blitz.ptblitz.pt - 12 out 09:00

A noite em que os fãs portugueses perseguiram os Pixies. A entrevista com David Lovering, baterista, mágico e o cavalheiro da banda

A noite em que os fãs portugueses perseguiram os Pixies. A entrevista com David Lovering, baterista, mágico e o cavalheiro da banda

Têm álbum novo e regressam em breve a Portugal para um concerto em Lisboa. Ao telefone de Inglaterra, o baterista David Lovering recordou a primeira vinda ao nosso país e mostrou-se extremamente grato pela nova oportunidade de trabalhar com Black Francis e comparsas. O “sonho” comanda a segunda vida dos Pixies.

Quando os Pixies se separaram, em 1993, David Lovering, baterista e um dos membros “de origem” do grupo, sentiu que perdera a sua identidade. O regresso da banda, primeiro aos concertos, depois aos discos, foi para este norte-americano de 57 anos um autêntico sonho. Agora que, com Black Francis, Joey Santiago e Paz Lenchantin, acaba de lançar “Beneath the Eyrie”, o terceiro álbum da segunda vida dos Pixies, David Lovering fala com gratidão de um dos seus empregos (o outro é o ilusionismo).

Que tipo de público têm encontrado nesta vossa digressão? Fãs de velha guarda, mas talvez miúdos mais novos, também?
No que toca à faixa etária, o nosso público é muito eclético. Quando estávamos no ativo, no final dos anos 80 e nos anos 90, tínhamos sobretudo homens da mesma idade e algumas mulheres. Desde 2004, os nossos concertos têm miúdos que nem eram nascidos durante a nossa primeira vida! E isso continua a acontecer até aos dias de hoje. O público vai dos fãs mais antigos – velhos, da minha idade (risos) – até aos miúdos mais novinhos. Pelo meio há avós, filhos, filhas, netos! Temos sorte de ter um público tão variado.

Por que razão terão os Pixies ganho tantos fãs entre a primeira e a segunda vida?
Entre 1993, quando nos separámos, e 2004, quando nos voltámos a juntar, os fãs de muitas bandas que nós supostamente influenciámos, como Radiohead, Weezer e outras, foram descobrindo os Pixies. Talvez tenha sido por isso.

Uma das frases que mais lemos sobre os Pixies é que, se não tivessem existido, os Nirvana também não...
Talvez não! Fico feliz por os Nirvana terem existido, eu gosto deles. (risos)

A internet não terá também tido um papel importante no crescimento dos Pixies depois de se terem separado?
Nunca pensei nisso, mas talvez seja verdade. Quando éramos uma banda [antes da seperação], não havia internet. Penso que o advento da internet mudou muita coisa e tornou os Pixies mais visíveis do que nunca a um grupo muito maior de pessoas.

Acabam de lançar um novo álbum, “Beneath the Eyrie”. Como foi gravá-lo, para os parâmetros dos Pixies? Muito complicado?
Acho que foi quase igual [ao que é habitual]. Devo dizer que passámos o ano anterior às gravações a escrever canções. Não o tempo todo, mas de forma intermitente. Umas semanas aqui, umas ali. Por isso, quando entrámos em estúdio, já tínhamos uma certa confiança - já sabíamos tocar as canções, pelo menos! Logo, gravar essas canções foi fácil. Mas entretanto, já em estúdio, escrevemos mais canções, e aí já foi mais difícil, porque tivemos de aprender a tocá-las ali mesmo. Isso foi um desafio. Conseguimos superá-lo, mas é mais difícil quando escrevemos no estúdio.

O estúdio onde gravaram é uma antiga igreja do século XIX, supostamente muito fantasmagórica. Já sabiam que ia ser assim, quando foram para lá?
Eu já tinha visto como seria o sítio, na internet. Mas a coisa mais assustadora não foi o estúdio ser numa igreja antiga, escondida na floresta, mas o dono da igreja-estúdio! Não é que ele fosse assustador, mas é um baterista de grande categoria a nível mundial, que eu admiro imenso. O seu nome é Jerry Marotta [baterista que tocou com Peter Gabriel e fez parte da portuguesa Banda do Casaco, no início dos anos 80]. E tocar à frente dele é uma vergonha para mim. Esse foi o meu maior pavor.

Entrou nos Pixies há mais de 30 anos. Quando formou a banda, acreditava que estava a embarcar numa aventura de longa data ou, na altura, foi algo mais espontâneo?
Quando começámos, tínhamos 20 e poucos. Com essa idade, não sabes nada. Claro que queríamos ser uma banda grande e fazer isto e aquilo, mas não conhecíamos o futuro. Quando nos separámos, foi arrasador. Perdi toda a minha identidade, foi muitíssimo complicado. E quando nos juntámos, para mim foi um sonho, algo que nunca acreditei que viesse a acontecer. Já tinha desistido de pensar nisso. Foi fantástico! Mas acho que, se nunca nos tivéssemos separado, provavelmente não estava aqui a falar contigo. Não sei o que teria acontecido! (risos) Mas estou feliz por ainda estarmos juntos e espero que continuemos assim.

