise prolongada. As utopias continuam sem aparecer e sabemos como fazem falta para empurrar o futuro. Mas Portugal foi sempre falho de movimentos utópicos; o velho sebastianismo nunca foi uma utopia, mas uma forma velada e sem riscos de oposição política. Houve, é certo, a exceção do anarquismo nas primeiras décadas do século XX. Talvez a nova geração traga o fermento para imaginarmos um futuro com menos desigualdade e mais solidariedade social.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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