É muito diferente pertencer à indústria musical no século XXI e no século XX?
Acho que não. É a mesma coisa. Enquanto banda, só nos preocupamos com o que fazemos, ou seja, gravar e tocar canções. Claro que os estúdios mudaram, com o digital e tal... Nos concertos, a única diferença é que hoje há ecrãs gigantes, o que significa que agora tenho de sorrir. (risos)

Ainda decidem os alinhamentos na hora, comunicando entre vocês por sinalefas?
Sim, é o nosso truque, como costumamos dizer. Levámos anos para aperfeiçoá-lo, agora somos profissionais. É divertido! Não saber qual é a canção que vem a seguir torna as coisas divertidas mas, para mim, o mais difícil é não olhar para o relógio que temos em palco e nos diz que temos 90 minutos para tocar. Não quero olhar para ele, para não saber quanto tempo falta. E está mesmo à minha frente. E se tocarmos além do tempo previsto somos multados! Têm de voltar a usar aquela bengala com um gancho na ponta, para nos tirarem do palco! (risos)

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Acompanharam as gravações deste disco num podcast. Como foi essa experiência?
Foi bom! A princípio foi um pouco assustador, porque nunca ouvi muitos podcasts e não sabia o que pensar - pela primeira vez tínhamos alguém connosco em estúdio, 24 horas por dia, com microfones por todo o lado. No começo foi muito esquisito, escondíamo-nos e nem falávamos, mas lá mais para o fim já nos tínhamos tornado todos muito bons a falar em público. (risos) Sabes, eu sou fã da banda Rush. Adoro-os. E tenho um DVD deles, que nos extra os mostra num restaurante, só a falar. E, para mim, essa é a melhor coisa dos Rush que já vi na vida. Fiquei maluco. Se puder comparar isso com este podcast, onde as pessoas nos podem ouvir a sermos pessoas… se fores fã dos Pixies, penso que vais gostar.

Ainda faz espetáculos de magia?
Sim! Pouco depois de os Pixies se separarem, em 1993, fui a uma convenção de magia, por mero acaso. E fiquei maluco. A partir desse momento comprei todos os discos, todos os vídeos, frequentei aulas, durante anos estudei e continuo a estudar. E consegui tornar-me mágico profissional. Desde então que atuo como mágico. Os Pixies ofuscaram um pouco [essa minha faceta], já não tenho feito tantos espetáculos, mas adoro magia.

O que retira da magia é parecido com o que retira da música?
O primeiro concerto que dei com os Pixies, em 1985 ou 1986, com 10 pessoas a ver, foi o concerto mais assustador de sempre. Foi arrasador. Porque era a primeira vez que tocava com eles. Desde então, nunca mais fiquei nervoso. Posso ter 200 mil pessoas à frente, não importa. E digo isso porque tenho três pessoas à minha frente e estou atrás da minha bateria. Não estou ali sozinho e é muito fácil de fazer. Agora, quando dei o primeiro espetáculo de magia, tinha cinco pessoas no público. Nunca suei tanto na vida. Foi mesmo assustador! Mas se o fizeres repetidas vezes, ganhas uma certa confiança. Agora já me sinto confortável.

Ao contrário do que acontece com a banda, num espetáculo de magia todas as atenções se concentram em si...

Só com a experiência é que ultrapassas os nervos e ganhas confiança. O que a magia me deu foi isso: confiança. Eu era meio tímido, mas a magia deu-me essa confiança… é uma vantagem que eu nunca esperaria retirar da magia.

Costuma ter fãs de Pixies a assistir aos seus espetáculos de magia?
O meu espetáculo de magia chama-se The Scientific Phenomenalist e com ele já fiz as primeiras partes de concertos dos Pixies, das Breeders e de várias outras bandas. O mais engraçado é que o meu espetáculo até podia ser uma porcaria mas, como sabem que sou dos Pixies, aplaudem! (risos) Quando abro para bandas rock, o público está do meu lado.

Atualmente, vive onde?
Vivo num sítio chamado Santa Ynez Valley, no centro da Califórnia. Conheces o filme “Sideways”, sobre vinhos? É aí mesmo que eu vivo. É bem bom, eu gosto de vinho! (risos)

Vai aproveitar para provar o vinho português, quando vier a Lisboa?
Claro! E caldo verde!

É verdade que, quando vieram pela primeira vez a Portugal, em 1991, os Pixies foram “perseguidos” pelos fãs?
É verdade! Nunca me esquecerei, porque foi a primeira vez, e talvez a única, que isso aconteceu. Foi uma loucura. Éramos uma banda jovem, a sair da sala do concerto [Coliseu de Lisboa], e as pessoas desatam a correr atrás de nós! Isso nunca nos tinha acontecido. Vai ficar na minha memória para sempre. (risos) Pensámos: “uau, as pessoas gostam de nós”. Foi muito excitante!

Recentemente tem-se falado bastante sobre os problemas de saúde mental entre músicos. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Quando os Pixies se separaram, aquela era a minha identidade. Se estiveres na mesma banda durante anos a fio, a tua vida é a banda. A tua identidade, de certa forma. As bandas dão-te essa identidade falsa, eu acho que é falsa. Porque podia acontecer em qualquer profissão. Tenho a certeza que, se fores despedido de qualquer emprego, ficas deprimido. Mas por alguma razão, se fores músico e não puderes continuar, parece mais duro! Não sei se tem a ver com o lado artístico que estás a perder, e que causa um impacto maior. É horrível. Compreendo o que está subjacente [às depressões]. Penso que é o lado artístico que torna esse sentimento mais pesado. É engraçado, porque ter tido uma segunda oportunidade faz-nos pensar nisso, também. Bem sei que, naquela altura, me senti terrivelmente mal. Talvez agora veja as coisas de forma diferente ou mais preparada.

Os Pixies tocam no Campo Pequeno, em Lisboa, a 25 de outubro

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